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12a circular da Quarentena

                                                                                                                       Recife, 20 de agosto de 2020

 Caros irmãos e irmãs que buscam unir Fé e vida, espiritualidade e compromisso social,  

Existem várias quarentenas ou formas de distanciamento social. Há mais de cinco meses, estou isolado neste apartamento. Para mim isso é duro e exigente. No entanto, alguns irmãos da hierarquia da minha Igreja vivem isolamento e distanciamento social que dura séculos. E como peixes em aquário, não parecem se dar conta do mundo que existe fora da sua gaiola de vidro. 

Nestes dias, uma menina de dez anos foi estuprada e, infelizmente, foi obrigada a proceder a um aborto clínico para salvar sua vida. Médicos especialistas em atender meninas que engravidam de 10 a 14 anos declararam que manter a gravidez acarretaria alto risco de morte. 

Como discípulo de Jesus e como a maioria das pessoas conscientes, sou contra o aborto. No entanto, como propõe o papa Francisco, compreendo que um problema complexo como este, só se pode resolver com diálogo interdisciplinar e ação solidária comum. Na exortação Gaudete et Exsultate, o papa Francisco afirma: “A defesa do inocente nascituro deve ser clara, firme e apaixonada, ... mas igualmente sagrada é a vida dos que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão...” (GE n. 101). 

Na Laudato si, o papa reflete: “Realmente, é ingênuo pensar que os princípios éticos possam ser apresentados de modo puramente abstrato, desligados de todo o contexto” (LS 199). 

Na exortação pos-sinodal Amoris Letitia, o papa insiste: “Quero reiterar que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais. Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que dela decorrem”. (n. 3).

“Peço encarecidamente que nos lembremos sempre de algo que ensina São Tomás de Aquino e aprendamos a assimilá-lo no discernimento pastoral: «Embora nos princípios gerais tenhamos clareza na lei, à medida que se abordam os casos particulares, aumenta a indeterminação (…). No âmbito da ação, a verdade ou a retidão prática não são iguais em todas as aplicações particulares, mas apenas nos princípios gerais. (...) Quanto mais se desce ao particular, tanto mais aumenta a indeterminação».[37] 

Na Evangelii Gaudium ele tinha colocado como título de um dos capítulos: “A realidade é mais importante do que a ideia” (EG 231). 

Logo depois da publicação da Amoris Letitia, cardeais, bispos e assessorados por teólogos publicaram uma carta pública acusando o papa Francisco de heresia. Agora, estas declarações de alguns bispos contra o aborto de forma isolada da vida real e sem levar em conta o contexto social é triste porque parece como se eles estivessem apoiando a posição dos inimigos do papa e assumindo as mesmas posturas. 

Há anos, o papa está insistindo na Sinodalidade como modo comum e cotidiano da Igreja ser e viver. É diante de um fato social como este que podemos ver se efetivamente nas Igrejas locais a Sinodalidade é levada a sério ou não. Para mim que trabalho no diálogo com pessoas e grupos que estão nas fronteiras da Igreja, sinto que o maior desafio agora é não ampliar ainda mais o fosso entre a hierarquia e o mundo leigo. E para isso deveria ser o pastor que busca a ovelha e não o contrário. Na Amoris Letitia, o papa afirma:

 “Durante muito tempo pensámos que, com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça, já apoiávamos suficientemente as famílias, (...) Também nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (n. 37). 

Não é fácil dizer à própria Igreja que “a lei foi feita para o ser humano e não o ser humano para a lei” e que “a letra mata e só o Espírito faz viver”. É preciso repetir sempre que “onde estiver o Espírito de Deus, aí há liberdade” (2 Cor 3, 6 e 17). 

Deus abençoe a cada um/uma de vocês. Abraço de um velho irmão que teima em ser cristão. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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