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Eu tenho um sonho

                  Há exatos 50 anos, no 04 de abril de 1968, uma bala tirava a vida do pastor Martin-Luther King e queria acabar com a luta pela igualdade racial e pela libertação do povo negro nos Estados Unidos. Foi o contrário. Apesar de um golpe terrível e sentido por todas as pessoas de paz no mundo inteiro e especialmente pelas pessoas que participavam daquela luta nos Estados Unidos, o martírio do pastor trouxe uma vitória fundamental à caminhada dos negros. 

                É claro que os Estados Unidos e o mundo capitalista continua racista porque não dá para separar discriminações por gaveta e onde se acha normal que alguém seja milionário e outro viva abaixo do nível da pobreza, essa sociedade é injusta, cruel e como tal é racista, sexista, elitista e assim por diante... É tudo o que é desumano. Mas, apesar disso, ninguém conseguiu calar o grito dos negros. Não se pode sufocar a profecia da liberdade e o sonho de Martin-Luther King continua vivo e inspirador para toda pessoa que reconhece em si mesma e nos outros um filho ou filha do amor e é sedento/a de paz e de justiça.

                Esse jubileu do martírio de Martin-Luther King ocorre no Brasil no mesmo dia em que o Supremo Tribunal Federal vai dar uma sentença definitiva sobre a condenação sofrida pelo ex-presidente Lula. Os meios de comunicação fizeram o possível para pressionar e garantir que a prisão seja efetuada já que no Brasil não há ainda oficialmente pena de morte. Quem sabe, a Globo e a Band e a revista Veja descubram que esse é o momento de instaurá-la e Lula poderia ser a primeira vítima. Afinal ontem eles reencenaram nas ruas e praças do Brasil a cena evangélica da condenação de Jesus - Crucifica-o, crucifica-o!...   

           Sem dúvida, algum cristão mais escrupuloso pode me perguntar como ouso comparar Lula com Jesus. Foi ele mesmo Jesus que me deu essa liberdade. Ele falou: Tudo o que fizerdes a um desses pequeninos foi a mim que fizestes... Ele me ensinou a ver em qualquer pessoa privada dos seus direitos de defesa e julgada por indícios e não por provas a imagem do Cristo crucificado. Independentemente de concordar ou não com todas as posturas e atitudes políticas de Lula, a opinião pública internacional mais consciente ressoa em vários países a certeza de que os julgamentos pronunciados contra ele tinham fundo político-partidário, foram injustos e inconsistentes e que fazem parte de um contexto social e político de golpe na democracia brasileira.   

              Pessoalmente, junto com a Pastoral Carcerária da CNBB e junto com todos os movimentos sociais e ecumênicos de base sou contra as penitenciárias e a atual pena de prisão para qualquer pessoa. Somos todos  a favor da Justiça restaurativa e não vingativa ou que é imposta simplesmente para afastar da sociedade as pessoas indesejáveis. 

            Apesar de ser politicamente totalmente contrário a Paulo Maluf e a Sergio Cabral, não acho humano a forma como estão sendo tratados. O segundo tratado como cobaia para a Justiça mostrar do que é capaz quando quer destruir alguém politicamente. E o outro idoso e doente não representa nenhum perigo para a sociedade. Parece mais que depois de usarem os seus capangas, quando eles não se mostram mais utilizáveis, o sistema criminoso que os produziu e sustentou durante anos, agora pode descartá-los e destruí-los. 

            Como disse Jesus a Pilatos: "Quem me entregou a ti tem maior culpa do que tu". No caso de Lula, é diferente. Como outros companheiros presos e condenados por indícios e por perseguição pessoal do Moro e dos responsáveis pela Lava-Jato, estou convencido de que a prisão é além de tudo injusta e iníqua. E que em nada contribuirá para trazer a esse país mais paz e justiça.

                       Sei que ao dizer isso, estou descontentando e até me colocando em posição de ser rejeitado por algumas pessoas que pensam o contrário. Algumas delas que me escrevem: E antes eu até confiava em você.  Sinto-me obrigado em consciência a assumir essa posição e dizer claramente: Até prova em contrário e não há, Lula é inocente. E ao condená-lo, estão condenando um projeto de nação, projeto que não era ainda o que nós desejaríamos plenamente, mas era bem mais justo e mais humano do que esse que se implantou com o golpe dado pelo Judiciário e pelo Congresso e do qual o Temer é a atual marionete. 

                 Martin-Luther King nos ensinou que Deus não prometeu que não sofreríamos injustiças, mas, através da cruz e da ressurreição de Jesus nos traz equilíbrio interior para enfrentar a dor e vencê-la. Essa vitória se dá no plano pessoal, mas também no nível social. Agora é Páscoa. Diante de Pilatos e já condenado à morte, Jesus afirma: "Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade do projeto divino para o mundo (o reino) e toda pessoa que é da verdade escuta (compreende) isso que estou dizendo" (Jo 19, 33). Sejamos nós desse grupo e testemunhemos a verdade, não da justiça dos grandes, mas da justiça divina libertadora de todos. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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