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13a circular da quarentena - A profecia

13ª Circular da Quarentena – Carta a meus irmãos e irmãs do Profetismo

 Recife, 27 de agosto de 2020

                Queridos irmãos e irmãs da comunidade da profecia,  

Hoje lhes escrevo porque esta data é para nós especial. Há 21 anos, no dia 27 de agosto, partia para Deus nosso mestre e patriarca Dom Helder Camara. Depois, em 2006, vimos se encantar Dom Luciano Mendes de Almeida e há três anos, sempre nesta mesma data, partiu Dom José Maria Pires, outro querido amigo e mestre com o qual convivi e do qual tenho saudades. 

Quando penso nestes três pastores da Igreja, a primeira sensação é de como são três pessoas de temperamentos e sensibilidades muito diferentes. Em algumas questões, tinham posicionamentos também diversos, mas todos os três podem sim ser considerados profetas de Deus pela totalidade com a qual respondiam ao chamado divino e como este chamado os levou a viver a fé como serviço libertador no meio dos mais pobres. 

Ainda em agosto, no mesmo ano em que nos levou Dom Luciano, também acolheu no céu Dom Antônio Fragoso, bispo emérito de Crateús, CE, e agora há duas semanas (dia 08) nos fez testemunhar a Páscoa do nosso irmão Pedro Casaldáliga. De todos eles, o único com o qual não tive um convívio mais profundo foi Dom Luciano, com quem vivi momentos de diálogo e reuniões em comum, mas de forma passageira. Com todos os outros, tive a experiência de trabalhar juntos e de alguns fui amigo.

Dom Luciano não era um homem de fronteiras como Pedro, Tomás, Fragoso e Dom Helder. Provavelmente, nunca se sentiu dividido entre a fidelidade à profecia de Jesus e à obediência a Roma e à estrutura católica, como vi acontecer várias vezes com Pedro, com Tomás e com Dom Helder. Dom Luciano era jesuíta, de formação tradicional e caráter de moderador. Como presidente da CNBB, conseguia unir progressistas e conservadores. Era um diplomata no bom sentido da palavra. Foi de fundamental importância para salvar o possível da 4ª Conferência do episcopado em Santo Domingos (1992), totalmente controlada pela Cúria Romana. Mas, tinha uma formação teológica profunda. Principalmente, era, de fato, cristão. Hoje, só podemos ter saudade daqueles tempos nos quais o Evangelismo era levado a sério e, mesmo, em plena centralização romana de João Paulo II, muitos de nossos pastores se deixavam vacinar contra os vírus da mediocridade e do oportunismo curial. 

Hoje lhes escrevo primeiramente para não cair no saudosismo. Frequentemente quando falamos destes assuntos, as pessoas afirmam que a geração de bispos profetas passou. Minha resposta é que, graças a Deus, ainda temos no episcopado católico no Brasil alguns bispos excelentes. Entretanto, hoje, a profecia não compete mais a algumas figuras de bispos extraordinários. Convivemos com profetas como o padre Júlio Lancelotti e muitos leigos e leigas em trabalhos como Caritas, Pastoral da Terra, CIMI e assim por diante. Amanhã, no programa Teologias da Libertação Hoje, entrevistaremos o pastor Henrique Vieira (34 anos), um grande profeta da Igreja Batista. No Rio, temos a reverenda Lusmarina Garcia, profetiza da Igreja Luterana. Tenho o privilégio de ser amigo de Marcos Arruda, jovem de 78 anos, profeta do reino de Deus que não é de Igreja nenhuma. Isso só para citar alguns de tantos e tantas, cujos nomes  encheriam páginas e paginas destas circulares da quarentena. 

Para ser justo e para elencar os profetas e profetizas de hoje, teria de colocar o nome de cada um, cada uma de vocês. Não digo isso por delicadeza ou vontade de lhes agradar. Vou explicar: 

1º - Penso que é urgente desmitificar a profecia fazendo a distinção entre profecia e heroísmo. Pessoas como Dom Helder e Pedro Casaldáliga foram heróis corajosos. E foram extraordinários na  liberdade interior e espiritual que viveram. No entanto, nem todo profeta é herói e nem mesmo santo. Precisamos reconhecer a profecia das pessoas comuns e ordinárias, como talvez nós mesmos nos reconhecemos. Conforme o Novo Testamento, o Espírito de Deus faz de todos/as nós, profetas e profetizas do seu projeto divino para o mundo. E assim, somos profetas como somos. 

Quando Jesus quis explicar a sua função profética, se comparou com a figura do profeta Jonas, que não tinha nada de herói. Era medroso, covarde e neurótico. No entanto, conforme o conto que está na Bíblia, foi a ele que Deus escolheu dar a sua palavra. Jesus disse que, ou as pessoas acolhem a profecia mesmo de pessoas como Jonas, ou não terão palavra ou sinal de Deus (Mt 16, 1- 3). 

Nós todos, eu e vocês, temos algo de Jonas. Apesar de nossas contradições, somos chamados a ser profetas. De fato, já estamos vivendo a profecia porque somos testemunhas do projeto divino para este mundo. Só não acolhe a vocação profética quem testemunha um Deus que não é amor e inclusão. Não vive a profecia quem defende governos totalitários e do ódio. Não aceita o profetismo da fé quem vive a Igreja como religião que divide puros e impuros, santos e pecadores e refaz em nome de Jesus a religião do templo que Jesus condenou. 

2º -  A profecia que Jesus nos deixou, ele nos deu para os outros e não para nós mesmos e para os de casa. Então, vivemos a vocação profética quando vivemos a fé de forma ecumênica e inseridos/as na caminhada social e política de libertação. Algumas pessoas fazem isso através de uma inserção em movimentos sociais ou partidos e outros simplesmente vivem isso em seus trabalhos profissionais e na dedicação que vivem em sua profissão cotidiana.  

3º - Cada vez mais a vocação profética se torna uma vocação comunitária. Hoje a profecia não é mais tarefa de pessoas extraordinárias, sem negar que elas existem e vão continuar existindo. A profecia mais consistente e profunda virá de grupos e comunidades. Acho que hoje as ecovilas que se multiplicam pelo Brasil são profecias de uma Ecologia integral que todos nós precisamos aprender. O grupo de jovens da nossa Secretaria Ecumênica me dão a profecia do reino através do diálogo intergeracional. As pastorais sociais, grupos como os que lutam pacificamente contra as mineradoras na Amazônia, as associações indígenas e indigenistas que defendem as culturas originárias, os grupos de teologias decoloniais, as comissões e grupos de direitos humanos e tantos grupos sociais de base – todos vivem, cada um do seu modo e na sua proporção a profecia do reino. E é importante que as diversas profecias  se articulem e se somem para uma profecia maior e mais profunda. Estamos juntos nessa... 

Deus abençoe vocês.  Abraços do irmão Marcelo

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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