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Por um novo pacto das Catacumbas

                   Esse é o segundo ano em que o papa propõe que todas as Igrejas locais do mundo consagrem o 33o domingo do ano comum como "Dia Mundial dos Pobres", ou seja dia em que se celebra e se intensifica o compromisso de solidariedade de toda a Igreja, pastores e fieis com os pobres do mundo. 

                 Certamente, essa intuição do papa vem de sua experiência ao ver que o caminho da sociedade atual provoca cada vez mais um aumento descomunal da pobreza, das desigualdades sociais e de uma massa de migrantes e refugiados que desafiam as ilhas de luxo do primeiro mundo. O papa tem se movido, tem reunido no Vaticano refeições com centenas de pobres e de moradores de rua. E propõe que bispos em suas dioceses e padres em suas paróquias façam a mesma coisa. Conheço muitos que estão dispostos a seguir toda norma canônica que disser respeito à disciplina eclesiástica, mas não conheço quase nenhum que se disponha a seguir o exemplo do papa nesse caminho de solidariedade aos mais pobres.

                 Sem dúvida, ao instituir esse Dia de comunhão com os pobres do mundo, o papa recorda que no dia 16 de novembro de 1965, 42 bispos que estavam em Roma na última sessão do Concílio Vaticano II se reuniram para celebrar nas Catacumbas de Domitila e ali assinaram um documento de compromisso de simplificarem suas vidas, renunciarem a todos os sinais de ostentação de poder e riqueza e de se colocarem a eles mesmos e a suas dioceses a serviço dos mais pobres. Nos dias seguintes mais alguns bispos que não puderam estar na celebração inicial se juntaram aos primeiros e assinaram o documento. 

                 De fato, o Pacto das Catacumbas que não foi assumido pelo Concílio, nem pelo papa Paulo VI teve profunda repercussão nas dioceses e principalmente na América Latina. Pessoalmente, há pouco mais de um ano, eu mesmo fui interrogado no processo de beatificação de Dom Helder Camara e fui perguntado sobre um ponto da acusação. Dom Helder era acusado de ter sido péssimo administrador da diocese. Quando renunciou ao cargo de arcebispo, diziam os seus acusadores, a arquidiocese estava em péssima situação econômica. O juiz do processo me perguntou se eu concordava com essa acusação. Respondi que sim e expliquei que Dom Helder havia levado a sério o Pacto das Catacumbas e de fato havia vivido sempre como pobre e empobrecido a arquidiocese. Percebi que o juiz tinha dificuldade de compreender isso e concluí: "De fato, só Jesus pode compreender bem isso e defendeu-lo". 

                    Na época em que o Pacto das Catacumbas foi assumido, os desafios eram próprios do tempo. Atualmente, precisaríamos de pedir a pastores e fieis um novo Pacto das Catacumbas, não mais apenas em relação à sobriedade no estilo de vida (elemento que continua importante), não apenas na renuncia aos sinais de triunfalismo religioso (infelizmente nas últimas décadas, os bispos e padres resgataram o pior do triunfalismo litúrgico em cerimônias pomposas medievais, em gestos e sinais de autocelebraçao narcisista durante a ceia de Jesus e outros pecados semelhantes. É preciso um novo Pacto das Catacumbas que nos restitua o direito a uma liturgia mais simples, mais orante, mais sóbria e mais evangélica como expressão de um discipulado de iguais. É preciso que Deus toque no coração de ministros e fieis, homens e mulheres, todos no testemunho do projeto divino para o mundo que não consiste em voltar à monarquia e ao barroco das cortes medievais. 

                   O novo Pacto das Catacumbas tem de nos libertar do Clericalismo que o papa denuncia como doença da nossa Igreja. Tem de convencer os padres novos de que Deus se é Deus e é Amor não pode ser de direita ou reacionário social e politicamente. É preciso um novo modo de compromisso com os pobres, não apenas assumindo a pobreza como estilo de vida, mas compromisso de defesa e solidariedade à luta de libertação dos pobres organizados. O novo Pacto das Catacumbas continuará os encontros do papa Francisco com os movimentos sociais e lutará por uma Igreja em saída e na resistência a um uso falso de Deus que legitima coisas muito ruins para os empobrecidos. Precisamos sim de um novo Pacto das Catacumbas que não serão mais apenas as catacumbas romanas das perseguições aos primeiros cristãos, mas serão as catacumbas de hoje, de uma sociedade que sepulta a justiça e os direitos humanos e como se isso nada tivesse a ver com a fé. Os que fazem isso se proclamam como cristãos e infelizmente muitos bispos e pastores, evangélicos e católicos aprovam e abençoam. É preciso um novo Pacto das Catacumbas em reação a esse Cristianismo Fascista e Antievangélico.  

               Graças a Deus, temos ainda hoje, irmãos e irmãs que prosseguem o caminho desse Pacto das Catacumbas. Nesses dias, passei na Bahia e me encontrei com sofredores de rua e missionários leigos que moram com eles por opção evangélica e me deram notícias do irmão Henrique, Peregrino da Trindade que há décadas, mora com sofredores de rua nas ruínas de uma Igreja em Salvador. Hoje dou graças a Deus pelo testemunho de algumas dioceses aqui no Brasil que continuam essa linha do pacto das catacumbas e continuam totalmente voltadas ao serviço dos mais pobres. Hoje agradeço a Deus o testemunho do nosso querido irmão o padre João Pubben. Ele partiu da Holanda  para o Brasil no mesmo dia no qual em Roma os bispos assinavam o Pacto das Catacumbas (16 de novembro de 1965). Aqui trabalhou conosco durante quase 50 anos, acompanhou Dom Helder e o ajudou nos seus últimos anos de vida como seu anjo da guarda. E agora já doente mais ainda muito firme na missão, mesmo da Holanda, continua nos acompanhando com o mesmo espírito do Pacto das Catacumbas. Por tudo isso, nós te louvamos e te agradecemos, Senhor.   

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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