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19 anos da partida de Dom Helder Camara

Hoje, recordamos a partida de três grandes profetas que, como bispos, marcaram a caminhada da Igreja no Brasil. Nesse dia, em 1999, partiu Dom Helder Camara. Na mesma data, em Mariana, partiu Dom Luciano Mendes de Almeida. No ano passado, em Belo Horizonte, vimos partir Dom José Maria Pires. Com Dom Luciano, tive bons contatos, mas ocasionais. De Dom José Maria fui amigo e com ele convivi momentos fundamentais de minha vida. Tive a graça de ter sido ordenado padre por Dom Helder e com ele trabalhei como assessor nove anos de minha vida, além de tê-lo acompanhado em alguns momentos que me ensinaram muito. 

Nesse sábado, 25,  à tarde, na Igreja das Fronteiras, fizemos um bom encontro para celebrar a memória do Dom. Ali adolescentes da Casa Frei Francisco recitaram um bonito jogral. Júnior Aguiar e Daniel Barros, dois jovens e excelentes atores, encenaram belos textos de Dom Helder. Cantamos alguns cânticos que nos recordam o Dom. E depois de proclamado o evangelho das bem-aventuranças, me foi pedido de dizer algumas palavras. 

Resumo aqui o que falei:

No evangelho, as bem-aventuranças não são apenas bênçãos. E bem-aventurados/as significa mais do que apenas Sejam felizes.... Bem-aventurados são pessoas às quais Deus reconhece e proclama a sua honra, a sua dignidade. Em uma sociedade na qual quem é pobre, quem chora, quem é humilde e assim por diante não tem reconhecimento de ninguém, Deus lhes restitui a honra e a dignidade fundamental. Hoje vivemos em uma sociedade que fabrica diariamente uma multidão de pessoas descartáveis. No Brasil, a cada dia, aumenta o número de pessoas que vivem nas ruas, abandonadas, jogadas à própria sorte. O evangelho é dado para restituir a essas pessoas sua consciência de ser dignas e a força para lutar pela libertação. E a Igreja de Jesus deveria ser para isso. Dom Helder (e hoje dizemos: Dom José Maria e dom Luciano) viveram e lutaram por isso. 

Temos de superar o Cristianismo que fala de Deus como se fosse uma pessoa narcisista que gosta de ser adulado. Temos de superar essa Igreja que pouco se importa com a vida do povo. Nós estamos reunidos em um templo do século XVII. Quantas vezes, sentados nessas cadeiras, não estavam senhores e senhoras de escravos e o celebrante lhe deu a comunhão e lhes ajeitou a consciência para eles continuarem sendo senhores de escravos. Hoje, estranhamos isso, mas será que daqui a algum tempo, as pessoas do futuro não poderão estranhar de que nós vivemos a nossa fé tranquilamente simplesmente convivendo com tantas injustiças sociais? 

Nós estamos em uma Igreja institucional que desde os anos 80 regrediu muito. Há quem diga que mesmo nesses tempos do papa Francisco, se olharmos hoje como estão os nossos seminários e muitos dos seus formadores, nesse jeito da Igreja ser, provavelmente Dom Helder não seria aceito nem para ser padre, quanto mais bispo... 

É preciso mudar isso e se lemos as vigílias e outros textos do Dom percebemos que ele sempre confiou muito nos leigos e leigas. Vocês têm de assumir essa tarefa profética de não se conformar e nem ficar calados/as diante das omissões eclesiásticas e das posturas conservadoras de muitos irmãos do clero. Se fizermos isso, cada qual do seu modo, todos nós seremos bem-aventurados/as. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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