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A proposta revolucionária de um amor diferente

A proposta revolucionária de um amor diferente

                    A partir desse domingo, o lecionário ecumênico nos faz ouvir trechos do discurso que, conforme o quarto evangelho, depois de cear, Jesus teria dito ao seu grupo de discípulos/as O texto lido hoje (Jo 13, 31- 35) contém as palavras de Jesus, logo depois que Judas deixa a sala da ceia e se retira para entregar Jesus a seus inimigos. Conforme o evangelho, pressentindo que Judas o trairia, Jesus faz com ele o gesto de maior carinho: lhe dá a primeira porção de mão molhado. Era sinal de predileção. No entanto, conforme o evangelho, aquele alimento da ternura não fez o traidor se arrepender. Ao contrário, ao receber o gesto de carinho de Jesus, Judas se enche do espírito de divisão (o diabo entra nele ) e ele sai do grupo, sai da comunhão. É nesse momento, no qual se vê sendo traído por alguém do seu grupo, sabendo que Pedro vai negar ser seu amigo e, que naquela mesma noite, todos os doze vão fugir, é nesse contexto tenso e doloroso que Jesus declara: “Agora o Filho do Homem foi glorificado e Deus foi glorificado nele”. Na cultura bíblica, a glória era a presença visível de Deus. Glorificar era manifestar a presença divina nele. Então, o que Jesus afirma é “Agora, Deus manifesta claramente sua presença em seu Filho”. E  por que o glorificou? Por que, naquele momento, Jesus mostrou de modo mais claro o seu amor aos outros. Jesus manifestou o seu amor (como diz o evangelho: amou até o fim do amor) na hora em que viveu a traição de um amigo e a negação do outro. É nesse momento que declara ao grupo dos discípulos e discípulas: Eu lhes dou um mandamento novo: amem-se uns aos outros como eu amo vocês

A comunidade dos discípulos estava habituada a falar de amor como amizade (filia) e atração afetiva (eros). Agora, Jesus usa uma palavra diferente para falar do seu amor e pedir que discípulos e discípulas amem como ele ama. O termo agapé é amor gratuito de predileção e doação. 

Até hoje, há quem pensa: a gente ama sempre quando recebe algo em troca. Não existe nada de totalmente gratuito. Mas, isso não é verdade. Há pais que se dedicam e amam carinhosamente filhos excepcionais que nunca terão condições de corresponder. Há pessoas que optam por amar assim. Dom Luciano Mendes de Almeida contava que ao visitar uma prisão, encontrou lá uma senhora pobre e doente que, cada sábado, trazia marmita de comida para um rapaz. Quando o bispo lhe perguntou: “É seu filho?”. Ela respondeu: “Não. É o rapaz que matou meu filho”. É difícil compreender esse amor, mas Jesus o mostrou pelos seus e nos pediu para viver. 

Há duas observações que o evangelho de hoje nos faz meditar:

A primeira é que Jesus propõe esse amor de predileção e doação gratuita, exatamente no momento em que se sentiu traído e sofrendo mais a fragilidade e a inconsistência do grupo. A revelação de que os amava com predileção e ternura e a proposta de que eles se amassem assim não foi feita em um momento de relacionamento positivo e feliz, mas, ao contrário, exatamente quando Jesus sofre a percepção de estar sendo negado e traído. 

A segunda observação é que ele pediu algo que era o mais difícil e exigente: um amor revolucionário que vinha acabar com a cultura vigente, a cultura da competição e da busca de poder. Ao olhar as Igrejas e o Cristianismo durante toda a sua história, descobrimos que Jesus parece ter fracassado em sua proposta. Esse pedido foi o que ele menos conseguiu. Nunca, desde os primeiros tempos, as Igrejas fundadas sob a inspiração de Jesus, conseguiram dar exemplo desse amor que ele propôs. Sempre houve pessoas extraordinárias que viveram o amor assim– homens e mulheres, iguais a nós que receberam a graça de viver um amor de doação total, mas as Igrejas, em seu conjunto, nunca conseguiram viver esse testemunho. 

Justamente, essas pessoas que amam até o ponto de dar a sua vida pelos outros e pela proposta de Jesus recebem o nome de “mártires”,testemunhas. Em geral, não são pessoas diferentes. Não são heróis. São iguais a nós, com medo, com indecisões, mas Deus lhes deu a força de ir até o fim do amor. Nesse mês de maio, no dia 10, as comunidades lembram o martírio do padre Josimo Tavares, que foi companheiro nosso na Pastoral da Terra. Era nove anos mais novo do que eu e trabalhava com lavradores no sul do Pará e fronteira com o atual Tocantins. Foi avisado de que os latifundiários iriam matá-lo. A CPT pediu que ele deixasse a região e ele queria deixar, mas dizia: Como vou deixar os outros que também correm risco? São 40 pessoas ameaçadas. Eu sou apenas uma. E ficou. Quinze dias depois caiu sob o impacto de muitas balas. Tinha 33 anos de idade. Não era de partido político. Não era radical de esquerda. Era simplesmente um pastor que protegeu o seu rebanho com sua própria vida. 

No próximo domingo, a arquidiocese de Olinda e Recife lembrará os 50 anos do martírio do padre Antônio Henrique. Esse coordenava a Pastoral da Juventude. Alegre, brincalhão e amigo dos jovens. Não era alguém com compromisso diretamente social e político, como foi o caso do padre Josimo ou de Dom Romero. Simplesmente coordenava grupos de estudantes secundaristas. Agentes da ditadura militar o prenderam, o torturaram e mataram só para atingir indiretamente a Dom Helder Camara a quem, como bispo, eles ainda não podiam prender nem matar. E o padre Henrique não negou que trabalhava com Dom Helder e o ajudava no seu serviço de pastor. Morreu por isso, aos 28 anos de idade. 

Nesse momento atual de um Brasil que, a cada dia, vai mais para direita e com um governo que, cotidianamente, destrói o país e oprime os pobres, somos chamados a resistir como Josimo, Henrique e o próprio Jesus resistiram. Mas, na resistência, viveremos como opção revolucionária esse amor solidário e de predileção pelos pequeninos de Deus e por toda a humanidade. Não vamos tratar adversários e inimigos como se fossem amigos e companheiros. Vamos tratá-los como inimigos que devem ser impedidos de continuar fazendo o mal e devem ser combatidos para que cessem a opressão que fazem. No entanto, faremos isso sem nos deixar tomar pelo ódio e por sentimentos de vingança. É o amor gratuito e revolucionário que será nossa força de resistência e de transformação da realidade.  

 

 

 

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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