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Amor de predileção

Amor de predileção

 

Nesse domingo, o 6o da Páscoa, o evangelho proclamado nas comunidades continua a parábola da videira (Jo 15, 1- 8), lida no domingo passado. 

Conforme o quarto evangelho, o discurso da ceia revela o momento mais íntimo de Jesus com o seu grupo. É uma espécie de testamento de Jesus. Mas, provavelmente, reflete também o que o evangelho quer dizer a uma comunidade cristã do final do primeiro século na qual os seus membros sofriam sérios conflitos com a sociedade na qual viviam e também duros conflitos internos na comunidade. 

Conforme muitos estudiosos do contexto histórico do evangelho, é possível que, por trás desses capítulos do evangelho de João, (João 13- 17), esteja a situação muito difícil de uma comunidade de cristãos vindos do Judaísmo, na periferia de Éfeso ou de alguma outra cidade da Ásia Menor (atual Turquia). Pelo fato de se dizerem discípulos/as de Jesus, esses/as cristãos que até então sempre tinham sido ligados à religião judaica e à sinagoga de cada cidade, foram expulsos/as da religião judaica (excomungados) pelo concílio dos rabinos em Jamnia (80 A.C.). 

Naquela época, o Império Romano administrava as províncias através de cada grupo nacional e religioso. Para as autoridades, os cristãos eram ligados à sinagoga judaica. Se os chefes da sinagoga os expulsava da comunidade, eles perdiam sua referência religiosa, mas também sua segurança civil. Sem pertencer à comunidade judaica, não conseguiam morar no bairro judaico da cidade. Não podiam manter seus trabalhos (judeu só comprava de judeu) e provavelmente nem podiam fazer sua feira semanal para a família. Sob todos os pontos de vista, ficavam realmente marginalizados. Foi nessa realidade de exclusão social, política e religiosa, que aquela comunidade de discípulos escutou essas palavras de Jesus tão carinhosas e profundas que repetimos no evangelho de hoje.

No texto anterior, (Jo 15, 1- 8), Jesus afirma que só ele é a verdadeira videira. Pela educação religiosa que haviam recebido, as pessoas pensavam sempre que a videira era a comunidade judaica. No evangelho desse domingo (Jo 15, 9- 17), Jesus tira as consequências disso. Propõe como manter a unidade entre tronco e ramos dessa videira que ele e nós formamos. Ele nos faz a proposta de uma forma nova e revolucionária de viver o amor. Um amor que é o mesmo que Deus tem para conosco e que se torna proposta de relação comunitária. Esse amor divino em nós deve nos transformar por dentro e pode ser ensaio político e revolucionário de uma sociedade nova. 

Atualmente, no Brasil, estamos vivendo uma onda de muito ódio e intolerância. E às vezes, mesmo sem perceber, nós mesmos também entramos nessa cultura da tolerância zerocolocada como moral de julgamento, de exclusão e de autodefesa. Nesses dias, escutei um cientista político afirmar que estamos não apenas em uma situação de golpe, mas de fascismo. Não é qualquer direita que sai do armário. É a direita fascista. Estamos mergulhando cada vez mais na barbárie. Nessa situação, por mais diferentes que sejam as realidades históricas, estamos vivendo como a minoria que era a comunidade joanina no final do século I. Excluída da sociedade dominante e tensa se sentindo em risco quanto à sua sobrevivência e ao seu futuro. 

Hoje, quando leio o evangelho, vejo como aquele encontro da ceia que repetiam com Jesus como na véspera da paixão, foi como esses encontros que nos abastecem a vida e nos alimentam o coração. Eles se sentiam como Jesus na véspera da paixão e não adiantava mascarar ou disfarçar essa tragédia, mas eles recebiam força dessa palavra de Jesus. Ele sabia que eles estavam divididos (Lucas diz que discutiam entre eles quem era mais importante e quem teria maior poder). Jesus sabia que eram medrosos e que todos o deixariam sozinho. Sabia que eles pouco compreendiam o que estava acontecendo, mas assim mesmo só tem uma palavra para eles: Eu amo vocês. Eu os escolhi e os envio ao mundo. Eu lhes dou a minha paz. No trecho lido hoje, ele diz: Eu faço uma proposta: amem-se uns aos outros como eu amo vocês. As Bíblias traduzem por mandamento. Mas, o sentido não é de lei. Se fosse, como se poderia ordenar alguém a amar? Como o amor pode ser obrigação de mandamento? Se o compreendemos como proposta de vida e recomendação (a última e suprema recomendação de Jesus, aí sim pega). Pessoalmente, a recebo como um presente, uma graça que me ultrapassa totalmente mas que a partir do fato de que eu recebi ela toma conta de minha vida e lhe dá um sentido novo. Mesmo nas horas mais difíceis, mesmo como diz o salmo quando se atravessa o vale das sombras da morte, a gente sente essa força do amor divino em nós e nos fazendo viver do amor. O grego do evangelho usa um termo próprio para esse amor - agapéque significa não apenas um sentimento momentâneo ou de sensibilidade, mas uma doação da vida. Ao mesmo tempo, é sim um amor de predileção, amor gratuito e louco que o evangelho chega a dizer: ele amou até o fim, isso é, até o fim do amor, até onde o amor pode ir. 

Se continuamos hoje aquela comunidade de discípulos/as, podemos dizer que somos pessoas amadas de Deus, amigos e amigas da predileção de Jesus. Será que sentimos isso em nossas vidas? O que significa para nós esse amor divino por nós e em nós? É um amor que é graça e que faz Deus do nosso tamanho e do nosso jeito. Ele vive em nós do amor que ele nos faz viver - como manifestação do seu amor. 

 

 

 Hoje, ele vem lavar os pés cansados de cada um/uma de nós) e nós escutamos dele palavras de ternura e de confiança e intimidade que nem merecemos. 

É nesse momento que depois de dizer que temos de nos amar uns aos outros com o próprio amor com o qual Deus nos ama, (não é só amar o próximo como a si mesmo), que Jesus diz "Prova de amor maior não há do que dar a vida pelo irmão". 

Não sei como, mas gostaria, hoje, de confirmar para cada um de vocês que leem essas linhas essa convicção profunda que tenho: Jesus te revela um amor incondicional e permanente. E te chama a viver esse amor e desse amor, mesmo nesses torvelinhos e turbilhões da vida. 

Mas, é preciso receber, acolher profundamente esse amor. 

Será que estamos valorizando suficientemente esses momentos e ocasiões nos quais revivemos essa ceia de intimidade com Jesus? E será que como profetas e profetizas de Deus, não teríamos o dever de, assim como lutamos por direitos humanos e pela justiça social, lutarmos por cidadania nas comunidades de fé? Por que não descolonizar a missa do ritual romano (europeu)? O evangelho de João quase nunca usa o termo apóstolo. Até o capítulo 20, não faz nenhuma distinção hierárquica entre os discípulos. Será que conseguiríamos retomar essa tradição dos primeiros cristãos e revalorizarmos os ágapes, ceias de amor, em nossas casas e nas comunidades de convivência? 

Se sim, vamos por baixo minar essa sociedade da indiferença e do desamor e vamos inundar de ternura a luta revolucionária. E transformar a luta por um mundo novo em uma grande ceia de amor (eucarística, com as dimensões trans-religiosas e laicais do mundo). 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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