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Conversa, quinta feira, 30 de agosto 2012

O CIMI (Conselho Indigenista Missionário) completa 40 anos e me pede um texto que será um capítulo em um livro coletivo para celebrar esses 40 anos. Tive a alegria de testemunhar muita luta no início desses 40 anos. Nos anos 70 ainda cheguei em Goiás e me tornei assessor de bispos como Tomás Balduíno e em várias viagens e aventuras companheiro de Pedro Casaldáliga. Com eles estive várias vezes em áreas indígenas e pude ver a compreensão nova de missão que eles viviam na amizade e respeito às comunidades e culturas indígenas. E aprendi muito com esses pastores e profetas que hoje quase não se vêem na Igreja. Ensinaram-me a realmente amar os índios e a contemplar a presença divina atuando neles. Até hoje, quando encontro nesses encontros como fóruns e reuniões os encontro, sinto essa emoção amorosa que só a fé nos dá. Uma vez em 1979, ia de ônibus assessorar uma assembleia da pastoral da terra. O ônibus interestadual de Goiânia a Cuiabá fez uma parada na rodoviária de Barra do Garça, fronteira entre Goiás e Mato Grosso. E de repente, por acaso, vejo dois índios xavantes jovens tentando comprar passagem para Xavantina (uma cidade que antigamente era aldeia deles) e o funcionário da rodoviária os destratava e mandava sair da fila (Não vendo nada para índio sujo). Eu me meti no meio da história, ameacei-o processá-lo, ajudei os dois jovens a comprar as passagens e descobri que na sede da Funai de Barra do Garça três xavantes buscavam vacina para coqueluche que estava ameaçando as crianças da aldeia e os enfermeiros da Funai não os atendia. Por dois motivos: primeiramente porque estava chovendo muito e tinham medo de não conseguir chegar até a aldeia pelas estradas precárias (todas de barro) e, em segundo lugar, porque só havia um enfermeiro disponível e este não aceitava fazer uma viagem tão longa só com índios. Tinha medo. O jeito foi eu ali mesmo me oferecer para acompanhá-lo de camionete para assim possibilitar que as crianças indígenas recebessem a vacina. Três dias de viagem, de sábado à segunda feira, em cima de uma camionete aberta, todo molhado (naquela época eu era jovem e sadio) e junto com os três rapazes xavantes, enquanto o enfermeiro e o motorista iam na cabine. Muita lama, muito atoleiro. Mas, também muita conversa e amizade. Comida só frutas do mato, água e o pouco que encontrávamos pela estrada. Até Couto Magalhães. Depois, outra luta para voltar. É claro que perdi a assembléia da CPT em Cuiabá e tive de explicar aos companheiros porque falhei no compromisso assumido. Assessorei algumas assembleias nacionais do CIMI. Em uma ou outra delas tive me defrontar com bispos e padres muito conservadores e até hostis a esse novo jeito de ser cristão. Em uma assembléia em Cuiabá, 1982, fui ameaçado por um ex militar que queria falar no meio da missa para defender a atuação do governo militar  junto aos índios (atuação condenada e denunciada por nós). 

Hoje o CIMI é outro e os tempos são mais calmos. Mas, o importante é retomar aquele modelo de Igreja e de missão tão diferentes do que vejo em meu redor. Lembro-me ainda do Pedro Casaldáliga dizendo: O Verbo divino se fez homem em Nazaré na oficina de José. E se faz índio na realidade de hoje.

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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