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Conversa, quarta feira, 10 de fevereiro 2016

Quarta-feira de cinzas, entrada da Quaresma e da Campanha da Fraternidade. Até pouco tempo, entrar na Quaresma me deixava meio deprimido. Achava sem sentido e sem graça essa insistência em pecado e penitência. E uma observância muito centrada no indivíduo. Com a Campanha da Fraternidade, a Igreja foi levada a pensar um esforço de conversão comunitária e na linha da fraternidade. No lugar de uma fé centrada no pecado e na conversão individual, somos chamados a contemplar a presença divina no mundo em crise e a louvar a Deus cooperando pela salvação do planeta, tanto na luta pela universalização do saneamento básico, como em todo cuidado com a casa comum.

Isso deveria dar outro jeito de celebrar a Páscoa, até no ponto de vista litúrgico e eucarístico. O que sinto no Brasil é que a Campanha da Fraternidade ainda fica uma coisa muito externa à liturgia e à espiritualidade. É como um agregado e não se vê que, ao contrário, esse caminho de amor solidário é o próprio jeito de crer e de orar. A Quaresma não pode mais ser centrada no que até aqui se chamou de penitência. Temos de acabar com esses sinais de tristeza. Lembrar que na Evangelii Gaudium, o papa Francisco lamentava o fato de que "muitos se contentam em celebrar uma Quaresma sem Páscoa". 

Tenho a impressão de que isso nos levou a retomar uma dimensão mais pascal para a Quaresma. Na regra para os monges, São Bento aconselha os irmãos a "esperar a Santa Páscoa cheios de um profundo desejo espiritual". Isso me leva realmente a me perguntar o que eu é que eu espero hoje em dia. Theillard de Chardin dizia que, com o tempo, a Igreja que nos seus inícios, vivia de esperar a vinda do Senhor (Marana-tha), perdeu a capacidade de esperar... De fato, eu tenho de me rever e perguntar o que, de fato,   eu desejo e o que espero, com  a devida diferença que Comblin nos ensinou a fazer. Ele escreveu: "Esperar não é desejar. É obedecer aos projetos de Deus" ( no livro A maior esperança). Esperar é entrar na expectativa do que Deus prometeu. Desejar é unir as minhas aspirações mais íntimas a isso que o Pai revelou...

Quero viver isso nessa Quaresma. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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