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Meditação bíblica, Domingo de Pentecostes, 24 de maio 2015

Celebrar Pentecostes é afirmar a atualidade e a realização da promessa que, conforme o quarto evangelho, Jesus fez aos discípulos e discípulas na véspera de morrer: "Eu hei de enviar a vocês outro Consolador, o Espírito Santo que vem do meu Pai e que ele me deu e eu passo a vocês" (João 14, 15,...  25... cap. 15, 26 ss).

É uma síntese de todas as promessas de Deus em toda a Bíblia. Deus que prometeu libertação, vida, paz, prometeu enfim morar conosco. Jesus revela que ele fez mais do que isso. Não somente veio morar conosco, mas morar em nós. E essa presença divina em nós muda tudo... Nos últimos anos, descobri como é importante viver essa presença divina do Espírito não somente em nós, cristãos das diversas Igrejas, não somente em nós, humanos de todas as religiões ou sem religião, mas em toda a natureza. Adoro cantar como nos inspira nosso irmão Reginaldo Veloso o cântico de entrada da missa de hoje, tirado de uma palavra do livro bíblico da Sabedoria: "O Espírito do Senhor, o universo todo encheu, tudo abarca em seu saber, tudo enlaça em seu amor, aleluia, aleluia, aleluia, aleluia"(inspirado em Sabedoria 1, 7).

Hoje gostei da meditação sobre o domingo de Pentecostes e as leituras da missa que recebi do Centro Dr. Alceu Amoroso Lima. Eis as reflexões:  

A última palavra

O dom do Espírito é a última palavra, o coroamento do percurso pascal de Cristo. Após este dom, começa a longa caminhada dos discípulos e da humanidade rumo à perfeição da criação, o "Tempo Comum". Este é um tempo cheio do Espírito. E, pelo Espírito, o Cristo se torna interior a nós, a tal ponto misturado conosco que dificilmente é identificável: mais íntimo a nós do que a nossa própria intimidade. Temos aqui, a seguir, alguns temas e imagens escriturais que podem nos permitir progredir na inteligência do Espírito.

Primeiro, as línguas

Um fogo que se repartiu em línguas (Atos 2,3): a unidade fez-se diversidade. Isto quer dizer, sem dúvida, que a Unidade divina é rica por demais, para exprimir-se conforme um modelo só. É como o corpo humano: o homem novo é um organismo, é a organização e unificação de uma multiplicidade. Um só é o Espírito, e as línguas todas, uma diversidade. Uma só, a equipe apostólica, e a totalidade das nações. Tem-se observado com frequência que Pentecostes anula a divisão provocada em Babel pela vontade humana do poder (1ª leitura da Vigília). Estamos sempre convidados a passar do regime de Babel ao regime do Espírito pela constituição deste Corpo de que nos fala a segunda leitura do dia. O espetáculo é com certeza menos grandioso do que o do dom da Lei, em Êxodo 19. O texto de Atos fala, no entanto, de «um barulho como se fosse uma forte ventania» e de «línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles». É que passamos do estado de submissão à Lei, ao estado de liberdade no Espírito. A nova Babel faz-se acompanhar de um novo Sinai. Daí em diante, seremos movidos pelo Amor que é o liame da Trindade. A Lei será então perfeitamente observada e cumprida, mas não mais em nome da Lei, e sim pela força do amor.

O vento violento

No 2º capítulo do Gênesis, vemos o homem feito de argila ser animado pelo próprio sopro de Deus, sopro que significa a respiração, mas também a vida. Sopro de Deus que pode tornar-se vento violento, para secar as águas do dilúvio ou separar em dois o Mar Vermelho; ou então um sopro novo, para uma vida nova (Ezequiel 36,26-27); ou a leve brisa que revela a presença divina para Elias (1 Reis 19,12). Jesus irá dizer que os que nasceram do Espírito são como o vento, que sopra onde quer (João 3,8). No evangelho de hoje, Jesus repete o mesmo gesto com que Deus animou Adão: comunica o seu sopro aos discípulos. Os Atos contentam-se com falar de um «barulho como se fosse uma forte ventania». Todas estas figuras querem significar: vida, mobilidade extrema, liberdade.

A alegria

A "Sequência", canto de invocação do Espírito, localizada entre a 2ª leitura e o evangelho, apresenta-nos o Espírito como sendo a luz e o operador de tudo o que Deus realiza em nós e por nós. Este texto termina falando na «alegria eterna». No discurso após a Ceia, o Espírito é chamado muitas vezes de defensor, de advogado de defesa que é quem sustenta, encoraja e assiste o seu cliente no decurso de um processo. Tudo isso nos diz que a vinda do Espírito se manifesta por uma inundação de alegria, o que os autores espirituais chamam de «consolação». Muitas vezes falamos de Deus como de um juiz, que retribui a cada um conforme as suas obras, mas esquecemos facilmente o fato de ser este mesmo Deus o nosso defensor.

Marcel Domergue, jesuíta (tradução livre de www.croire.com pelos irmãos Lara)

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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