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À direita e à esquerda de Jesus

               Nesse domingo (que para a Igreja Católica é o 29º do ano B), o evangelho lido nas comunidades (Mateus 10, 35 – 45) mostra Jesus sempre caminhando na direção de Jerusalém e tentando formar os discípulos (e discípulas). Esse trecho de Marcos começa pelo terceiro anúncio que Jesus faz aos discípulos tentando explicar o que vai acontecer com ele em Jerusalém. Em nenhuma das vezes, os apóstolos compreendem ou aceitam o que ele diz. Na primeira vez que ele afirmou que sofreria a cruz, Pedro rejeitou fortemente (Que isso nunca aconteça) e Jesus teve de repreendê-lo (Mt 8, 31- 33). Na segunda vez, certamente dias depois, Jesus de novo volta ao assunto. Diz claramente que será preso, morto e crucificado. Aí a reação não é mais apenas de Pedro. É do grupo todo. Os doze discutem entre si quem será o maior e o mais importante do grupo... Era isso que interessava a eles e não a cruz e o testemunho de Jesus. Jesus os repreendeu e disse que “entre vocês não deve ser assim”. Devem ser como criancinhas. Não deveriam ambicionar o poder. (Mc 9, 31- 35). 

Agora é a terceira vez que ele anuncia a sua cruz. O anúncio da paixão é mais detalhado e completo. Pela terceira vez há uma reação errada e negativa por parte dos discípulos. No primeiro anúncio, Jesus reage a Pedro rejeitando um messianismo religioso. Ele é sim o consagrado de Deus, mas o fato de ser consagrado de Deus não impedirá que seja preso, condenado, e morto e quem fará isso com ele (Jesus deixa claro) são os religiosos (os sacerdotes). Ele será condenado pela religião que domina o povo e se alia aos poderosos. No segundo anúncio da paixão, os discípulos reagem discutindo a questão social da organização da Igreja. Jesus diz que na comunidade de seus discípulos o maior ou o que tem mais centralidade deve ser o pequeno, criança, pobre, marginalizado (o pequeno). No terceiro anúncio, a reação de Tiago e João e depois dos outros é em relação ao poder político (antes era mais social). Dessa vez, Tiago e João, dois irmãos do grupo mais íntimo de Jesus pedem postos importantes no reino – um sentar-se à direita e outro à esquerda. Não sabem que quem estará à direita e à esquerda de Jesus serão dois ladrões e estarão crucificados com ele. Os outros apóstolos ficam contra os doze porque querem a mesma coisa e os dois pediram antes. 

Jesus falava em morrer como condenado em uma cruz e eles sonhavam com um reino no qual fossem vice-rei e primeiro ministro. Como compreender que o caminho da cruz possa ser um projeto que tem dimensão política contrária à forma como o mundo, a sociedade dominante (e infelizmente até hoje as Igrejas) concebem o poder? 

Jesus responde aos dois apóstolos, perguntando se eles estariam dispostos a viver o mesmo destino dele (ser batizado com o batismo que ele será mergulhado (no sangue) e beber o cálice de dor que ele, Jesus, deverá beber. Os dois se dispõem. Jesus reconhece que, de fato, os dois participarão da sua sorte, mas deixa claro que quanto a lugar ou trono no reino não compete a ele determinar isso. Só ao Pai. E conclui: Quem de vocês quiser ser o maior, se torne escravo (doulos) de todos. Jesus propõe o anti-poder radical, mas não um anti-reino. Ele até mantém a linguagem do reino e mesmo o de lugar. Diz que é o Pai que dará (não é questão de mérito desse ou daquele). Trata-se de linguagem antropológica que hoje não usaríamos. Na cultura atual seria como se dissesse que há um projeto social e político no se colocar voluntariamente como escravo para destruir a própria noção de escravidão. (o evangelho não fala apenas no serviço (em grego diaconia) Usa o termo grego doulosque é escravo. 

Marcos ressalta a incompreensão dos apóstolos. A maioria dos padres e pastores sublinham que os discípulos não compreenderam o que Jesus propunha até quando, depois da ressurreição, receberam o Espírito Santo e então compreenderam. Sem dúvida, em parte, isso se deu, senão eles não teriam sido testemunhas da ressurreição de Jesus. Mas, pouco a pouco, durante a história, muitas vezes, esse problema voltou. Desde o começo das Igrejas e até agora há divisões entre ministros por causa do poder. No Oriente, o patriarcado de Constantinopla e o de Moscou competem sobre quem manda em algumas Igrejas nacionais de países que antes faziam parte da União Soviética e agora são autônomos. Em Roma, o papa enfrenta a fúria de alguns bispos e cardeais que ele tirou de cargos importantes. No Brasil, um cardeal, diversos bispos e muitos padres tomaram posições claramente opostas à CNBB e à regra da Igreja não entrar na Política partidária. Nas paróquias e mesmo em celebrações, não poucos padres têm declarado voto pelo candidato da extrema-direita. E mesmo muitos que não dizem explicitamente, também fazem campanha subliminar pela direita. As razões profundas disso ainda terão de ser estudadas. No entanto, ao que tudo indica,  o que está por trás dessa traição ao evangelho é a mesma de Tiago e João naquele incidente contado pelo evangelho de hoje. Querem garantir uma parcela de poder. Identificam o seu ministério com o poder. E querem garanti-lo com um candidato que promete um programa que socialmente pode ser contra o povo, mas no plano da moral sexual seja contra o aborto e a união gay. 

Esse evangelho interpela a todos nós e nos chama a mudarmos continuamente nosso modo de pensar e de viver a questão do poder. Todos nós temos algum poder, pequeno ou grande. E como poder é potencialidade em si é bom e necessário, mas quando transformamos o poder ser, o poder fazer, o poder conviver para o poder como domínio sobre o outro, nesse momento transpomos a barreira e quebramos em nós e no mundo o projeto de Jesus. Todos nós temos continuamente de nos converter. No entanto, penso nos ministros religiosos que identificam Deus como Poder e se sentem como representantes desse poder divino. Tomara que escutem, hoje, o que Jesus disse aos fariseus de sua época: “Em verdade, vos digo: os pecadores públicos (publicanos) e as prostitutas chegarão antes de vocês no reino dos céus” (Mt 21, 31). 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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