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Conversa, sexta-feira, 07 de outubro 2016

Hoje, minha querida irmã Agostinha Vieira de Mello, monja beneditina e amiga de mais de 50 anos de amizade, faria 90 anos de idade. Ela partiu um mês antes do seu aniversário (01 de setembro).

Lembro-me dela me dizendo: "Vamos festejar o nosso jubileu de ouro de amizade". E agora ela o está celebrando no céu. E, na terra, eu me sinto mais sozinho e como que mais pobre e desprotegido... Celebrarei por ela nesse próximo domingo a ceia de Jesus ligando a sua Páscoa à Páscoa de Jesus. Mas, desde já, nesse dia do seu aniversário, lhe ofereço como presente um compromisso de ser como ela: sempre fiel e atento às amizades.

Lembro-me de alguém de toda a confiança que foi a ela e começou a falar mal (dizer coisas graves) de um amigo comum... Assim que conseguiu, ela interrompeu a pessoa simples e sofridamente afirmando: "Mas, ele é meu amigo e eu gosto dele". Só isso e a pessoa continuava a falar mal do outro, coisas que poderiam ser verdadeiras (não sei), mas no final da conversa, Agostinha concluiu:

- Digamos que tudo isso seja verdade. De todo modo, ele é meu amigo. E agora, você estaria disposta a escutar o que eu tenho para falar bem dele?

A pessoa desconversou e mudou de assunto...

Em memória de minha amiga, quero repartir com vocês apenas dois poemas que ela fez. O primeiro que fala dela e o segundo que ela fez para mim quando completei 70 anos.

O primeiro ela escreveu há quase 10 anos: 

A BENGALA E OS SONHOS

Tanto tempo usei e gastei minhas cartilagens

que hoje preciso usar bengala.

O uso não me encabula nem abala

ao contrário, embala a insegurança dos meus passos.

E mais: me sinto um pouco Carlito.

O que me deixa alumbrada

e todinha atiçada.

Vou indo com mil fantasias:

de criança, de palhaça, de ingênua, de esperta,

de humorista, de dramática, de trapezista,

de florista vidente,

de revolucionária, de sonhadora,

de crítica dos tempos modernos (e antigos)

acendedora de luzes da ribalta ...

Não sei fazer as piruetas que ele fazia

mas vou percebendo com mais fineza

os malabarismos do poder e do não poder.

Me sinto Chaplin, Carlita,

repentista,  pra lá de artista.... 

Cada vez que apoio minha bengala no chão

ouço o finzinho daquela canção :

“... e o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão!...”      

Agostinha 30.01.2007

O segundo, tenho quase vergonha de mostrar, se chama:

Meu presente

(para Marcelo)

O que eu queria mesmo te dar

era um arco-íris

nas cachoeiras,

quando bate o sol,

aparece arco-íris.

Que bonito que é! Oxumaré!


Setenta vezes sete cores

De muitas, muitas boas alianças

Te visitem.

Te envolva uma embriaguez de consolações

feita da Paz que beija a justiça,

da justiça que ama as aberturas

de aberturas para além dos mandamentos.


Que os teus diálogos

te molhem no eco do fluxo e do refluxo

das águas da vida.

Que as tuas indignações

virem asas brancas sem fel!

Desça sobre ti o arco-íris do afago

na noite do teu bem. Amém.

 

Pelos teus sessenta, agora retomado nos teus setenta,

Pelos nossos mais de 45 anos de amizade

Te quero conosco.

Tua irmã-amiga Agostinha

Goiás, 27 de novembro 2004.

Retomado em João Pessoa,  27 de novembro de 2014.


Agostinha, é festa no céu pelo teu aniversário. 

Parabéns e a Deus!

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

Informações

contato@marcelobarros.com