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A voz da Amazônia

A profecia da Amazônia: o Bem-viver ecocósmico

                  Seja pelas notícias alarmantes em relação a queimadas e à destruição da floresta, seja pelo processo de escuta e diálogo criado nas comunidades da região durante esses dois anos de preparação ao Sínodo dos bispos sobre a Amazônia, a região panamazônica tem sido centro de atenção, tema de estudos e de interesse para as comunidades e organizações de todo o mundo. Apesar de tudo, se trata de uma região, na qual, mais ainda do que em outros biomas do mundo, a Ecologia integral é um desafio indispensável para a proteção da Vida e o equilíbrio do ecossistema. 

Na América Latina, dezenas de biomas e ecossistemas diversos. Cada vez mais descobrimos que eles são todos interdependentes e complementares. Se se destrói os ecossistemas no Cerrado e no semi-árido do Planalto Central brasileiro e boliviano, além dos habitantes dessa região, os povos que vivem no altiplano andino sofrem as consequências. A destruição do rio Doce e de outros rios no sudeste brasileiro provocada pelo rompimento de barragens de lama tóxica das mineradoras provocou mudanças climáticas em outras regiões do Brasil. No entanto, atualmente os cientistas do clima conseguem provar que, tanto por sua dimensão, quanto pela riqueza de sua diversidade, a região do mundo, cuja destruição pode mais afetar o equilíbrio de toda a Terra é a Amazônia.  

1 – Um olhar sobre a Amazônia 

A Amazônia é um território que se espalha por nove países. Tem quase 8.000.000 de Km 2 que formam um bioma, isso é, um sistema vivo de interações orgânicas, essenciais para o equilíbrio do planeta. Conforme os cálculos dos cientistas, somente o rio Amazonas deposita no Oceano Atlântico 750 milhões de litros de água por segundo. No sub-solo da Amazônia, há o Aquífero Alter do Chão, uma bacia de água subterrânea que pode ser comparado a um mar de água no seio da mãe Terra. 

Além da grande bacia de rios imensos que irrigam a superfície e do mar de águas doces e transparentes que forma o aquífero subterrâneo, a grande quantidade de água em forma de vapor cria o que, na Amazônia, se chamam de rios voadores, imensos lençóis de água doce que se depositam sobre as nuvens e são levados pelos ventos até o sul. São esses rios voadores que garantem as chuvas em grande parte do planalto central brasileiro, em diversas regiões do sul e mesmo em outros países. Esse bioma regula a distribuição de chuvas por todo o território brasileiro e pelo Uruguai, Argentina, Paraguai e mesmo Bolívia. Alguns cientistas acreditam que esse bioma é responsável pelo equilíbrio do clima de toda a Terra. Outros ecossistemas do planeta dependem depende da preservação da floresta amazônica e de seus rios. Cada metro quadrado do bioma Amazônia tem mais diversidade que qualquer outro lugar do planeta. Essa imensa diversidade de vida garante aos povos que ali habitam alimentos, medicamentos, azeites e outras dádivas que nem se podem calcular. 

Essa região que chamamos pan-amazônica tem 35 milhões de habitantes, espalhados pela floresta, pelas margens dos rios, campos e grandes cidades. Quase três milhões pertencem a povos originários que falam 340 línguas diversas. Eles se relacionam harmoniosamente com a natureza, com os outros humanos e com Deus. 

Na conjuntura atual, todos esses povos (como indígenas, ribeirinhos, comunidades negras remanescentes de quilombos e colhedoras de coco) se sentem agredidas em sua relação vital com a mãe Terra, em sua ligação amorosa com as águas. O modelo de desenvolvimento depredador instalado na região os destrói, assim como destrói o próprio sistema de Vida no planeta. Agride as comunidades tradicionais, em seus valores culturais e espirituais. Os povos em sua sabedoria, criaram sistemas produtivos rentáveis, sem derrubar a floresta (açaí, cupuaçu, castanha, peixes, etc). O Capitalismo vem e com a monocultura da soja, com a implantação de gado (pecuária) e com projetos de mineração e madeireiras destroem a natureza, tiram dos povos tradicionais os seus meios e instrumentos de sobrevivência e criam uma desigualdade social e humana cada vez mais grave e danosa. A sobrevivência dos povos amazônicos em sua diversidade depende de que se detenha o modelo de desenvolvimento depredador. O que destrói o bioma é a monocultura (soja, gado, mineração). Também não serve o chamado “Capitalismo verde” que se rege pelas leis do mercado e transforma em mercadoria o que a natureza nos dá de graça. 

2 – Amazônia, santuário de espiritualidades originárias

 A principal novidade do Sínodo sobre a Amazônia convocado pelo papa Francisco é o processo sinodal que ele provocou. Em sínodos anteriores, havia um questionário que as dioceses recebiam e, em princípio, as bases respondiam. Dessa vez, se criou verdadeiramente em toda a região panamazônica um processo de escuta e diálogo das comunidades tradicionais (índios, ribeirinhos, comunidades de periferia urbana, seringueiros e outras) e esse processo tem se constituído como um novo modo de missão e de mobilização das bases. Provavelmente, é a primeira vez que missionários/as vivem sua missão como processo de escuta atenta e de valorização das culturas tradicionais da Amazônia e mesmo ou até principalmente de suas expressões espirituais e religiosas. 

De fato, é um novo modo de viver a missão cristã. Não se trata da Igreja converter a Amazônia (no sentido tradicional que se dava a esse termo) e sim dela se converter à Amazônia. As tradições espirituais indígenas e tradicionais são tantas e tão diversas que nenhum nome como Xamanismo ou Pajelança são capazes de definir ou caracterizar. Todas têm em comum a fé na presença do Mistério Divino na terra, nas águas e em toda a natureza. Tudo é vivo, tudo tem Espírito e tudo é interligado. Essa visão insere o ser humano na sua comunidade de vida, grupo humano e comunidade mais ampla com todos os seres vivos. Atualmente, essa harmonia está sendo violada pelo Capitalismo e é preciso defender essas culturas originárias e suas expressões espirituais. 

A Fundação Pueblos Indios no Equador, iniciativa criada por Leónidas Proaño, saudoso bispo e profeta de Riobamba, propõe ao papa Francisco nesse sínodo que proclame a Amazônia como “santuario intangible de la Madre Tierra”. De um lado, é claro que tem de proclamar a Amazônia como santuário intocável da mãe Terra não é o papa. Isso compete aos irmãos e irmãs das tradições religiosas indígenas. O que o papa e a Igreja Católica podem e devem fazer é reconhecer essa proclamação indígena. 

O Sínodo é mais do que tudo um instrumento de escuta e valorização das culturas tradicionais amazônicas. Algumas comunidades chegaram a propor que toda a Igreja seja amazônica. Não se trata, é claro, de impor as culturas amazônicas ao mundo todo. Isso seria um projeto colonialista, mesmo que em sentido inverso. A proposta é de que a universalidade das culturas e a liberdade de expressões da fé sejam vividas sempre a partir da comunhão com os povos tradicionais e na perspectiva de uma Ecologia integral. 

3 – A escuta da palavra indígena 

 Entre as lideranças indígenas que o papa Francisco recebeu em preparação ao Sínodo, uma das mais importantes foi o cacique Raoni Metuktire. Trata-se de um líder indígena brasileiro da etnia caiapó. Vive no Xingu e tem 89 anos e é conhecido internacionalmente por sua luta pela preservação da Amazônia e dos povos indígenas. Nesses dias, o cacique Raoni assim se pronunciou: 

“Por muitos anos, nós, os líderes indígenas e os povos da Amazônia, temos avisado vocês, nossos irmãos que causaram tantos danos às nossas florestas. O que você está fazendo mudará o mundo inteiro e destruirá nossa casa – e destruirá sua casa também. Temos deixado de lado nossa história dividida para nos unirmos. Apenas uma geração atrás, muitos de nossos povos estavam lutando entre si, mas agora estamos juntos, lutando juntos contra nosso inimigo comum. E esse inimigo comum é você, os povos não-indígenas que invadiram nossas terras e agora estão queimando até mesmo aquelas pequenas partes das florestas onde vivemos que você deixou para nós. O presidente Bolsonaro do Brasil está incentivando os proprietários de fazendas perto de nossas terras a limpar a floresta – e ele não está fazendo nada para impedir que invadam nosso território.

Pedimos que você pare o que está fazendo, pare a destruição, pare o seu ataque aos espíritos da Terra. Quando você corta as árvores, agride os espíritos de nossos ancestrais. Quando você procura minerais, empala o coração da Terra. E quando você derrama venenos na terra e nos rios – produtos químicos da agricultura e mercúrio das minas de ouro – você enfraquece os espíritos, as plantas, os animais e a própria Terra. Quando você enfraquece a Terra assim, ela começa a morrer. Se a Terra morrer, se nossa Terra morrer, nenhum de nós será capaz de viver, e todos nós também morreremos. 

Por que você faz isso? Você diz que é para desenvolvimento – mas que tipo de desenvolvimento tira a riqueza da floresta e a substitui por apenas um tipo de planta ou um tipo de animal? Onde os espíritos nos deram tudo o que precisávamos para uma vida feliz – toda a nossa comida, nossas casas, nossos remédios – agora só há soja ou gado. Para quem é esse desenvolvimento? Apenas algumas pessoas vivem nas terras agrícolas; elas não podem apoiar muitas pessoas e são estéreis. 

Você destrói nossas terras, envenena o planeta e semeia a morte, porque está perdido. E logo será tarde demais para mudar. Então, por que você faz isso? Podemos ver que é para que alguns de vocês possam obter uma grande quantia de dinheiro. Na língua Kayapó, chamamos seu dinheiro de piu caprim, “folhas tristes”, porque é uma coisa morta e inútil, e traz apenas danos e tristeza. Quando seu dinheiro entra em nossas comunidades, muitas vezes causa grandes problemas, separando nosso pessoal. E podemos ver que faz o mesmo em suas cidades, onde o que você chama de gente rica vive isolado de todos os outros, com medo de que outras pessoas venham tirar seu piu caprim. Enquanto isso, outras pessoas passam fome ou vivem na miséria porque não têm dinheiro suficiente para conseguir comida para si e para seus filhos. Mas essas pessoas ricas vão morrer, como todos nós vamos morrer. E quando seus espíritos forem separados de seus corpos, seus espíritos ficarão tristes e vão sofrer, porque enquanto vivos fizeram com que muitas outras pessoas sofressem em vez de ajudá-las, em vez de garantir que todos os outros tenham o suficiente para comer, antes de alimentar a si próprio, como é o nosso caminho, o caminho dos Kayapó, o caminho dos povos indígenas. 

Você tem que mudar a sua maneira de viver porque está perdido, você se perdeu. Onde você está indo é apenas o caminho da destruição e da morte. Para viver, você deve respeitar o mundo, as árvores, as plantas, os animais, os rios e até a própria Terra. Porque todas essas coisas têm espíritos, todas elas são espíritos, e sem os espíritos a Terra morrerá, a chuva irá parar e as plantas alimentares murcharão e morrerão também. Todos nós respiramos esse ar, todos bebemos a mesma água. Vivemos neste planeta. Precisamos proteger a Terra. Se não o fizermos, os grandes ventos virão e destruirão a floresta. Então você sentirá o medo que nós sentimos.[1]

[1]http://midianinja.org/news/nos-povos-da-amazonia-estamos-cheios-de-medo-em-breve-voces-tambem-terao-diz-cacique-raoni/

 



[1] - Marcelo Barros é monge beneditino, teólogo e biblista. Na gestão anterior, (até março de 2018) foi coordenador latino-americano da EATWOT. Em toda a América Latina assessora comunidades cristãs populares, movimentos sociais no campo e desenvolve uma Teologia cristã pluralista em comunhão com as religiões afrodescendentes. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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