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A assunção nossa de cada dia

A assunção nossa de cada dia

                   Nesse domingo, o mais próximo do 15 de agosto, no Brasil, a Igreja Católica celebra a assunção de Maria. Esse dogma, proclamado pelo papa Pio XII em 1950, não é bíblico nem ecumênico. Além disso, em um mundo no qual precisamos testemunhar a fé em uma linguagem compreendida pela humanidade atual, precisamos ir além da antropologia antiga com a qual os antigos falavam em ressurreição corporal e assunção de Maria em corpo e alma. Certamente, o que resta sempre atual é buscar a boa notícia que podemos descobrir através dessa imagem de assunção e o que através disso, o Espírito nos diz, hoje, às Igrejas. 

A primeira coisa a se dizer é que o ser assumido/a por Deus como Maria foi é a promessa bíblica feita a todos nós. Então, nessa festa da assunção, a Igreja contempla em Maria aquilo que, de certa forma, é destino e vocação de todos nós.  No entanto, essa ressurreição ou como a tradição diz de Maria (assunção) não é apenas um momento (quando se morre) e sim é um processo de toda a vida. Tanto no plano pessoal como coletivo, nossa vocação é uma permanente e progressiva elevação do nosso ser para Deus, ou seja para o Amor. Podemos dizer que a assunção em linguagem atual significa um processo de amorização cada dia mais profundo. Nos meados do século XX, Theillard de Chardin, paleontólogo e espiritual, falava em passar da biosfera para noosfera (a esfera da interiorização) e afirmava que todo o universo evolui e converge. E essa convergência é na linha da  cristificação para Deus. Como escreve Paulo aos coríntios: “até que Cristo seja tudo em todos”. 

Penso que falar de assunção de Maria em outros termos ou seria ficar no mito ou em uma visão paganizada de uma Nossa Senhora deusa. Uma visão evangélica desse processo é na linha da transformação progressiva do nosso ser. Na carta aos romanos, Paulo escreve: “A criação inteira sofre como em dores de parto e mesmo nós que temos as primícias do Espírito gememos dentro de nós mesmos esperando a libertação do nosso corpo”(Rm 8, 22- 23).

É bela essa imagem do parto da criação e parto permanente de cada um/uma de nós. Jesus também usou essa imagem, quando, na ceia, afirmou aos discípulos: “A mulher quando está para dar a luz sofre porque vê chegada a sua hora, mas na hora em que a criança nasce se alegra porque pôs no mundo uma vida nova”(Jo 16, 22). 

Nós estamos continuamente nesse parto de ressurreição pessoal e comunitária ou mesmo coletiva e cósmica. Nas celebrações da festa da assunção de Maria, a primeira leitura é tirada do Apocalipse 12. Mostra no céu a figura de uma mulher grávida, com a lua debaixo dos pés e coroada com doze estrelas. O povo cristão sempre viu nessa figura simbólica a imagem da nova humanidade, da humanidade messiânica representada pela mulher. O Apocalipse fala da mulher grávida como profecia e sinal dessa humanidade nova. A mulher é quem representa essa humanidade sempre em trabalhos de parto de um novo ser humano, uma nova humanidade. 

Não é possível nesses dias não associarmos esse processo de assunção com a Marcha das Margaridas. Margarida Alves foi uma lavradora, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, PB, assassinada em 12 de agosto de 1983. Desde o ano 2000, por ocasião do aniversário do martírio de Margarida Alves, mulheres lavradoras de todo o Brasil se unem, cada ano, por ocasião dessa data na Marcha das Margaridas. Uma caminhada que expressa o compromisso das mulheres com a transformação do Brasil e do mundo. Nesse ano, marcharam em Brasília no dia 14, em defesa da soberania popular, da democracia ameaçada, da justiça e igualdade.E segundo as notícias desse ano, foram mais de 100 mil mulheres e além das que vieram de todo o Brasil, se juntaram companheiras vindas de 26 países do mundo todas em uma marcha que se tornou tradução laical e concreta desse processo de assunção da Mulher e da humanidade. Na véspera, dia 13, também em Brasília, a 1ª Marcha de Mulheres Indígenas contou com mais de 2000 participantes e teve como tema: “Território, nosso corpo, nosso espírito”. É a própria celebração da assunção dos povos indígenas que se reconhecem como filhos e filhas da Terra e participam assim da assunção de toda a humanidade identificada com a casa comum. 

O Evangelho lido nessa festa da assunção de Maria é o episódio da visita de Maria grávida à sua prima Isabel (Lucas 1, 39 – 56). Ali a comunidade de Lucas já vê em Maria, a imagem da humanidade nova, grávida de um novo jeito de ser humano. O relato se inspira na história que conta na época de Davi, a transferência da arca da aliança de Obed Edom para Jerusalém (2 Sm 6). Como a nova arca da aliança entre Deus e a humanidade, Maria sobe as montanhas de Judá para servir. Servir ao outro, à outra é o modo de viver a gravidez da assunção em nossas vidas. É a partir desse paradigma (servir) que as pessoas que se sentem velhas e estéreis como Isabel podem descobrir uma vida nova dentro delas e se tornam profetizas do Cristo que está no outro. E esse encontro entre Maria e Isabel, como entre as profetizas da Marcha das Margaridas e todos nós que as acolhemos e nos vemos nelas representados, provoca a confiança feliz do cântico profético e sempre atual que nunca podemos deixar de cantar. Existe por aí um louvor a Deus que não aprendeu nada da visitação de Maria porque é louvor sem profecia. Maria nos ensina ainda hoje a louvar a Deus porque ele derruba os poderosos de seus tronos e eleva os pequeninos. Que o espírito desse cântico nos revele hoje o sentido da Marcha das Margaridas e o caminho de nossas assunções. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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