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A Palavra que não se deixa acorrentar

A palavra que não se deixa aprisionar

             Hoje, há um ano, Lula está preso, sem que tenham apresentado nenhuma prova de culpa e sem que tenham se esgotado os recursos jurídicos que deveriam anteceder a uma prisão, que fosse ao menos legal. Todos os brasileiros conscientes, mesmo os que têm discordâncias políticas de Lula e do PT, sabem que essa prisão é injusta  e ilegal. Foi expressão de ódio da elite ressentida por ter, durante alguns anos, perdido alguns privilégios e parte do imenso poder político que, durante 500 anos, manteve. 

Conjunturalmente, a prisão de Lula foi instrumento político para impedir que ele se candidatasse e tomasse novamente o poder político que os senhores da elite querem total e não tendo de distribuir alguma pequena percentagem com aqueles que eles chamam eufemisticamente de “desfavorecidos”.  Que a prisão de Lula é política, o mundo inteiro sabe e por todos os continentes, diversos grupos denunciam. 

Para quem olha de fora, não é fácil compreender porque, depois das eleições de 2018, ainda mantêm Lula na prisão, o que para os senhores que dominam o país é quase só desgaste social e político. 

Na Semana Santa de 2018, circulou na internet um vídeo que mostrava uma dramatização da paixão de Jesus, encenada em uma cidade do interior de Minas. Em uma praça central da cidade, a multidão seguia o ato sagrado, quando chegou o momento no qual o governador romano apresentou Jesus e Barrabás ao público que, na encenação devia substituir o povo que frequentava o pretório de Jerusalém. E o ator que encarnava Pilatos perguntou: - A quem quereis que eu solte, a Barrabás, o bandido ou a Jesus que é chamado o Cristo? 

Imediatamente e de forma inesperada pelos organizadores do teatro, a multidão presente começou a gritar: - Solta o Cristo e prende Barrabás que é ladrão. 

Diante daquela reação inesperada da plateia, alguns dos organizadores tentaram intervir : 

- Isso é uma encenação. Agora, o papel de vocês no script é quando o governador pergunta: - Quem quereis que eu solte?, vocês respondem Barrabás.

Não adiantou. O povo continuou gritando: Solta Jesus. Tornou-se difícil continuar a encenação. 

Por mais folclórica que essa história pareça, ela tem se repetido no Brasil, não apenas em um momento de encenação e sim no decorrer do processo político desde 2014. Todos os grandes meios de comunicação, organismos de classe da burguesia e os que representam o poder judiciário e os outros poderes usam de todos os meios para que o povo brasileiro aja como uma plateia bem comportada da encenação. Só que o script não funciona e, conforme todas as pesquisas, a maioria dos brasileiros continua a gritar: Lula livre!

O engano dos poderosos que condenaram Lula a essa prisão, injusta e desumana, é mais trágica porque na paixão de Jesus, Pilatos não era cúmplice de Barrabás e aqui no Brasil, ninguém sabe mais quem é o governador e quem são os muitos Barrabás ... que, apesar das provas e documentos, continuam soltos e com todos os privilégios necessários para confundir e chamar de justiça o que é injustiça e vice-versa. 

No Novo Testamento, Paulo escreveu ao seu colaborador Timóteo: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado. Por seu evangelho, tenho sofrido tribulações e estou preso, mas a Palavra de Deus não se deixa aprisionar”(2 Tm 2, 8- 9).  

Ao prenderem Lula, seus algozes pensaram em aprisionar sua palavra. Ilegalmente o mantêm isolado e proibido de se comunicar. No entanto, milhões de brasileiros e brasileiras se tornaram a voz de Lula para testemunhar que a palavra da verdade não se deixa aprisionar. Essa palavra, livre e indomável como uma ventania, desnuda a justiça transformada em balcão de negócios e denuncia que o rei está nu. 

Durante um ano, os movimentos sociais e organizações de base mantiveram uma vigília permanente, que ligou Lula com o Brasil e com as pessoas que têm fome e sede de justiça. Talvez a música brasileira mais atual para quem quer manter a esperança seja a canção clássica dos anos 70 que valeu a Maurício Tapajós a ameaça da censura da ditadura militar. Mas, a palavra não se deixou acorrentar e ele cantava o que, no coração, hoje cantamos para além do Pesadelo(título da canção): 

Quando um muro separa, uma ponte une, Se a vingança encara o remorso pune

Você vem me agarra, alguém vem me solta, Você vai na marra, ela um dia volta

 E se a força é tua, ela um dia é nossa, Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando

Que medo você tem de nós, olha aí, 

Você corta um verso, eu escrevo outro, Você me prende vivo, eu escapo morto

De repente olha eu de novo, Perturbando a paz, exigindo troco

Vamos por aí eu e meu cachorro, Olha um verso, olha o outro

Olha o velho, olha o moço chegando, Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte, Da liberdade guardiã.  O braço do Cristo, horizonte

Abraça o dia de amanhã, Olha aí..., olha aí..., olha aí...   

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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