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A compaixão, base da missão

Nessa passagem do evangelho proclamado pelas comunidades nesse domingo, o evangelista faz diversas sínteses do que ele tinha mostrado nos capítulos anteriores. Nesse trecho (Mc 9, 36 ss), ele encerra o que se conta nos capítulos oito e nove e prepara os leitores para o que vem no capítulo seguinte: a missão dos discípulos. Por isso, Mateus resume que a missão de Jesus consiste em: ensinar, proclamar e curar. 

Jesus ensina a ler a Bíblia na perspectiva da justiça do Reino dos céus. Proclama que o Reino dos céus vem para todas as pessoas e principalmente para as mais abandonadas do povo. E, como atividade, ele cura as pessoas, isso é, dá sinais de que o Reino liberta as pessoas sofredoras de tudo o que atrapalha a vida. Vai ser isso mesmo que os discípulos itinerantes deverão fazer. Tudo parte da “compaixão” que, como no Êxodo fez o Senhor lembrar-se do seu povo na escravidão e descer para libertá-lo, agora leva os que agem em nome do Senhor a pedi ao Senhor da lavoura que mande trabalhadores para a colheita.

 Na Bíblia, a compaixão (rahamin) significa um amor uterino (rehém quer dizer útero), isto é uma forma de amar maternal: como uma mãe olha e ama uma criancinha que está no seu útero. É assim que Jesus olha o povo pobre e sofrido. Na tradição budista, há um sermão de Buda sobre a compaixão no qual ele aconselha os fiéis a olharem a toda pessoa humana como uma mãe olha e considera o seu filho único. O atual Dalai Lama gosta de citar e comentar esse discurso da compaixão que, nessa acepção,  não significa nenhum olhar de superioridade sobre um coitadinho que merece piedade e o grande deve ajudá-lo, mas quer dizer a solidariedade de quem assume o destino de sofrer juntos para juntos se libertar. 

Historicamente, Jesus (e Mateus) alude ao despovoamento dos campos (da Galiléia ou do sul da Síria, ou dos dois lugares?). Após as guerras, os refugiados que se escondiam nos campos não podiam aparecer para as colheitas. Jesus aproveita essa realidade triste para pedir trabalhadores para a colheita do Reino.

No começo do capítulo 10, texto que faz parte da leitura do evangelho desse domingo,  aparece o segundo grande discurso de Jesus, referido por Mateu. O modo de falar lembra a introdução do sermão da montanha. Jesus chama os que o acompanham mais de perto e compartilham as suas preocupações. (10, 1- 4). No começo eram quatro (4, 18- 22). Agora, são doze, isto é um grupo completo que resume o povo de Israel, como os doze patriarcas. Ao mesmo tempo, devem ser os doze que começarão uma universalidade nova deste povo. Por isso são enviados.

 O termo apóstolo quer dizer enviado. Na época, era comum grupos e instituições judaicas terem missionários. A primeira coisa é que Ele lhes dá poder sobre os espíritos maus, ou como diz Chouraqui: “os sopros contaminados”. Hoje, se fala muito em energia positiva e negativa. No judaísmo da época de Jesus, a crença em “espíritos maus” era influência da religião persa e mesopotâmia. Mateus, fiel à cultura judaica, não conta que Jesus também chamou um grupo de mulheres. Lucas conta isso e utiliza o mesmo verbo que Mateus usa para designar os apóstolos (Cf. Lc 8, 1ss). 

Ao ler hoje esse texto, muita gente estranha que Jesus manda os discípulos em missão, mas insiste que eles não vão ao mundo dos estrangeiros, não entrem nas aldeias dos samaritanos. É como se fosse uma coisa restritiva e quase racista. Mas, é preciso compreender bem o que significa essa palavra no contexto da cultura de Jesus. Para ele e para os que o ouviam, a palavra “estrada” quer dizer caminho ou também modo de viver. Como hoje se fala em: “american way life”. Ele pode ter querido dizer: “Não façam isso conforme o costume dos pagãos”. Não sigam o seu modo de viver e não apenas não vão nas suas aldeias. Seja como for, ao contar assim o envio que Jesus fez aos seus, o evangelho nos ajuda a rever a compreensão de missão como “proselitismo”, ou conquista.  Até hoje, muitas Igrejas ainda confundem missão com propaganda e publicidade. Para Jesus, a missão é inserção e começa em casa, pelo próprio grupo. Ninguém pode dizer que Jesus imaginou uma missão para outros povos. Foi a Igreja dos apóstolos que começou isso.  

As condições da missão são de pobreza, despojamento e itinerância. Conforme a tradição anterior ao evangelho de Mateus, os itinerantes poderiam levar ao menos sandálias e um bastão (Cf. Mc. 6, 8- 9). Mateus exclui até isso. Não seria rigoroso demais? Ou seria uma descrição da realidade social do primeiro grupo dos itinerantes, dos quais muitos eram pobres e marginalizados. De acordo com uma antiga tradição judaica, os peregrinos  deveriam apresentar-se ao santuário de pés descalços e sem ter nada, nem bastão[3]. É nessas condições extremas que o anúncio direto é o da paz e da proximidade do reinado divino.    

 Hoje, em um Brasil no qual o povo é cada vez mais empobrecido e despojado dos seus direitos por um governo ilegítimo e um Congresso comprado pelas empresas, temos de atualizar o modo de viver a missão que Jesus deu aos discípulos. Em seu comentário ao evangelho de Mateus, José Antonio Pagola se pergunta “Como humanizar a história?” e cita Johan Baptist Metz: “ Na realidade, eu só conheço uma categoria universal por excelência, que se chama memoria passionis (a permanente lembrança da paixão).... É desumana qualquer proposta e causa se ela trivializa o sofrimento das vítimas. A única autoridade que nos julga a todos é a autoridade dos que sofrem”.  

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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