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Evangelho do 4° domingo do Advento

Sobre Mateus 1, 18- 25:  

Nesse quarto domingo do Advento, estamos já no que a Liturgia Católica chama "Semana Santa do Natal". A cada dia, uma das antífonas maiores (antífonas Ó) invoca a vinda do Senhor no mundo. Hoje, 18 de dezembro, o invocamos como Adonai, o Senhor Deus que guia o mundo e liberta o povo no Sinai. A vinda de Jesus como seu filho o representa e traz para nós sua presença.  

Na missa desse quarto e último domingo antes do Natal, a Igreja nos faz escutar o anúncio do nascimento de Jesus conforme Mateus. Enquanto Lucas conta que o anjo Gabriel anunciou a Maria, a comunidade de Mateus conta que o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José. O fato de ser “em sonhos” se liga à tradição dos patriarcas: o próprio José, filho de Jacó. Através do sono, a pessoa convive com uma dimensão interior mais profunda de si mesma e pode ouvir de modo mais puro a sua vocação.  

Quem aparece não é um anjo como em Lucas. É o próprio “Anjo do Senhor”, expressão para dizer “a Palavra do Senhor”, “a Glória do Senhor”, uma visibilidade do próprio Deus. José é apresentado como um justo que percebe na mulher a obra de Deus e quer se retirar para não atrapalhar uma obra de Deus que ele não pode compreender.  

Na sociedade do tempo de Jesus, havia uma prática cultural chamada do desposório. Através dela, se dava inicio ao contrato de casamento no qual as famílias ingressavam. O casal era considerado marido e mulher. Mas, durante um tempo, ela permanecia na casa de sua família e eles não tinham ainda relações sexuais. Quando o texto diz: “antes de coabitarem, ela engravidou”, está dizendo que eles ainda não moravam juntos e nem tinham tido relações sexuais. Seria, então, compreensível que José concluísse que ela teve relações com outro homem. Na época, isso seria um adultério, porque eles dois (Maria e José) já estavam comprometido em casamento. Assim, segundo padrões culturais convencionais, Maria está exposta à marginalização social, econômica e religiosa. (Existe na Bíblia maldições para mulheres em situações como esta e para seus filhos. Ver Eclo 23, 22- 26 e Sb 3, 16- 19 e 4, 3- 6) 

“Ao dizer que ela concebeu “através do Espírito Santo” (ou do sopro divino”, o evangelho fala de uma forma estranha para a sua geração e para todos os tempos. Seja qual for a interpretação que se dê a esta tradição, o fato é que, ao falar assim, o evangelho mostra: Deus rompe com a genealogia patriarcal. (A geração se dá sem ser por um homem macho. Isso naquela cultura era considerado ainda pior do que seria hoje em dia. Jesus e a comunidade dele começam rompendo com o patriarcalismo”1.  

José ouve do anjo em seu sonho que tem um papel próprio nesta obra da salvação. O Senhor lhe pede que assuma essa função. José deve dar a Jesus o seu nome para que Jesus possa ser reconhecido como “Filho de Davi”. É José que ligará Jesus à tradição messiânica davídica.  

O filho que nascerá de Maria será a realização das mais profundas promessas de Deus ao seu povo. Será a visibilidade da presença do Senhor que virá morar com o seu povo (Emanuel). Que forma bonita de falar da ressurreição de Jesus, o que já lemos no capítulo final do Evangelho.   

Nós, cristãos, cremos que Jesus é o Messias que devia vir. Mas, como ele mesmo deixou claro: aquela não era ainda a sua vinda na glória. Nesse sentido, os cristãos também esperam com Israel a vinda do Messias. 

Como nos livros antigos, o prólogo do evangelho de Mateus resume todo o livro. Aqui, o evangelho deixa claro: Jesus é o herdeiro verdadeiro das promessas de Deus a Davi, mas veio ao mundo por obra direta de Deus. Assim ele recebeu o nome que resume sua missão. José é o mesmo nome de Josué, o patriarca que introduz o povo hebreu na terra prometida. Jesus (ou Ioshuá) é a expressão humana de que Deus é Salvador. O menino que nasce assim é o verdadeiro Messias de Israel. Esse texto de Mateus não sublinha o que outros textos cristãos vão dizer mais tarde:  Que Ele (Jesus) ainda virá como Messias. De fato, cremos que desde que ressuscitou, Ele está conosco todos os dias até a consumação dos séculos. Mas, tanto nós, cristãos, como também, de outra forma, nossos irmãos judeus, esperamos unidos essa “plenitude dos tempos prometida por Deus”. E toda a nossa ação no mundo, nosso compromisso social e político para mudar o mundo tem como base, como raiz essa esperança messiânica: a vinda do reino de Deus que o Messias (para nós, Jesus) nos trará. O Natal não é apenas para lembrarmos o nascimento humano de Jesus, mas para nos fortalecer nessa esperança do reino e para nos fazer agir, hoje, no Brasil, de acordo com essa expectativa.


1 - Cf. WARREN CARTER, O Evangelho de São Mateus, Paulus, 2002, p. 99.  

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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