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Carta aberta a Jesus

Jesus, querido mestre e companheiro, 

 Neste domingo, tomo a liberdade de lhe escrever para expressar minha reação à parábola dos vinhateiros assassinos (Mt 21, 33- 43). Os sacerdotes e religiosos do templo reagiram mal à parábola, porque se sentiram insultados e acusados até de assassinato. Esta história também me incomoda, porque talvez ainda tenho dentro de mim uma alma religiosa que reage à sua profecia, crítica demais à religião e ao poder religioso. 

Além disso, no Brasil de hoje, dominado pelo latifúndio e pelo agronegócio, tão cruéis com lavradores pobres, com negros e com índios, me desculpe, mas não é possível comparar Deus com um senhor, proprietário de terras e de escravos.  

Talvez, eu ainda esteja marcado pela experiência trágica que vivemos, em 1981, em São Geraldo, pequena cidade na margem do Araguaia. A polícia tinha prendido os dois padres franceses, Francisco Guriou e Aristides Camio e alguns lavradores. No final daquela tarde, as pessoas viram baixar do céu um helicóptero e dele sair o famoso Coronel Curió. Este mandou abrir a Igreja, tocar o sino e reunir a população. O coronel coordenou o culto. Leu esta parábola dos vinhateiros assassinos e interpretou: “Ao prender padres e lavradores, estamos cumprindo o que, nesta parábola, Jesus disse que é o modo de Deus agir. Ele está do lado dos proprietários e castiga lavradores que querem se apoderar da terra”

Evidentemente, qualquer pessoa de bom senso rejeita esta interpretação grosseira e fundamentalista da parábola. Conforme a exegese, o senhor dessa história não é um capitalista que mora na cidade e tem uma terra no campo. Conforme a parábola, Ele planta a vinha pessoalmente. Ele mesmo a rodeia com uma cerca e constrói uma torre para protegê-la dos ladrões. É a mesma imagem usada em Isaías 5: “Meu amigo tinha uma vinha, ele mesmo a plantou, cercou com uma cerca”. No primeiro testamento, a vinha era o povo de Israel. Jesus mudou a alegoria de Isaías e do salmo 80. Agora, a imagem da vinha se refere ao reinado divino no mundo. A vinha de Deus é o projeto de um mundo organizado conforme o projeto divino da aliança da humanidade na base da paz e da justiça. Para Jesus, os dirigentes do templo que se centram no religioso seriam como os lavradores que mataram os enviados. O proprietário ama a vinha. Jeremias já havia dito: “Desde que os pais de vocês saíram do Egito até hoje, vos enviei os meus servos, os profetas. Mas, vocês não quiseram escutá-los”(Jr 7, 25- 26).

De todo modo, a parábola parece imprópria. É certo que você, Jesus, tirava suas parábolas de fatos ocorridos na época, mas, nesse caso, você generaliza. Chama todos os sacerdotes e religiosos do templo de aproveitadores que tomam para si a vinha que é do Senhor. Acusa-os de ser responsáveis pela morte dos profetas, enviados/as de Deus. 

Imagine se eu dissesse que todos os pastores que praticam Teologia da Prosperidade (Jesus é o caminho, eu sou o pedágio) são ladrões e ao menos corresponsáveis pela miséria do povo oprimido. De fato, ao menos no Brasil, há muitos grupos religiosos, dioceses e paróquias católicas que mantêm um estilo de fé mais devocional, espiritualista e religioso. Em sua maioria, estes religiosos estão mais ligados à classe alta e média. Têm poucos contatos com os pobres. Parecem mais espirituais do que os grupos ligados ao Cristianismo de Libertação. O escândalo que ocorreu em Trindade, GO, se centrou na figura de um padre, mas o modelo de evangelização e de pastoral ali desenvolvido não foi colocado em questão.  

Na parábola anterior, lida no domingo passado (Mt 21, 28 – 32), você nos dizia que a vinha é uma só: o projeto divino no mundo. Dizia que os dois filhos recebem do Pai o mesmo mandato: vão trabalhar na minha vinha. E a vinha do Pai é o mundo. É a vida e não a religião. Nesta parábola de hoje, você acusa os religiosos de terem se apossado da vinha de Deus como se fossem propriedades deles e não do Pai. Você, Jesus, denuncia que eles provocam a morte do Cristo hoje. Não mais no seu corpo físico, mas no corpo social dos pobres e pequeninos. “O que fizestes a um destes pequeninos, foi a mim que fizestes” (Mt 25, 33...). 

De fato, no Brasil, em 2018, muitos/as religiosos/as e espirituais votaram no desgoverno que está aí e até hoje o sustentam. Eles se tornam assim responsáveis pela morte dos numerosíssimos indígenas, vítimas do modo como o governo lida com a pandemia. Muitos índios, ribeirinhos e gente pobre morre vítima da política genocida em relação à Amazônia e às comunidades tradicionais. Penso que se você pudesse, em um domingo pela manhã, quando ministros e fieis chegassem ao templo, veriam, nas paredes do templo, a lista de milhares de irmãos e irmãs mortos, cujas vidas, os votos dos ministros e fieis desta Igreja ajudaram a assassinar. 

A maioria dos bispos, padres e católicos e evangélicos está tão educada na sensibilidade da sacralidade clerical discriminadora do laical que nem percebem. É preciso dizer a eles que as suas missas clericais se reduzem a cerimônias de corte medieval. Nada têm a ver com a ceia que você, Jesus, nos mandou fazer em sua memória. As novenas, terços e bênçãos do Santíssimo Sacramento com ostensórios dourados podem parecer muito espirituais, mas dividem o mundo em sagrado e profano. Assim, ainda hoje, muitos ministros da nossa Igreja (assim como religiosos de outras Igrejas e religiões) fazem o que aqueles vinhateiros da parábola fizeram ao se apossar da vinha do Senhor. E você, Jesus, conclui a parábola dizendo, não que a vinha será destruída, mas que será tirada destes maus administradores e será dada a outros que a tornem fecunda. 

Devo confessar que, compreendendo isso assim, me sinto pecador e omisso por acabar muitas vezes condescendendo com isso tudo e por ainda me inserir pouco na comunhão com os pobres, único caminho de salvação para quem crê em Ti e para quem espera a renovação deste mundo. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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