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5a Circular da quarentena (09 06 2020)

5a circular da Quarentena (do diário que não é cotidiano)

               Queridos irmãos e irmãs, 

Hoje, ao iniciar o dia com a oração da manhã, me deparei com o evangelho das bem-aventuranças em Mateus (Mt 5, 1- 12). Não foi fácil acolher Jesus proclamando como bem-aventuradas, ou seja, abençoadas por Deus e, portanto, felizes, as pessoas que assumem a pobreza em seu projeto de vida, as pessoas aflitas, as humildes, as que promovem a paz, as puras de coração (íntegras) e as que têm fome e sede de justiça e por isso são perseguidas. Como repetir essas bem-aventuranças em um mundo de tanta desgraça? Como dizer as famílias que choram a perda de entes queridos que Deus as abençoa e proclama a dignidade e a honra delas para um mundo que não as respeita? O que significa as bem-aventuranças para as pessoas que acompanham os/as doentes nos hospitais e se sentem impotentes diante do descaso do governo federal em relação ao verdadeiro genocídio que está ocorrendo no Brasil? Como nas aldeias indígenas, os Xamãs vão lidar com o contágio do covid 19 invocando a Deus e aos encantados para curar as pessoas, mas sem nenhuma estrutura real para enfrentar a pandemia?

Sem dúvida, a pandemia deve nos levar a repensar nossa forma de falar de Deus. A linguagem teísta tradicional na qual fomos educados/as quase nos obriga a representarmos hoje o papel do que, na Bíblia, ficou sendo a dos amigos de Jó. Diante do sofrimento, os amigos do patriarca tentam justificar Deus e explicar a Jó que este deve aceitar a sua condição de alguma forma merecida ou legítima. No poema bíblico (Jó 42), do meio da tempestade se escuta a voz divina deslegitimando os falsos advogados dos quais Deus não precisa. Tenho a impressão de que, nesta tempestade atual do Covid 19, Deus até precisaria de eficientes advogados e advogadas que o tirassem do banco dos réus, onde está sendo posto, não por ateus e incrédulos e sim pelos grupos mais religiosos que pregam penitência para que Deus se arrependa e tenha pena de nós, assim como pelos funcionários das diversas religiões, cuja preocupação maior não é a vida e a saúde do povo e sim ter os seus cultos cheios (e a bolsa novamente com algum recurso?). 

Como gosto muito de Cinema, tenho aproveitado o pouco tempo que tenho livre nesta quarentena para ver ou rever filmes que me marcaram ou descobrir obras cinematográficas novas que não conhecia. Nestes dias revi a comédia belga: O Novíssimo Testamento (2014), do cineasta Jocob von Dormeal. Deus é um homem de mau humor e desagradável que mora em Bruxelas e, como acha a sua vida monótona, ele se distrai fazendo sofrer a humanidade. Na época em que vi, achei o filme, embora tecnicamente bem elaborado e artístico, de conteúdo quase idiota e descartável. Agora o revi e fiquei pensando: De fato, o filme mostra uma caricatura (claro) mas no fundo é o Deus no qual muitas religiões e muita gente na nossa própria Igreja acredita. No seu tempo, a maior revolução que Jesus fez (com consequências sociais e políticas) foi revolucionar a visão que se tinha de Deus. Agora é de se esperar que alguns discípulos e discípulas dele encarem essa missão de atualizar esta mensagem des-sacralizadora e que convoque a humanidade para uma única causa: a do amor solidário e transformador de todas as estruturas ecossociais. 

Nestes dias recebi de Emmanuel D. Almada, companheiro biólogo da Universidade Estadual de Minas Gerais um excelente artigo: “Não é uma questão de guerra, ou Sobre o amor nos tempos da covid”. Partilho com vocês excertos deste artigo memorável de um biólogo: 

Ao largo dessa guerra dos mundos, ao modo de H.G. Wells, uma outra história pandêmica sendo narrada. É a história do amor no tempo da Covid. Tal como o vírus, o amor também tem elevado grau de contágio e, felizmente, não há máscara ou álcool que o impeça de se espalhar. Falo do amor como revolução, como nos conclama a pensar o Pastor Henrique Vieira, do amor que fecunda o universo (...). Mas o amor também é fenômeno biológico, como belamente demostrado por Humberto Maturana. Segundo o neurobiólogo chileno, “o amor é um fenômeno biológico que não requer justificação”. É o amor a emoção que fundamenta a socialização, uma vez que é ele que permite os encontros recorrentes entre os indivíduos. Para Maturana, o movimento contrário ao amor é a rejeição e a indiferença. Ao alargar o espectro do amor para os outros sistemas vivos, é possível compreender o amor como base de todas as alianças, não só entre humanos. É essa tendência de viver juntos, de atenção e aceitação da diferença que permitiu, ao longo da história ecológica da terra, o encontro entre espécies, inclusive entre parasitas e seus hospedeiros. Foi assim, num processo amoroso, como nos ensinou Lynn Margulis, que há bilhões de anos, na imensidão dos mares primevos, uma bactéria aeróbica penetrou em outra anaeróbica (como parasita ou como alimento, não se sabe), formando os primeiros eucariotos dos quais descendemos.

Seria possível, desta forma, assumindo-se o amor como princípio de organização e diversificação da vida no planeta, construir uma contra narrativa pandêmica. Se aceitarmos o vírus, bem como seu encontro, não há mais inimigos.  Por consequência, não há guerra a travar. Isso não significa, absolutamente, uma passividade frente aos efeitos desse encontro entre espécies (sic.). Trata-se de pensar todo o aparato científico e técnico, não como um arsenal bélico, mas como artefatos desse encontro, mediadores para o cuidado e manutenção do curso das vidas humanas. É o jogo autopoiético que caracteriza o encontro entre sistemas vivos descrito também por Maturana e Varela, onde muda-se para continuar a ser (o mesmo).

Para regenerar o mundo é preciso cultivar o amor em meio à pandemia. É isso que está ocorrendo nas vilas e bairros e favelas do país. Como sempre fez, o povo se organiza, partilha, se encontra. Com parte dos humanos reclusos, as outras espécies e entes da natureza também refazem e multiplicam seus encontros e alianças, seus amores. O amor, enquanto encontro e aceitação, tem poder criador” (...) Não nos cabe a construção de um novo normal, precisamos de um outro estado de coisas, que permita emergir os mundos rejeitados e subjugados pelo capital. E o contrário do capitalismo é o amor, em suas mais diversas manifestações individuais, comunitárias, políticas e na história das espécies. É o amor, uma vez que é encontro e aceitação, o elemento que tece e refaz “a teia da vida[1].

Deixo vocês com esta palavra de sabedoria e peço a Deus Amor e energia de vida nova dentro de cada um/uma de nós que os/as confirme e fortaleça neste caminho. Abraço carinhoso do irmão Marcelo 

 



[1]- Cf.: https://kaiporabiocultural.com/2020/06/07/nao-e-uma-questao-de-guerra-ou-sobre-o-amor-nos-tempos-da-covid/

 

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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