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É tempo de testemunho

É tempo de testemunho!

                    Nesse penúltimo domingo do tempo comum (ano C), o evangelho lido hoje nas comunidades, (Lucas 21, 5- 19), nos traz as palavras de Jesus que nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas constituem o último discurso de Jesus aos discípulos e ao povo. O assunto é como interpretar a história a partir do martírio (testemunho) de Jesus e também das pessoas que aceitam segui-lo nesse testemunho em meio às perseguições da sociedade dominante.   Em Lucas, o texto parte de uma cena no templo de Jerusalém, Os discípulos e pessoas do povo admiram a beleza e o esplendor daquela construção e Jesus os surpreende anunciando que tudo aquilo será destruído. Para eles que as ouviam, aquelas palavras de Jesus eram muito chocantes. Por dois motivos. O primeiro é que a tradição judaica acreditava que Deus tinha prometido ser presente ao seu povo a partir do templo e portanto anunciar a destruição do templo era praticamente dizer que Deus estava abandonando o seu povo. O segundo motivo de espanto nas palavras de Jesus é que ele ao dizer aquilo não parecia estar lamentando e chorando. Jesus dizia que a destruição do templo (e mesmo de Jerusalém) não significará ainda o fim do mundo. 

Todos compreenderam: o que vai acabar não será apenas a construção material do templo. É a própria estrutura que ele significa. É a religião centrada no poder e em uma visão de Deus que gosta de adulação e sacrifícios. Jesus já tinha dito isso quando expulsou do átrio do templo os animais para sacrifício e os cambistas. Apesar de parecer muito santa, a religião do sacerdócio e das leis de pureza está condenada. A partir daí, Jesus adverte: os messianismos também não resolvem (muitos virão em meu nome e dirão: eis-me aqui, eis-me ali. Não os sigam). Não podemos viver a fé de modo ingênuo. O evangelho de hoje diz: Que ninguém vos engane. Também não podemos viver como se estivéssemos no final da história. O evangelho diz claro: ainda não será o fim. É preciso interpretar os sinais de cada momento, mas saber que nenhum é final. A história segue e Jesus adverte de que o normal é que seus discípulos e discípulas sejam incompreendidos/as e perseguidos/as. E nesse contexto de tensão e perseguição, somos chamados a dar testemunho.  

Em Marcos 13, Jesus fala essas palavras como uma confidência feita na intimidade aos discípulos mais chegados. Em Mateus (24), o anúncio da destruição de Jerusalém é visto como o começo do fim do mundo. No evangelho de Lucas, Jesus fala a todo mundo que está no templo. O que ele propõe é  que sempre procuremos interpretar o tempo em que vivemos. Interpretar a realidade (o tempo) pode ser feito através do estudo e de uma análise de conjuntura. Fazemos isso nos encontros de movimentos sociais e pastorais. E é bom e útil. No entanto, a interpretação da realidade que Jesus pede é mais exigente. É compreender o que está acontecendo e discernir o que nos compete fazer nesse contexto. É responder à realidade com o nosso testemunho de vida. 

Na realidade que vivemos hoje, a religião que se expressa no poder continua ativa. Ainda nesses dias na Bolívia, a Conferência dos bispos católicos se manifestou publicamente contra o governo progressista que foi derrubado. Afirmou que o golpe não foi golpe e conclamou as forças armadas para intervirem em favor da propriedade (a propriedade em primeiro lugar) e da vida das pessoas. Ao mesmo tempo, o candidato golpista, responsável por atos de violência contra os índios e contra os considerados esquerdistas, anda com a Bíblia nas mãos e se proclama religioso. 

Na Igreja Católica, nesses dias, uma carta de intelectuais e de pessoas do clero acusam o papa de idolatria e heresia por respeitar e acolher símbolos das religiões indígenas como a estátua da Mãe Terra. Para alguns setores da Igreja, ordenar homens casados e reconhecer a missão das mulheres nas comunidades e dar a elas acesso aos ministérios ordenados parece colocar em risco a integridade da fé e o futuro da Igreja. Talvez grupos conservadores de hoje veem essa proposta de abertura do Sínodo sobre a Amazônia como na época dos evangelhos, muitos cristãos ligados à tradição judaica interpretava os sinais da destruição do templo e da própria cidade de Jerusalém.  O evangelho precisava dizer: “Isso não é o fim”. 

Os meios de comunicação anunciam aumento imenso da pobreza nesses últimos dois anos e especialmente no Brasil uma situação social calamitosa. Apesar disso, a elite que ganha com a crise e muitos que identificam fé e hegemonia religiosa ainda parecem apoiar o atual desgoverno, presidido por gente que, com toda a não violência do evangelho, temos de reconhecer: ou é psicopata, ou criminosa, ou oportunista. 

Nesse penúltimo domingo do tempo comum, pelo terceiro ano consecutivo, o papa Francisco propõe celebrarmos o Dia Mundial dos Pobres. A ONU consagra um dia (16 de outubro) ao combate contra a pobreza no mundo  e isso é bom. Mas, o papa insiste que a característica da nossa fé é testemunhar que os pobres são pessoas concretas, têm rostos e além da luta contra a pobreza, temos de garantir a dignidade deles/as e propor para as pessoas concretas que são vítimas da pobreza injusta um relacionamento humano e fraterno. Na mensagem que enviou para a comemoração desse dia, o papa escolheu como tema a palavra do salmo 10: “A esperança dos pobres nunca será frustrada”. Essa palavra contém uma verdade que é promessa divina e que o evangelho de hoje garante aos discípulos/as e aos pobres e aos que defendem os pobres como hoje vemos na América Latina e no Brasil: “vocês serão presos e perseguidos, serão levados diante dos tribunais por causa do meu nome” – (ou seja por causa do projeto divino da justiça social e da transformação da sociedade que Jesus propõe). “Eu vos darei palavras tão acertadas que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater” (Lc 21, 12- 15). No entanto, essa promessa não é mágica ou mecânica. É preciso que, por nosso modo de ser, nosso estilo de vida e nossa ação social, façamos com que essa palavra da Bíblia não se torne uma promessa mentirosa. Temos de testemunhar que Jesus não é caloteiro, alguém que promete e não cumpre. E temos ainda o desafio de viver esse testemunho, sabendo ser radicais e intransigentes na defesa do direito dos pobres e da Mãe Terra, mas mantendo nosso coração livre do ódio, da intolerância e cheios da ternura divina do Espírito que transforma o mundo e a nós mesmos. O discurso do evangelho de hoje que o lecionário interrompe no versículo que diz: “é pela vossa perseverança (isso é, vossa constância na paciência ativa e na fidelidade aos vossos princípios) que ireis salvar as vossas vidas”(Lc 21, 19)

 

 

 

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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