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Meditação bíblica, domingo, 27 de dezembro 2015

Hoje, 27 de dezembro é o dia em que há 71 anos, com um mês de nascido, fui batizado. Agradeço imensamente a Deus essa graça que meus pais me deram, embora teria preferido ter sido batizado em etapas e concluído o batismo quando já pudesse ter uma opção pessoal, ao menos, a partir da adolescência. Mas, seja como for, agradeço muito o fato de ter podido redescobrir o valor do meu batismo (tem muita gente batizada que nem se lembra de que o é. É como se fosse a coisa mais natural do mundo e não é). Para mim, sou monge e padre para viver o batismo - o importante é o batismo. Lembro-me de ter ouvido o meu querido irmão e mestre Pedro Casaldáliga explicar porque não aceitava que o pessoal da prelazia de São Félix fizesse a festa dos seus 50 anos de padre: "Só aceito fazer festa por aniversário de ordenação, se cada um de vocês se lembrarem do seu aniversário de batismo e passarem a celebrá-lo". Era um gesto profético para revelar a importância do nosso batismo. No caso dos religiosos, os votos monásticos ou feitos em alguma congregação são apenas formas de atualizar e caracterizar de forma mais profunda o batismo....

Por acaso, nesse ano de 2015, o 27 de dezembro, festa do evangelista São João, cai no domingo depois do Natal e por isso é festa da Sagrada Família (na Igreja Católica). Acho uma celebração meio sem muita base teológica e menos ainda exegética... Quantas bobagens e até heresias e erros teológicos se dizem nos púlpitos das Igrejas no dia de hoje. De fato, tenho a impressão de que a Igreja inventou essa festa para falar da família no modelo que o mundo de hoje tem da família (mundo ocidental e família burguesa).

De fato, qualquer pessoa que lê os evangelhos, Marcos e João nem aludem à família de Jesus a não ser Marcos em uma ou duas passagens e de modo negativo (que a família foi buscar Jesus para levá-lo de volta para casa achando que ele estava louco. E ele reage dizendo: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? São todos os que escutam e praticam a palavra de Deus - Mc 3, 31 ss). Mesmo quem lê Mateus e Lucas que acrescentaram ao texto primitivo os chamados evangelhos da infância de Jesus, tem a impressão clara de que Jesus ligou muito pouco para a família. Claro que os padres se prendem a um versículo final do evangelho lido nesse domingo (Lc 2, 51) no qual se diz que "ele desceu com eles a Nazaré e lhes era obediente". Na realidade até se tornar adulto quando claramente rompeu com a família.... e quis que a sua família fosse toda família humana e até como Francisco de Assis, todo ser vivo...

De todo modo, o evangelho pode sim nos ajudar a viver hoje relações familiares. Primeiramente coloca em questão os laços humanos - todos orientados para o Pai que é Deus.... Isso não significa que toda família tem de ser religiosa.  O projeto de Deus não é a religião. É a vida digna e feliz para todos. Por isso, orientar-se para Deus é orientar-se para uma missão. Significa sim que a família deve ajudar cada um de seus membros a sair de si mesmo e realizar um projeto de vida que seja de amor e solidariedade, construção de um mundo melhor. Isso nem sempre é fácil de se viver em famílias que criam verdadeiras correntes afetivas que aprisionam, condicionam e mantêm a pessoa em uma redoma fechada... Sendo assim, é claro que a família constitui a comunidade mais próxima de cada pessoa e merece o cuidado e o amor que devemos ter com todo mundo, mas com os mais próximos, principalmente, pai, mãe e irmãos deve ser um amor sinal do absoluto do nosso amor a Deus.  A regra de Taizé diz aos irmãos: "O amor que você dedica aos seus pais e familiares deve testemunhar como o amor de Deus é absoluto para você". Isso significa que todo outro amor humano é relativo. Ser relativo não significa ser menor ou menos importante. Ser relativo significa ser aberto e servir como meio de relação. Um amor que seja sinal e instrumento do outro amor (o de Deus)....

Nada disso é instintivo ou espontâneo. É um processo de aprendizado e foi também para Jesus, Maria e José. E o evangelho de hoje (Luc 2, 41 ss) mostra isso. Os pais perderam o filho em Jerusalém. Passaram três dias procurando-o. Ao encontrarem, pensaram que o tinham encontrado plenamente, mas ele lhes disse palavras que eles não entenderam: Não sabeis que eu devo me ocupar das coisas que são do meu Pai? . Esse processo de busca e de encontro é permanente. E a gente tem de descobrir na vida da gente como procurar Jesus do modo correto e como descobri-lo de modo que nos situe dentro de sua relação com o Pai e não como se fosse concorrente.... É a dimensão pascal da vida. Três dias de busca. No terceiro dia o encontraram. No terceiro dia, ele ressuscitou.... Por que me procuravam?   O anjo diz palavras no mesmo sentido às mulheres que foram ao sepulcro no domingo de manhã: Por que procurais entre os mortos Aquele que está vivo?  

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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