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A fome e a ceia do Ressuscitado

                     Nesse 3o domingo da Páscoa, em todo o Brasil, para todas as pessoas que, como diz o evangelho, têm fome e sede de justiça, o clima está mais para sexta-feira da Paixão do que para a celebração pascal que esperávamos viver. O golpe de Estado se amplia a cada dia, agora com a prisão ilegal e injusta do presidente Lula. Há um mês exato do assassinato de Marielle Franco, o clima de ódio e violência continua se espalhando pelo país e os grandes meios de comunicação apostam no pior. 

            É claro que sempre há sinais de Ressurreição. Como não ver uma imagem do ressuscitado nas comunidades indígenas de todo o Brasil que resistem a todos os sofrimentos? Nesses dias, índios de todo o Brasil se preparam para armar em Brasília mais um Acampamento Terra Livre. Dessa vez, a meta é unificar as lutas indígenas em defesa da garantia dos direitos dos povos originários. O MST suspendeu as ocupações previstas para o Abril Vermelhopara apoiar e participar dos acampamentos de luta pela liberdade de Lula. E na vida da gente, essa mistura de temor e esperança, dor e alegria se misturam de forma desorganizada. Nas comunidades eclesiais, se lê a presença de Jesus ressuscitado aos discípulos e discípulas, reunidos em Jerusalém (Lc 24, 36 ss). 

                      O evangelho não fala em aparição e nem manifestação. Fala em que ele esteve com eles. Insiste na alegria mas também nas dúvidas e na falta de fé. Em sua cultura, eles pensam estar vendo um fantasma, um espírito. Como se espírito pudesse ser visto. E Jesus insiste com eles: um espírito não tem carne, nem osso como vocês veem que eu tenho. E como em outras vezes nas quais foi visto, o Ressuscitado sempre pergunta por comida. É um ressuscitado faminto. Para a cultura deles é a forma de dizer que é alguém real e está vivo. Quem está vivo come. Hoje, em nossa cultura atual, temos muita dificuldade de compreender essa história de corpo ressuscitado que tem fome e come, mas ao mesmo tempo aparece e desaparece, como se não fosse matéria. 

Podemos e devemos buscar e aprofundar outras formas novas de dizer a nossa fé de que Jesus está vivo e presente em nós e no meio de nós. No entanto, antes mesmo de qualquer reflexão racional, somos convidados a nos identificar com aquela comunidade que quando descobriu a presença de Jesus, começou a percebê-la pelas chagas das mãos, dos pés e do lado ferido. Hoje ainda, somos convidados/as a distinguir como primeiros sinais da ressurreição as chagas de quem está junto a nós e assim mesmo vem, está e permanece conosco. E nós mesmos passamos a ter coragem de também deixar ver nossas chagas para que sejam chagas de pessoas ressuscitadas. E contemplando ressurreição nas chagas uns dos outros, podemos atualizar a missão que Jesus deu à primeira comunidade cristã: testemunhar o amor e o perdão de Deus para o mundo todo. Talvez naquela época a insistência em falar da ressurreição no corpo fosse reação contra os grupos gnósticos que pensavam em um Jesus etéreo, divino, mas sem carne humana e sem concretitude de pessoa igual a nós. Hoje, parece-me que grande parte da juventude ou das juventudes atuais nos desafia a descobrir o rosto do ressuscitado na delicadeza frágil das relações  afetivas, na liberdade de um erotismo que descubra o outro como outro e torne as pessoas parceiras de carinho gostoso e não reduza ninguém à posse de outro. 

As simples alegrias da vida, como o companheirismo, o reencontro de pessoas que se querem bem e o comer juntos devem ser para nós celebrações cotidianas de ressurreição nas quais vislumbramos e podemos também iluminar no rosto de quem convive conosco os traços do Ressuscitado. A sociedade em que vivemos faz questão de comercializar tanto as refeições tornadas fast-food em shoppings de consumo. E as Igrejas que poderiam insistir na profecia da comida como comunhão (e isso foi o pedido expresso de Jesus) estilizaram de tal modo o sacramento da ceia que ela parece tudo menos uma ceia real e verdadeira de convívio e comunhão. E as pessoas que em Igrejas católicas e evangélicas acham normal comungar em fila (em casa ninguém almoça ou janta em fila), nem percebem que o sacramento de comer juntos está se perdendo. Quem sabe, essa celebração pascal possa nos ajudar a recuperar o sentido do ágape fraterno, da partilha do pão e do vinho, como do arroz e feijão, do cafezinho ou de um suco ou cerveja, como expressão de carinho e amor no qual a pessoa com a qual estamos nos ressuscita para o amor e pode ser ressuscitada por nós. Aleluia.   

 

 

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Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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