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Conversa, quinta feira, 11 de agosto 2016

Comecei o dia, me unindo em oração à minha irmã Penha, que faz aniversário hoje e eu celebro a ação de graças pela vida dela (com quem atualmente moro), aqui em meio ao Fórum Social Mundial, com milhares de pessoas do mundo todo, nessa cidade imensa que é Montreal. 

Na parte da manhã, fui para a oficina que seria coordenada por Boaventura de Sousa Santos e outros militantes sobre a Descolonização do Saber. De última hora, Boaventura não veio e a oficina foi suspensa. Ele virá amanhã e fará pela manhã a oficina e à noite uma conferência pública. Para mim, foi ótimo que essa oficina tenha sido suspensa que fui participar de outra, coordenada pelo Ibase (do Betinho) sobre "O futuro do Fórum Social Mundial".

Ali estavam Moema Miranda, como coordenadora, Oded Grajeb e vários outros, entre os quais participavam também Chico Whitacker e pessoas de vários países latino-americanos. Embora houvesse um senhor árabe e alguns europeus, a assembleia era mais latino-americana e isso deu um tom a toda a discussão. Penso que todos ali se colocaram de acordo que, hoje, o FSM é mais necessário do que nunca (em um mundo mais desigual e com o Capitalismo com mais força e crueldade do que nunca). Ao mesmo tempo, vários reconheciam que os movimentos sociais estão mais enfraquecidos e menos articulados. E o FSM não consegue mais, ao menos do modo como está hoje, articulá-los. Aqui em Montreal, não se vê Via Campesina, não se vêem vários movimentos que em outros fóruns eram fundamentais. Onde estão os dalits da Índia que em alguns fóruns foram tão marcantes? Os índios que estão aqui são só os canadenses e os negros, majoritariamente, os que moram aqui na província de Quebec. Enquanto nos outros fóruns, mesmo nos mais recentes, a presença de movimentos de Igrejas e religiões como o Islã, era forte, nesse é invisível... Claro, o governo do Canadá dificultou ao máximo os vistos... Mas, é só isso ou há mesmo uma dificuldade maior de articulação e unidade de lutas?

Oded sugeriu para o segundo semestre do próximo ano uma assembleia mundial do Fórum sobre estratégias de combate ao Capitalismo e estratégias de articulação.... Um fórum temático sobre estratégias... E Chico propôs multiplicar os fóruns temáticos para ir unificando os movimentos...

Saí de lá contente e esperançoso....

À tarde, tinha ouvido falar em um plenário sobre "uma avaliação dos governos progressistas da América Latina e perspectivas atuais para a crise dos nossos países". Fui para o local que me parecia ser onde haveria essa assembleia. Cheguei no átrio do "Conjunto de Jardins", um lugar bonito da Praça das Artes do centro de Montreal. De fato havia uma assembleia e vi uma grande bandeira na mesa de coordenação e na entrada do círculo. A bandeira era a Whipala dos povos andinos.  Muita gente sentada em cadeiras improvisadas. Aproximei-me. Estava falando um jovem que me pareceu um índio daqui do Canadá, vestido de forma tradicional (roupa de couro de búfalo marrom), cocar na cabeça e máscara de algum espírito no rosto... Tive dificuldade de compreender o francês canadense dele que certamente não fala a língua como seu idioma natal... Mas, para mim, a grande surpresa foi que ele falava em opressão e repressão e contra a dominação e eu aplaudia e tentava ver ao meu redor gente latino-americana para falar de nossos países e não via.... De repente comecei a desconfiar... A bandeira não era  Whipala. Não tinha os 47 quadrados simbólicos para os índios andinos. Era a bandeira do Movimento Gay - as mesmas cores do Arco-íris, mas em faixas horizontais.... E eu estava lá no meio participando... Resolvi ficar. Ao menos até uma pausa e saí não por qualquer discordância ou dificuldade de me solidarizar com aquela assembleia e sim por não compreender o francês com forte acento de Quebec. E, de fato, estava muito cansado e começando a tossir (tenho insuficiência respiratória e devo me cuidar).

Quando estava saindo, um convite para a grande assembleia da "Juventude em resistência contra o sistema". Fui quase levado até a assembleia do outro lado da praça e vi que cada vez juntava mais gente. Muita juventude e de todas as cores. Quase todos ligados à assembleia e também com fone nos ouvidos e conexão com o seu celular... Alguns mascando chicletes ou algo assim e  mais gente que fuma do que estamos habituados hoje no Brasil. Mas, era um espaço aberto e por isso podiam... A mim, faz mal e se ficasse, começaria a dor de cabeça. Saí...

Voltei para casa e perguntei aos colegas: "Onde estão os grupos de pastoral social e de Igreja inserida no meio do povo? Ninguém soube responder....

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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