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Anjos de minha ressurreição

Anjos da ressurreição na minha vida

              “Cristo ressuscitou, o sertão se abriu em flor, Da pedra, água saiu. Era noite e o sol surgiu". 

Essa letra adaptada com a qual Reginaldo Veloso traduziu um antigo hino medieval italiano reflete bastante bem o que vivi nestes tempos mais recentes. 

A percepção dura das limitações de idade e de saúde veio como pedra de sepultura não apenas para uma possível vaidade da vida que rejeita  se demitir, mas para uma série de projetos de viagem e missão que não paro de inventar e curtir. Minha ascendência indígena (através de minha avó Belmira, mãe do meu pai) me chamava para entrar de cheio na preparação do próximo Sínodo da Amazônia e já tinha sido aceito em dois bons encontros de assessores. No grupo dos Novos Paradigmasprojetava  desenvolver a perspectiva de uma espiritualidade humana, baseada na profecia do universo em evolução. E por aí ia...

A cirurgia do fêmur, maior e mais grave do que se esperava, com maior tempo de recuperação, veio inesperada e inclemente. A coincidência com a gravidez de meus sobrinhos Marcelo e Camila e a viagem de Penha, minha irmã, para acompanhá-los em Macapá era também algo a ser levado em conta. E mais uma vez,  Ricardo e Malu me convidaram para ficar com eles na chácara e eles me ajudariam no que fosse necessário. (Na primeira vez em que caí doente e gravemente, eles me acolheram e cuidaram de mim por quase dois anos em 2009 e 2010).

 Baseado na confiança que tenho neles como verdadeiros irmãos que Deus me deu, aceitei sem pensar muito no que isso significaria para eles. Era como se fosse retomar a experiência de antes. Mas, o fato é que, daquela vez, éramos, tanto eu, como eles, dez anos mais novos e eles estavam mais sozinhos (os dois filhos na Europa e o primeiro neto apenas nascido). Agora, eles têm muito mais gente para cuidar e eu fui para lá, sem pensar muito no trabalho que daria. 

Nos primeiros dias, a dependência para tudo (quase não podia sair da cama) e o risco do organismo rejeitar a prótese, perigo de alguma infecção, risco de queda e outras coisas que nem sei, me fazia depender totalmente deles. Tanto Ricardo, como Malu, cada um do seu modo, se revelaram de uma doação tão total e absoluta, diante da qual só posso fazer silêncio e adorar uma presença oculta que lhes dá força e paciência para agir e me ajudar. 

Tenho consciência que não sou um doente fácil de se cuidar. Nunca me fixo na doença e só consigo isso tentando sair de mim, o tanto que seja possível. Se vem alguém com um espelho e me faz ver o que de fato sou e o pouco que posso, isso é útil e certamente necessário, mas tendo a rejeitar. O espelho só reflete a realidade presente. Não retrata a história, nem ajuda a fazer projetos. É o aqui e agora do qual não se tem como fugir. E essa é a fragilidade nossa de cada dia. Como aceitar minha dificuldade de manter um hábito alimentar de cada dia, (ainda mais com o enjoo de antibióticos) e a tentativa de não parar o ritmo de trabalho intelectual. Nesse pouco mais de um mês na chácara Maturi, escrevi o livro “As dores de parto da libertação” (Uma teologia da libertação para esses dias que dão o que pensar). 

Em 1939, Antoine de Saint-Exupery escreveu “Terra dos Homens”, amorosa meditação sobre a responsabilidade que temos uns sobre os outros, a emoção se ver o sol de pôr na cordilheira que ele atravessava como piloto do correio aéreo da França com a mística de manter as pessoas em comunhão de amizade. 

Penso que é nesse livro que ele conta que uma vez, o seu pequeno avião caiu no meio dos Andes e ele sobreviveu. Acordou em um hospital chileno, para onde tinha sido levado por um desconhecido que o encontrou ferido e abandonado na montanha gelada. Como ele nunca viu o rosto nem soube o nome desse homem que cuidou dele e o levou ao hospital, só poude se comprometer consigo mesmo a ver o seu salvador em toda pessoa humana que encontrasse. 

Eu nem posso fazer essa promessa porque os rostos dos meus salvadores são irmãos e amigos de toda uma vida. Com Ricardo e Malu, tenho quase 50 anos de amizade. E entretanto, o amor compassivo e cuidadoso deles é capaz de me surpreender cada dia de novo. E, como me sinto menos capaz de corresponder à mesma altura e sei que amor não se quantifica em grau ou capacidade, só posso dizer que, nesse ano, eles foram as pessoas com vestes resplandecentes da humanidade renovada que me apareceram na porta do sepulcro vazio e me disseram que a revolução começa por essa forma de amar gratuita e generosa. 

Agora, concluiu-se o primeiro tempo de minha recuperação. Depois de mais de 40 dias vivendo com Ricardo e Malu na chácara Maturi, volto ao apartamento que divido com minha irmã Penha. Ainda sem poder apoiar o pé esquerdo no chão, mas já podendo andar com andador e me sentindo um pouco mais autônomo. 

Só posso contemplar o amor divino presente em Ricardo e Malu e agradecer. Eles foram o Van Gogh capaz de, criativamente, pintar as paisagens do outono de minha vida com folhas amarelas que, embora a cada dia ameacem cair, enquanto estiverem ornamentando as árvores, dão à vida o colorido e a beleza que revela: com amigos assim, vale a pena viver: o Cristo ressuscita, sim e o sertão se abre em flor. Aleluia. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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