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"Conversa com o evangelho de Mateus"

Para comentar o evangelho desse 6o domingo comum do ano A, (Mt 5, 17- 27), reproduzo aqui uma página do novo livro "Conversa com o evangelho de Mateus" que será lançado nessa quinta-feira, 16, em São Paulo. Ali converso com a comunidade de Mateus, com  a irmã Agostinha Vieira de Mello e com três amigos jovens Cladilson Nardino, Jonathan Felix e Junior Centenaro: 

 C – A justiça da tradição e a do reinado divino (Mt 5, 20 – 48)

 Jesus anuncia que o reino dos céus traz uma nova justiça. Entra numa polêmica contra alguns escribas e fariseus. Há cristãos que entendem esses sete períodos como uma superação da lei a que consideram de “antiga”.

Cladilson:

 Se fosse assim, esse texto se transformaria quase em uma espécie de “declaração de guerra” entre Jesus e o judaísmo.

Marcelo:

 De fato, no texto, Jesus parece dizer: “A lei disse uma coisa. Mas, eu digo outra”. Entretanto, em uma leitura mais profunda do texto e contexto, Jesus tinha acabado de dizer que a lei não está superada. “Nenhum i ou j desaparecerão da lei, sem que tudo se realize. Quem desobedecer a um dos mandamentos da lei, por pequeno que seja, é considerado mínimo (quer dizer “está fora”) do Reino” (5, 18- 19).

De fato, fazia uns trinta anos que, para outras comunidades e outras culturas, Paulo e sua equipe haviam escrito que a lei mosaica não era mais normativa. “Não estamos mais sob a lei” (Cf. Gl 3, 25; 4, 5. 21- 27; 5, 1- 4 e várias passagens da carta aos romanos). Se interpretássemos ao pé da letra o que está no texto evangélico, poderíamos entender que vocês da comunidade de Mateus estavam condenando Paulo e o seu grupo. De fato, no que diz respeito à lei, vocês tomaram a posição contrária a dele. Quiseram, de todos os modos, evitar a ruptura dentro do judaísmo entre os chefes das sinagogas e (muitos dos judeus fiéis) e os que aceitavam o profeta Jesus. Trinta anos antes, Paulo não tinha esse problema. Ao contrário, no mundo grego da Ásia Menor (atual Turquia), ele queria libertar as comunidades de uma interpretação fundamentalista da lei que dava aos rabinos um controle muito grande sobre as comunidades.

Jonathan:

A comunidade de Mateus escreveu isso em um momento no qual Jerusalém e o templo haviam sido destruídos?

 Marcelo:

 Exatamente. E é possível que os rabinos (fariseus e escribas aos quais o Evangelho se refere) tenham organizado uma sinagoga em Jamnia e as relações entre esses rabinos e os judeus discípulos do profeta Jesus tornaram-se cada vez mais tensas.

A comunidade de Mateus procurou ajudar os irmãos a compreenderem que a proposta de Jesus não era de ruptura. Ao mesmo tempo, era crítica com relação a uma religião que se baseando numa interpretação rigorosa da lei acaba sendo totalitária.   Não se tratava de dispensar a lei, mas de interpretá-la de modo mais profundo e abrangente. O sentido mais profundo da lei é ir à mais profunda raiz das suas motivações. Por isso, para obedecer de modo verdadeiro à lei, é preciso ir à raiz da lei e ao seu espírito mesmo quando é necessário superar a sua letra.

 A maioria das palavras de Jesus que o evangelho transcreve, deve ter recebido de tradições anteriores às quais comunidades como a de Lucas também tiveram acesso. Mas só Mateus conta os seis casos sobre os quais Jesus se opõe à tradição judaica vigente na época das comunidades do evangelho (anos 80 depois de Cristo).

Cladilson:

 Então, o problema é o Judaísmo da época de Mateus e não tanto o do tempo de Jesus.

Marcelo:

 Sim, porque depois que o templo de Jerusalém foi destruído e os judeus expulsos pelos romanos do seu país, para preservar as tradições e manter a cultura, os rabinos insistiam mais na tradição oral.  No evangelho,  Jesus se refere a tradição oral quando ele diz:  “aquilo que foi dito aos antigos”.  Dizendo que ela “foi dita”, ele pressupõe que foi revelada por Deus. É um modo de falar comum nos rabinos que se chama: “passivo divino”. Usa-se a expressão “foi dito”, “os vossos cabelos estão contados”, “os aflitos serão consolados” para evitar o uso do nome divino. Como judeu fiel à Torá, Jesus não pode dizer: “Deus disse”, ou “Deus contará”. Ele diz que a tradição “foi dita” e “os cabelos serão contados”. Então, a primeira conclusão é que Jesus reconhece não somente a Lei escrita, mas até a tradição oral como inspirada por Deus. Só que não é de uma forma fundamentalista. Nela, existe também a interpretação humana e cultural dos rabinos e esta pode evoluir e ser plenificada pela palavra do Evangelho do reino que não acrescentará nada, mas dará à Lei e à tradição um sentido mais universal e amplo.

 Jonathan:

 Se é assim, não devemos ler superficialmente e compreender como se a lei antiga fosse sem amor.

Marcelo:

Ao contrário, não somente a legislação mosaica representa o que há de mais humano entre todas as legislações antigas, como a interpretação dos rabinos já pedia amor e misericórdia. “A finalidade da lei do talião (“olho por olho, dente por dente”) era justamente limitar e controlar a possibilidade de vingança”[1]. Em alguns casos, as comparações que Jesus faz atinge mais alguns elementos da tradição oral dos antigos (não diretamente a Torá escrita). A tradição judaica e o dito dos pais contém elementos muito diversificados e ricos, alguns em um sentido mais universal e humano e outros elementos e frases que se podem interpretar em um sentido mais estrito e rigoroso. Jesus entra nessa polêmica e toma posição criticando algumas posições mais vigentes no judaísmo de então. A sua proposta não é para cancelar ou mudar a tradição e sim para aprofundá-la e universalizá-la.

Assim, as  duas últimas proclamações do evangelho de Mateus no capítulo 5 formam um conjunto sobre a nossa relação com o próximo e o inimigo. Estas são mais transformadoras. De certo modo, mudam mesmo o que a tradição e a lei do Primeiro Testamento propõem: “Ouvistes o que foi dito…” “eu porém vos digo”. Os três casos em que Jesus muda a tradição é a lei quanto ao divórcio, quanto ao juramento que a lei permitia e ele proíbe e a superação da chamada lei do talião: “Olho por olho, dente por dente”. No lugar disso, eu lhes digo: “Não resistam ao malvado…(…).

 Jonathan:

 Acho muito radical essa ordem de não condenar ou excluir ninguém. Jesus diz o mandamento de Deus é não matar. Mas, isso não basta. Existem outros modos de eliminar uma pessoa sem precisar de assassiná-la.

 Marcelo:

Exatamente. Quem quer viver a justiça nova do reino não pode se deixar dominar pela ira, nem condenar um irmão ou irmã por uma palavra má (Cf Mt 5, 21- 26).

 Cladilson:

 Aparentemente, essa norma dada por Jesus parece muito rígida porque não se pode nem insultar o outro. Será mesmo assim?

 Marcelo:

 Jesus viveu em uma sociedade na qual a palavra tinha muita importância e força. Hoje, a publicidade e a comunicação banal esvazia a força das palavras. Entretanto, quantas vezes, nas comunidades, uma palavra falsa e injusta sobre alguém destrói profundamente o outro e as relações. Já vi uma comunidade ser destruída apenas pelo uso irresponsável e imprudente da palavra contra o outro. Por isso, de fato, Jesus exige um cuidado muito grande com as palavras que a gente usa com os outros. Ele diz para nem chamar o outro de “sem juízo”. O termo usado no texto grego é raka,  “insensato”.

 Um autor africano revela:

“O mal existe quando uma pessoa nutre rancor contra a outra. Todos os males, até a guerra e as tempestades se originam em nossas mentes, nos pensamentos de ódio ou inveja em relação a outra pessoa. Os europeus pensam que as doenças vêm dos micróbios. Mas, os micróbios, de onde vêm?” (...) “A ferida causada por uma palavra má é mais terrível do que um golpe no corpo. Uma palavra má pode, de fato, matar”[2]

 Agostinha:

 Parece um pensamento muito próximo ao que, neste evangelho, Jesus ensina. Como seria bom que pessoas religiosas e até muito conscientes e engajadas pudessem rever e velar melhor sobre o poder benéfico ou também maléfico de suas palavras sobre outras pessoas e sobre a vida?

 Marcelo:

 Um outro assunto é o desejo e a libido especificamente masculina (5, 27- 30). Todas as religiões e caminhos espirituais lidam com o desejo. A própria pergunta fundamental da vida aponta para o desejo que nos domina. De certo modo, a saúde psíquica supõe que a pessoa se mantenha o mais próxima possível do seu desejo mais íntimo. Mas, qual é esse desejo? O que verdadeiramente desejamos? Tomar consciência do nosso desejo é poder reorientá-lo e unificar o que cremos e o que queremos. No sermão da montanha, Jesus nos diz que o querer mal já é de certa forma realizar o mal, desejar alguém sexualmente já tem algo de posse. A sexualidade é o lugar que a outra pessoa ocupa em minha vida. Nós não somos inteiros sozinhos. Precisamos do outro, mas não podemos fazer deste outro um mero objeto de nosso desejo. Temos de lidar com o desejo de modo que possamos respeitá-lo como outro. Jesus expressa isso na cultura da época e na forma que ele pode.

A seguir, o discurso da montanha trata da questão do divórcio (5, 31- 32). O divórcio já era praticamente proibido pelas escolas rabínicas mais conhecidas, a não ser no caso do marido descobrir que a mulher o traiu sexualmente. O juramento em nome de Deus já era proibido desde o Êxodo (20, 17). Os essênios consideravam tão culpável o juramento “verdadeiro” quanto o falso. A Igreja anabatista proíbe qualquer juramento até juramento militar ou de formatura. Em suas cartas, Paulo emprega expressões de juramento: 1 Ts 2, 5. 10; 2 Cor 1,23; Rm 1, 9, etc. 

“Está escrito: “Amem o seu próximo e odeiem o inimigo”. Eu, porém, lhes digo: “Amem a seus inimigos e orem por seus perseguidores…” (Cf. Mt 5, 38- 47). Também na Bíblia já existem expressões de amor aos inimigos. (Cf. Ex.  23, 4- 5; Prov 25, 4).

Também a tradição dos escribascontém expressões que mandam amar aos inimigos e perseguidores. Em parte alguma, a Bíblia ou seus comentários, mandam odiar aos inimigos. Ao contrário, no Talmud há sobre isso textos belíssimos e parecidos com este que Jesus nos dá. Um dos mais conhecidos ensina:

“Na festa das tendas, a Escritura manda três vezes que nos alegremos. Na Páscoa, celebramos a libertação e, entretanto, a Escritura não manda nos alegrarmos. Por que? Por que naquele dia, os egípcios morreram e, mesmo se eram nossos inimigos, não devemos nos alegrar quando outros choram”[3].

É claro que Jesus radicaliza o amor aos inimigos como um mandamento e com uma motivação que é a mais ecumênica e profunda: ser como Deus que ama e perdoa a todos.

 Dirijo-me a vocês, escribas da comunidade de Mateus:

Por que, então, esse tom polêmico e acusatório exagerado? Será que toda essa polêmica era por causa das perseguições que vocês estavam sofrendo? Já na proclamação das bem-aventuranças, Jesus conclui dizendo: “Felizes (ou “em marcha” vocês que são perseguidos e caluniados por causa de mim…” (Mt 5, 12). Agora, vocês insistem em ser diferentes dos escribas (que vocês conheceram) e amar ao inimigo e perdoá-lo. Que situação concreta está por trás disso? Será que, para nos dar este texto belíssimo e tão radical, vocês partiram de uma polêmica contra os zelotas? De qualquer modo,  percebo dois elementos que destaco para as nossas comunidades:

1 – A polêmica não é contra o judaísmo ou mesmo o judaísmo observante.

2 – Mesmo sabendo que os primeiros destinatários da polêmica possam ter sido os zelotas, é evidente que o texto tem um alcance mais universal. 

Como não interpretar essas palavras de modo inadequado ou que não se aplicam à nossa realidade de hoje?



[1] - RINALDO FABRIS, Matteo, traduzione e comento, Roma, Ed. Borla, 1982, p. 144.

[2] - NZUZI BIBAKI, La Stregoneria, Bologna, EMI, 1998, p. 12.

[3] - Cf. PESIKTA,  K  189.

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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