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​Conversa inicial, 26 de janeiro 2012

Um retiro diferente

Desde algum tempo, venho pensando que Deus me chama não para correr pelo mundo como livre atirador, indo de encontro em encontro e atendendo solicitações esporádicas e isoladas desse ou daquele grupo. Sem me negar a assessorias eventuais, me sinto mais chamado a acompanhar continuadamente os mesmos grupos e projetos. Sinto que isso permite firmar o trabalho em relações de vida, de amizade e de compromisso em comum para o futuro.

Nessa linha, assumi o encargo de acompanhar um “retiro” de um pequeno grupo de amigos. Eram dois casais dos quais sou amigo há muitos anos e pelos quais me sinto responsável como irmão e companheiro de missão. Ficamos juntos quase quatro dias em uma casa religiosa que nos acolheu. Foi um tempo de partilha, de revisão de vida e de colocar em comum nossos sonhos e desejos. O pano de fundo da nossa reflexão comum foi a missão, compreendida não como apenas tarefa a cumprir e sim como sentido a dar à nossa vida. E não apenas como missão individual, mas como missão em dupla ou em casal. Aliás o evangelho diz que Jesus chamou os discípulos em dupla (Mc 1, 14- 20). No caso meu e desses dois casais, todos sentem o peso da idade e nos perguntávamos também que missão temos na idade mais adulta. Alguns se aproximam dos 60, outros como eu já transpomos essa idade. Falamos de como Dom Hélder Câmara via o que ele chamava de “minorias abraâmicas”, pessoas frágeis, no caso de Abraão, mais velho, e ao qual Deus chamava para iniciar toda uma história pessoal e coletiva de salvação e vida nova. 

Para isso, vimos a necessidade de reordenar as atividades de modo que não nos dispersemos interiormente em meio à correria que comumente temos de enfrentar. Lemos textos bíblicos que nos chamavam a voltar “ao deserto do coração”, ou seja, à mística do reino, do projeto divino para o mundo. E nesse sentido, retomamos sonhos que já tentamos realizar em outros momentos de nossa história, o desejo de aprofundarmos entre nós uma contínua rede de relações, o propósito de cada um/uma dedicar, cada dia, ao menos um momento de oração ou meditação, na forma e no estilo que quiser (meditação oriental, ioga, oração de Jesus, salmo e evangelho, etc). Isso para cultivar mais profundamente a intimidade com Deus, presente no outro com o qual convivemos, presente em nós mesmos e no universo em torno de nós. Tentamos também estabelecer entre nós um plano de nos encontrarmos ao menos uma vez por ano, nos visitarmos e concretizarmos mais a solidariedade entre nós e com os que nos cercam. Aos que se reuniram ali naqueles dias de meditação e a todos nós, no Apocalipse, podemos ler o que o Senhor nos manda dizer: “Tu esqueceste o teu primeiro amor, o fervor da tua juventude. Vê de onde caíste e retoma o primeiro amor” (Ap 2, 7).

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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