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Mulher, a figura da nova humanidade

                 No Brasil, nesse domingo mais próximo do dia 15 de agosto, a Igreja Católica celebra a assunção de Maria. Independentemente do dogma que não é bíblico nem ecumênico e da linguagem de outros tempos, ressuscitar e na integridade do nosso ser é a promessa bíblica para todos nós e a Igreja contempla em Maria aquilo que é destino e vocação de todos/as nós. No entanto, essa ressurreição ou como a tradição diz de Maria (assunção) não é apenas um momento (quando se morre) e sim é um processo de toda a vida. O evangelho escolhido e lido nas Igrejas nesses dias (Lucas 1, 39 – 56 – o relato da visita de Maria grávida a Isabel) fala de uma subida de Nazaré a uma aldeia da Judeia para servir à prima anciã e grávida. Mas essa elevação progressiva e permanente do ser (de todos nós) é um caminho pessoal e coletivo. Nos meados do século XX, Theillard de Chardin, paleontólogo e espiritual, falava em passar da biosfera para noosfera (a esfera da interiorização) e afirmava que todo o universo evolui e converge. E essa convergência é na linha da  cristificação para Deus. Como escreve Paulo aos coríntios: “até que Cristo seja tudo em todos”.

É disso que se trata. Nem mais nem menos. E esse processo de evolução ou de amadurecimento interior toma inclusive formas também no corpo e em todo o estilo de vida (não é somente algo no íntimo de cada pessoa). Esse processo é o desafio de todos os processos revolucionários.

Nesses dias, meu amigo, o grande economista e humanista Marcos Arruda me contou que foi à Nicarágua sandinista logo depois da vitória sandinista e lá conversou com Ernesto Cardenal, então ministro da cultura. Marcos ficou admirado quando Cardenal afirmou: “Muita gente pensa que a agora que ganhamos o governo, a revolução venceu e nesse sentido chegou à sua meta. Absolutamente não. Agora a revolução vai começar. E se não houver uma mudança profunda nas pessoas, ela não subsistirá. Como já dizia Che Guevara: Sem homem novo (renovado), não há sociedade nova”.

Quem convive nos ambientes políticos de partidos percebe e sente as ambições pessoais e as rivalidades de cada dia. Todos sabem que isso é um empecilho sério para qualquer caminho revolucionário de mudanças. Por isso, seria tão importante aprofundar a questão de uma espiritualidade laical, humana e que dê dignidade e garanta Ética e coerência de posturas  à Política na linha da humanização permanente de nossas relações e da nossa vida.

Nas celebrações da festa da assunção de Maria, a primeira leitura é tirada do Apocalipse 12. Mostra no céu a figura de uma mulher grávida, com a lua debaixo dos pés e coroada com doze estrelas. O povo cristão sempre viu nessa figura simbólica a imagem da nova humanidade, da humanidade messiânica representada pela mulher. Assim como a mulher, a humanidade está sempre grávida do ser humano novo. E o Messias (Cristo) é imagem e modelo desse ser humano novo nascido dentro de cada um de nós, mas também nas estruturas desse mundo novo pelo qual lutamos. 

Nesses dias, (até ontem), participei em Santiago do Chile de um encontro que tinha como título: “Clamores do Sul. Uma nova humanidade para habitar a casa comum”.  

Uma psicóloga dizia que o primeiro sinal pelo qual percebe que uma pessoa está desestruturada e não consegue mais reger sua vida é quando a sua casa está mal cuidada. Normalmente, as pessoas sempre cuidam bem de sua casa e zelam por ela. Assim, podemos dizer que no mundo atual, essa sociedade que ao invés de cuidar do planeta no qual habitamos o destrói e maltrata, é uma sociedade que não está sadia. E claro, há vários setores que não querem uma nova humanidade. 

No livro do Apocalipse, a mulher que aparece no céu grávida do ser humano novo vê que tem um inimigo e esse é um dragão que quer devorar a criança assim que ela nascer. E a mulher dá a luz e foge para o deserto, acolhida e amparada pela Terra que é sua aliada e a protege. 

Hoje, ainda vivemos essa luta que é social, política, ecológica e espiritual. O mundo capitalista assiste a mais um filme de dinossauro e de um megatubarão pre-histórico que aparece no mar. Os dinossauros e tubarões de hoje continuam a ameaçar e a matar. Mas, assim como há seiscentos mil anos, eles não conseguiram se adaptar às novas condições ecológicas do planeta, também os tubarões e dinossauros atuais (as mega-corporações e transnacionais) não sobreviverão a uma humanidade que se encontre a partir de um novo pacto social e no caminho de uma economia do amor e da partilha. Por mais que isso pareça uma utopia distante, temos de crer nisso e temos de ir ensaiando esse projeto no nosso dia a dia. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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