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Conversa, terça-feira, 16 de agosto 2016

Depois de um dia e meio de viagem, voltei de Montreal ao Recife. Depois de passar pelos aeroportos norte-americanos com toda a sua estratégia de guerra ao terror e sua violência contra os migrantes pobres (os ricos sempre podem chegar), é sempre melhor voltar para casa, mesmo em meio a esse ambiente de golpe e à falta de perspectivas que os movimentos sociais vivem nesses dias difíceis. Nesse contexto, é bom lembrar que tivemos ante-ontem um aniversário importante: o comandante Fidel Castro completou 90 anos. 

Em Havana, cinco mil pessoas se reuniram para homenageá-lo e agradecer a ele o testemunho de uma vida consagrada à liberdade da humanidade. Sei que é difícil para quem só recebe notícias através das agências internacionais norte-americanas e europeias, pensar positivamente a respeito de Cuba e do processo de resistência desse país que, a 80 km de Miami, conseguiu por mais de 50 anos manter-se livre e com um sistema social contrário ao dogma do mercado e à desumanidade da desigualdade social. 

Conheci o comandante Fidel no começo dos anos 2000, junto com o patriarca Bartolomeu de Constantinopla que visitava Cuba e inaugurava ali o primeiro templo de uma Igreja ortodoxa no país. 

Por acaso, estava em Cuba para uma reunião ecumênica e fui escolhido para acompanhar o patriarca em um de seus encontros com Fidel. Pude ver o amor do povo simples das ruas ao seu líder e a vitalidade desse homem que já idoso (naquela época, perto dos oitenta), parecia ter 60. 

A primeira vez que fui a Cuba nos anos 80 foi para dar um curso de Bíblia a pessoas do Comitê Central do Partido Comunista que queriam compreender como, na América Latina, nós lemos a Bíblia a partir da realidade da vida dos povos oprimidos. Fiz esse curso para umas 40 pessoas de Havana em quatro etapas e até hoje tenho amigos que foram desse grupo e me acolhem quando, por alguma outra razão, passo por lá. Nunca tive com Fidel a proximidade de amizade que tem meu amigo Betto (frei Betto), mas me lembro de ter conversado sobre ele com Dom Pedro Casaldáliga quando esse, vindo da Nicarágua, passou quase uma semana em Cuba em encontros com teólogos católicos e evangélicos. Pedro me fazia ver que podemos estar de acordo ou não com todos os aspectos do governo cubano ou com a ideia de luta armada que Fidel e seus companheiros assumiram para libertar o seu povo. Mas, em todos esses anos, o governo e o povo cubano têm nos dado impressionantes lições de solidariedade internacional  a povos da África e aos nossos povos latino-americanos. Naquele momento, nem imaginávamos que um dia o Brasil receberia 14000 médicos cubanos. Nos lugares do interior, onde médicos brasileiros não se propõem a viver e a atuar, esses médicos salvam a vida dos pobres do nosso povo.Obrigado, irmão e comandante Fidel. Deus o proteja e o conduza sempre. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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