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A economia do reino de Deus

Sobre o evangelho desse 8o Domingo Comum do ano A, (Mt 6, 24 - 34), eu partilho com vocês algumas ideias e reflexões já expostas no livro "Conversa com o evangelho de Mateus e em diálogo com a saudosa irmã Agostinha Vieira de Melo e meu amigo, o jovem Jonathan Felix :

Ao reler este belíssimo texto, temos a impressão de estar diante de uma das mais belas páginas sapienciais da Bíblia. A idéia do tesouro que temos no céu aparece em Tb 4, 8- 9 e em vários textos judaicos mais tardios. Em uma época como a nossa, dominada por um sistema social que tenta privar as pessoas das suas mais profundas convicções e lançar a todos num descrédito sobre tudo e sobre todos, é bom escutar novamente Jesus nos dizer que o tesouro de cada um está onde está o seu coração e que a pessoa se desenvolve ou não de acordo com o objeto do seu desejo mais profundo. Po isso, o ser humano não pode se dividir em diversos “tesouros”.

Ao pedir “Não acumulem”, o evangelho parece lidar com uma comunidade que vive em uma sociedade na qual a acumulação e o consumo é prática comum. Se naquela época, já era assim, sobre este assunto, o que Jesus não diria à nossa sociedade de hoje? Na sociedade antiga, como na atual, o status da pessoa é muito definido pela sua capacidade de acumular riquezas. Em revistas importantes, a cada ano, a sociedade atual faz questão de elencar quem são os maiores milionários do mundo ou do país. Mas, o sermão da montanha diz: este tipo de riqueza é vulnerável. Na época, o perigo eram as traças e a ferrugem que cobrem ou desfiguram (é o que significa o verbo grego afanizó). Hoje, na época da internet e dos títulos virtuais, a vulnerabilidade toma outra forma, mas é igualmente perecível. Basta lembrar as tantas crises econômicas da sociedade capitalista e como esta já se revela estruturalmente incapaz de solucionar os problemas do mundo. Jesus nos propõe acumular tesouros no reinado divino. Ninguém pode servir a dois senhores. Não se pode servir a Deus e a “Mamom”, expressão que significa o dinheiro ou qualquer outro bem, ao qual a pessoa se apega e da qual passa a depender. Seis vezes o texto emprega a palavra “preocupar-se”( merimnan). Jesus mostra aos discípulos que é fundamental libertar-se de todas as angústias profundas. Jesus chega ao ponto de propor o desapego de necessidades fundamentais da vida como o beber, o comer e o vestir. O Pai sabe tudo aquilo do qual temos necessidade e o mais importante é esperar o seu reino. Esse apelo ao desapego nada tem a ver com um descompromisso social.  Quando Jesus propõe que os discípulos e discípulas escolham entre Deus ou a riqueza, entre a justiça do reino e as preocupações individuais, o que ele está revelando é que para ser “pobre de coração” que ele proclamou como “feliz”, é necessário o espírito de desapego e partilha. Neste mundo marcado pela desigualdade social e pela injustiça estrutural da sociedade, a única possibilidade de “procurar o reino de Deus e sua justiça” é libertar-se das preocupações consumistas que a sociedade nos inculca pela propaganda e pela ideologia individualista na qual somos formados. Cada vez fica mais claro que a sociedade do luxo e do primeiro mundo não pode ser “importada”, nem democratizada. Os atuais bens do consumo nunca poderiam ser acessíveis a todos os pobres do mundo. O que pode ser democratizado e será a salvação de todos, pobres e ricos é uma economia e uma cultura de austeridade. É isso que Jesus propõe.

Agostinha:

A imagem poética de Jesus nos manda aprender com os lírios do campo e os pássaros do céu.

Marcelo:

 Jesus não diz para a gente ser como os pássaros do céu e os lírios do campo, mas para aprender a lição deles. Esse é um dos textos mais atuais do Evangelho no sentido de dirigir nosso olhar para a natureza e todos os seres do universo, representados nas flores e nos pássaros. Olhar e aprender a lição da natureza é perceber que somos parte deste universo e temos de saber conversar e escutar este universo vivo e amoroso que nos cerca e do qual somos parte.

Jonathan:

 Olhar e aprender a lição da natureza. Isso quer dizer que a natureza tem uma palavra própria?

 Marcelo:

 Sem dúvida. Em algumas passagens, a Bíblia fala de uma voz da terra. Como quando Deus diz a Caim que o sangue de Abel clama da terra... A tradição judaica sempre considerou que a terra chora e entra em luto quando nela um sangue humano é derramado. Vários textos proféticos falam de uma profecia da terra. Deus se casa com a gente através da natureza e ele escuta e quer que escutemos a profecia da terra fértil e da natureza. Veja por exemplo, Oséias 2, 16 em diante...

A justiça do reinado divino supõe que recuperemos nossa comunhão com a natureza. Não é só na história que recebemos uma palavra profética de Deus. Também a natureza nos fala. “Olhem os pássaros, olhem as flores do campo”.

Toda a tradição do Xamanismo nos ensina a escutar a voz da terra e reconhecer o espírito presente nas plantas, na floresta, nos animais e em toda a natureza[1]. Há pessoas que veem isso como paganismo e contrário à Bíblia. De fato, não é. Eu considero como complementar e agradeço a Deus que ele se revela a todas as culturas e em toda sabedoria humana, a gente pode encontrar a inspiração do Espírito Divino. Não é fácil desenvolver essa espiritualidade ecológica quando se vive em uma cultura urbana e na qual a vida já não depende desses elementos naturais. Seja como for, é importante reencontrarmos o diálogo e a inserção nossa como seres da natureza nesta comunidade da vida, composta de todos os seres vivos e que são sacramentos e instrumentos do amor fecundo de Deus.



[1] - Cf. DAVI KOPENAWA e BRUCE ALBERT, A queda do céu, Palavras de um Xamã Yanomami, São Paulo, Companhia das Letras, 2011.

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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