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Conversa, sábado, 20 de fevereiro 2016

Caratinga é uma cidade atravessada pela chamada rodovia Rio Bahia (BR 116) na região leste de Minas. Eu passava por lá nos anos 70, indo ao Rio ou São Paulo. Atualmente tem cem mil habitantes e eu voltei lá para, nesse final de semana, assessorar um curso de formação da UNIPAZ sobre Espiritualidade interreligiosa.

A viagem é longa. De Recife a Belo Horizonte de avião. De Belo Horizonte a Ipatinga de trem. Em funcionamento no Brasil, só existem dois trens interurbanos ou interestaduais. Ambos da Vale do Rio Doce. Um que faz de São Luiz do Maranhão a Imperatriz. E o outro é esse que faz de Belo Horizonte a Vitória, ES. Sai de Belo Horizonte às 07, 30 h da manhã e chega em Ipatinga ao meio dia. Passa pelas grandes montanhas de Minas e aí vemos a destruição provocada pela mineração. Além de cruzar no caminho com vários trens de minério de ferro, imensos e tristes a levar minério para o porto de onde embarcarão para o Japão, China e Europa.

De Ipatinga, me trouxeram de carro a Caratinga (uma hora e meia de carro). Amanhã, saio de manhã, viajo o dia inteiro e chego à noite em Recife. Só durmo lá e já viajo ao norte da Itália para concluir o livro sobre o evangelho de João com um grupo bíblico de Pinerolo, perto de Turim.

Esse curso da UNIPAZ- MG é feito em uma escola que funciona na casa de uma família de agentes de pastoral (católicos) e que há anos, se consagram à formação em saúde popular (medicinas alternativas). Uma das professoras é Maria Eliana. Um dia ela lembrou que aos seis anos, a sua avó lhe dizia: "Minha filha, não se esqueça: você é índia. Pataxó. Mas, não diga a ninguém. Indio/a, as pessoas matam. É melhor ninguém saber. Nós nascemos na Bahia, na região de Santa Cruz Cabrália. Incendiaram nossa aldeia, mataram muitos de nós, minha família fugiu comigo bem pequena.... Converse com a natureza e ela te conta tudo o que vc precisar". Agora, já adulta e casada, Eliana resolveu voltar à região da Bahia visitar os pataxós. Ao chegar lá, disse o nome de sua avó e de sua família. Imediatamente as pessoas disseram: "Nós conhecemos sua família. Você é nossa parente". E a pajé (Xamã) disse: "Você vai sonhar a missão que vc tem". E ela sonhou que rezava e curava pessoas. A partir daí começou a descobrir o Xamanismo e pratica as danças xamânicas e faz terapias de ervas e de cura pela terra. A terra faz recuperar as memórias que podem curar...

Nesse curso da UNIPAZ, eu assessoro o conteúdo do estudo e Eliana pratica com as pessoas as danças indígenas. Belíssimas e profundas. Eles aprendem comigo algumas coisas e eu aprendo com eles e elas muitas coisas.

Vale a pena o cansaço e a correria. Viva Deus. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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