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​Artigo, domingo 06 de outubro 2013

Marina e o Chavismo

Nesse domingo à noite, surpreendo-me ao ler, no site da Agencia Carta Maior, a declaração de Marina Silva: “A minha briga, nesse momento, não é ser presidente da República. É contra o PT e o chavismo que se instalou no Brasil”. Como a declaração teria sido feita à agência Globo, precisamos, em primeiro lugar, confirmar se ela disse isso mesmo.

Escrevo essas linhas para afirmar que me nego a crer. Não posso acreditar que a Marina que eu conheci e da qual me tornei amiga desde os tempos do Acre, de senadora e finalmente de ministra do meio ambiente, essa Marina, evangélica e de uma integridade profunda, tenha resvalado para uma politicagem que troca um projeto de transformação do mundo e do Brasil por uma briguinha contra o PT e contra o que ela chama de “chavismo que se instalou no Brasil”. Se alguém me convencer de que Marina fez mesmo essa declaração, só posso compreender isso como uma profunda desinformação histórica e certa irresponsabilidade política que não me parece coerente com a ética evangélica que ela se propôs a seguir:

1º - não ceder a ressentimentos que vão na direção do desamor e da vingança (com relação a Lula, Dilma e ao PT)

2º - não dar declarações que acabam por prejudicar um ideal profundo e nobre como o novo Bolivarianismo em curso em toda a América Latina, processo social e político que eu e muitas pessoas que têm fome e sede de justiça desejaríamos imensamente que, de fato, estivesse instalado no Brasil e, de fato, tivesse o apoio e participação do PT. Será que Marina não sabe que se os governos do PT não apoiaram como deveriam a sua luta pelo meio ambiente e pela defesa da mãe terra foi justamente por não terem entrado mais profundamente no espírito do Bolivarianismo ou como diz ela do Chavismo?

Já em 1965, durante a quarta sessão do Concílio Vaticano II, em uma de suas vigílias da madrugada, o querido mestre Dom Hélder Câmara escreveu em uma carta circular, enviada ao grupo de seus/suas colaboradores/as: “O encontro com Monsenhor Dell´Acqua, secretário e conselheiro do papa Paulo VI, merece menção.(...) A problemática da América Latina e do 3º Mundo lhe era familiar. (...) Entende e estimula o novo Bolivarianismo, no sentido do esforço conjunto para a independência econômica do Continente, em articulação sempre maior com o 3º Mundo e abertura para o mundo inteiro. Entende e estimula a cobertura da Igreja à ideia de um Mercado Comum Latino-americano...”[1].

Não posso acreditar que a Marina, na qual um dia acreditei e em quem apostei como modelo de política justa e ética, prefira os tratados de aliança com os Estados Unidos como a ALCA (na qual nós, brasileiros, entraríamos como país submisso) à nova integração latino-americana proposta e conduzida pelo presidente Chávez e que hoje se expressa na ALBA (Aliança bolivariana dos povos da América), UNASUR (União das Nações do Sul) e CELAC (Comunidade dos estados latino-americanos e caribenhos). Será que Marina não leu que a ONU declarou oficialmente que a Venezuela (a partir do tempo de Chávez) foi o país latino-americano que mais conseguiu acabar com a desigualdade social e a pobreza injusta? Será que  não sabe que a Venezuela chavista ganhou o prêmio da UNESCO por ter conseguido em poucos anos reduzir o analfabetismo a zero? Não leu que a FAO, organismo da ONU contra a fome, declarou que a Venezuela garantiu a segurança alimentar para todo o seu povo?

Por que então essa rejeição à integração latino-americana e ao novo processo social e político emergente nesses países?

Por acaso é por rejeitar o caminho para o Socialismo que a República Bolivariana da Venezuela, através do presidente Chávez, tem assumido como opção? De fato, Marina, você tem razão. Como afirmou o professor e cientista português Boaventura de Sousa Santos: “A América Latina tem sido o continente, onde o socialismo do século XXI entrou na agenda política”[2]. E devemos isso ao presidente Chávez.

Sem dúvida, é mais fácil fazer aliança pragmática com o dito PSB tucanizado que é tão socialista quanto uma empresa de petróleo pode ser ecológica.

No segundo turno das eleições presidenciais de 2010, Maurício Abdala, escritor e poeta de Vitória, ES, escreveu um artigo no qual retomava a canção de Dorival Caymi e afirmava:

“Marina, morena, não pinte esse rosto de que eu gosto e é só seu.            Marina, morena, você já é bonita com o que Deus lhe deu”.

Espero sua retratação e que possa fazer as distinções necessárias. Possa sim criticar o PT, possa sim dizer que simpatiza ou antipatiza esse ou aquele estilo ou palavra do Chávez, com o qual é seu direito discordar, mas deixe claro que se une a nós todos, latino-americanos irmanados nesse processo bolivariano. Assim, não teremos a tristeza de cantar como o poeta finaliza sua canção: “Desculpe, Marina, morena, mas eu tô de mal, de mal de você...”.

Uma vez, alguém me disse: “Uma pessoa é boa até que deixa de ser”. Sua declaração à Globo, minha irmã Marina, me faz recordar essa afirmação de um sábio popular.

[1] - DOM HELDER CÂMARA, Circulares Conciliares, Volume I – Tomo III, 68ª Circular, Roma 16/ 17. 11. 1965, Recife, Editora CEPE, Instituto Dom Helder Câmara, 2009, p. 253.

[2] - Cf. BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, A esquerda tem o poder político, mas a direita continua com o poder econômico. In Caros Amigos, março 2010, p. 42. 

[1] - DOM HELDER CÂMARA, Circulares Conciliares, Volume I – Tomo III, 68ª Circular, Roma 16/ 17. 11. 1965, Recife, Editora CEPE, Instituto Dom Helder Câmara, 2009, p. 253.

[2] - Cf. BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, A esquerda tem o poder político, mas a direita continua com o poder econômico. In Caros Amigos, março 2010, p. 42. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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