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A solidariedade como salvação

A solidariedade radical como salvação possível

               O evangelho desse 26º domingo comum do ano sempre me provocou mal estar. Se eu fosse seguir minha primeira inclinação, proporia que fosse retirado do calendário litúrgico. A parábola do rico e do pobre Lázaro me parece a mais dura e difícil de interpretar do evangelho se partimos do princípio que Deus é amor e não condena ninguém. A parábola parece reforçar o tipo de fé dos fundamentalistas que põem a salvação para depois da morte e parece confirmar o céu e o inferno como aprendemos no Catecismo. 

Em primeiro lugar, é preciso compreender essa parábola própria do evangelho de Lucas, como conto da religião popular da época. Só assim podemos aceitar essas imagens de um quase fatalismo que condena uns ao inferno eterno e sem remissão. Essa mesma história foi encontrada na antiga literatura egípcia[1].  E contos semelhantes estão em livros judaicos da época do final do primeiro testamento. É uma crença totalmente diferente da tradição bíblica. Mesmo na tradição judaica da época de Jesus, não havia essa imagem de duas moradas opostas (o seio de Abraão como céu e o fogo eterno como inferno). O Judaísmo acreditava no que até hoje o Credo cristão chama de “morada dos mortos”. (Morreu, foi sepultado e desceu à mansão dos mortos). Os judeus chamavam isso de Sheol mas texto nenhum diz que era um lugar de tormentos. Era um estado de sombra, mas não tinha essa imagem de fogo. Os textos evangélicos que falam em fogo inextinguível e “trevas exteriores” se referem ao Vale da Geena, lugar fora dos muros de Jerusalém, onde se enterravam os mortos, se jogavam cadáveres de animais e se queimava lixo... Ali havia um fogo permanente e que serviu para textos apocalípticos falarem do fogo do inferno. Isso vem dos apocalipses judaicos da época do final do primeiro testamento, portanto depois do tempo de Jesus. 

Ao contrário, o fato dessa parábola chamar Deus de pai Abraão parece vir de fontes muito antigas e da religião cananeia, mais do que da tradição bíblica. “Etimologicamente, o nome Abraão representava o próprio Deus: ´abiran. É a este deus ao qual os reis cananeus e também o patriarca Abraão adoravam” (Cf. Gn 14, 18)[2].

Então, de tudo isso, o que fica? De fato, a dureza da parábola é própria da experiência dos pobres nesse mundo: a vida é muito dura. Tudo é contado em termos de tragédia. Isso que aos olhos estranhos da classe média pode parecer masoquismo ou pior ainda um instinto sádico, pode ser uma terapia (estranha mas real), uma espécie de vacinação interior contra a tragédia de uma realidade cotidiana que é, a cada dia conviver com assassinatos de adolescentes pobres e quase sempre negros e, a cada hora, com violências contra a mulher. É o jeito de ir se imunizando contra a dureza terrível da vida, baseada na exclusão e na desigualdade social. Nessa perspectiva até a religião é contada dessa forma. Parece que a religião popular da época de Jesus já era assim: representava Deus e a salvação desse jeito trágico e implacável. Para nós a lição que fica é simples. É aqui que o destino se decide: se do lado de cá da vida se nega um pedaço de pão ao pobre, do lado de lá, Deus vai negar até uma gota d’água para aliviar a sede. Jesus assumiu essa forma rígida como o povo pobre contava a salvação. Ele estava subindo para a Páscoa em Jerusalém. O evangelho de Lucas tinha acabado de dizer que os fariseus e religiosos de Jerusalém gostavam do dinheiro (eram amigos das riquezas). Provavelmente, o evangelho diria a mesma coisa de religiosos/as de hoje, de todas as religiões e Igrejas que cobram caros os serviços religiosos e pensam o seu ministério como de acúmulo de bens e construção de belos templos e catedrais. 

Quando, em 1985, por motivo de idade, Dom Helder Camara  renunciou ao ministério de arcebispo de Olinda e Recife, em certos ambientes eclesiásticos, correram boatos de que ele tinha deixado a arquidiocese em situação econômica muito precária. Acusaram-no de ter sido péssimo administrador. Tinham esquecido de que, no final do Concílio, (1965), com outros 40 bispos, ele assinou o Pacto das Catacumbas. Ali, comprometeu-se de viver como pobre e conduzir a sua diocese a se despojar de tudo o que tivesse para partilhar os seus bens com os pobres e ser pobre junto com eles. Dom Helder fez isso radical e profundamente, em sua vida pessoal e como bispo. 

Jesus não hesita em afirmar aos religiosos da religião espiritualista: De nada adianta a espiritualidade de vocês. Se não cuidarem estruturalmente dos Lázaros de hoje, não há salvação para vocês. Não porque Deus vá castiga-los com o inferno, mas porque o próprio egoísmo e narcisismo religioso de vocês os condena ao inferno do desamor. Só há um inferno: é não amar, dizia o padre de Georges Bernanos no “Diário de um cura de aldeia”.   

No evangelho, o rico não tem nome. A parábola não diz que ele é desonesto, nem avarento. Ele é simplesmente rico. Hoje, no Brasil, cinco deles possuem renda equivalente à metade da população pobre do país. Essa desigualdade monstruosa e crescente mantém a guerra colonial de 500 anos contra os povos indígenas, comunidades afrodescendentes, lavradores e pessoas abandonadas nas ruas das cidades. Lázaro, o pobre, tem nome. E esse nome significa: Deus é minha ajuda. É força de apoio. Essa parábola nos adverte: Deus opta radicalmente pelos oprimidos e excluídos do mundo e nos espera com ele nessa subversão. Não há meio termo: ou sim ou não... Essa é a nossa fé e causa pela qual damos a vida. 

Poucos dias antes de ser assassinado, Dom Oscar Romero declarou em um discurso na Universidade de Louvain: “Estar a favor da vida ou da morte. Não há neutralidade possível. Ou servimos à vida, ou somos cúmplices da morte de muitos seres humanos. Aqui se revela qual é a nossa fé: ou cremos no Deus da vida, ou usamos o nome de Deus, servindo aos algozes da morte”. 

É exatamente isso. Hoje, Lázaro não é apenas alguém. É a multidão das pessoas que jazem nas ruas e praças de nossas cidades como invisíveis. São os povos indígenas e as vítimas das mineradoras em tantas regiões do Brasil e do mundo. É a própria Amazônia, que em meio às queimadas e às destruições provocadas por madeireiras e por mineradoras, grita por socorro... É a mãe Terra ameaçada pelo deus dinheiro... Só esses e essas Lázaros de hoje são a nossa salvação e a salvação do mundo.  



[1] - Cf. Un viaggio nell´aldilà, in Testi religiosi egiziani, Torino, UTET, 1970,pp. 542- 544.  

[2] - Cf.  MARCELO BARROS, A Revelação do Mistério Uno e Múltiplo, (Releitura macro-ecumênica do Nome divino Mem Ex 3), in Estudos Bíblicos 100, (2008), p. 38.

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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