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É preciso libertar a ceia de Jesus

É urgente libertar a Ceia de Jesus

Ontem à noite tive um encontro para cristãos/ãs de uma comunidade do interior da região do Veneto (norte da Itália) sobre profecia bíblica e a política libertadora. As pessoas queriam compreender melhor a profecia do papa Francisco e ligá-la com a memória de Dom Helder Camara, que alguns mais velhos tinham alguma vez encontrado. Hospedaram-me em uma pousada que é tipo hotel Fazenda. Acordo muito cedo pela manhã. Vou ao computador e encontro esse desabafo do meu amigo Luiz Alberto Gomez de Souza: 

                       Uma Igreja rotineira que resiste ao chamado de Francisco.

A querida amiga Inês Ferreira postou a seguinte mensagem: “Ontem fui à missa e não houve uma mísera menção à crise desses últimos dias, uma prece sequer. Como acreditar nesses religiosos? Como falam sobre a Trindade,  comunidade de amor, e são incapazes de trazer à tona o sofrimento de sua comunidade, de seu povo? A missa e o Evangelho, quando se tornam uma abstração , não podem mesmo chegar ao coração dos fieis.”

Acrescentei meu comentário: “Nas missas de domingo em tantas paróquias do país, em boa parte, os padres fazem sermões vazios. Para eles, não há crise nem Francisco. A fila da comunhão é tão automática como a de pôr dinheiro no ofertório. O abraço da paz fica falso, sinal protocolar de boa educação. Na sua maioria, o público tem idade maior do que 50 anos. Que jovens dinâmicos e críticos seriam atraídos por esses rituais ocos? E a pastoral mais importante é a do dízimo... Cumpre-se mecanicamente o preceito exigido pelo código canônico. Formalmente válido, na realidade faz lembrar os "sepulcros caiados". Rito estereotipado, difícil chamar de celebração da comunhão. Onde fica o chamado de Jesus à misericórdia e ao Amor? E depois se queixam da multiplicação de pequenas comunidades pentecostais onde as pessoas são chamadas pelos nomes e se sentem acolhidas...

 Que interpelação forte na manhã dessa 5a feira que a Igreja Católica consagra à festa do Corpo e Sangue de Jesus. Claro que é uma celebração criada na Idade Média (século XIII na Bélgica) para divulgar o culto à Eucaristia e confirmar o dogma da presença real de Jesus no pão e no vinho, respondendo assim a hereges e pessoas que duvidavam da presença real. 

 Com o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica parecia aceitar que o ambiente e cultura de Cristandade (religião dominante na sociedade) tivesse de fato acabado e pudéssemos passar de um Cristianismo mais apenas cultual para uma fé mais profética e principalmente ética. Em alguns aspectos, alguma coisa mudou. Mas, no que diz respeito à sensibilidade da maioria dos padres e bispos, assim como de muitos grupos tradicionais de leigos católicos, parece que ainda estamos no século XIV. O importante é a afirmação dogmática da presença real e a Igreja voltada para si mesma. Nessa festa, além da missa, paróquias e dioceses fazem procissões com o Santíssimo Sacramento ou em alguns lugares concentrações em estádios e celebrações de massa. 

Reações como de Inês e Luiz Alberto tocam na falta de relação entre a celebração e a profecia social e política, missão essencial da Igreja e fundamento da própria eucaristia, como ceia de partilha e de comunhão que deveria ir além do sectarismo eclesiástico dos fiéis que formam o grupo que celebra. Cada vez mais, um maior número de cristãos e não cristãos se perguntam que relação existe entre o ritual atual da missa e a ceia que, segundo a tradição das primeiras Igrejas, Jesus fez com seus discípulos e discípulas. Tenho a impressão de que a luta que há 500 anos, Lutero e os/as reformadores/as fizeram para retomar que a salvação de Deus é vivida pela fé e não por sacramentos que os padres controlam e só eles podem dar, continua hoje de formas diversas e com matizes próprios. Será que não aprisionamos o gesto amoroso e de doação de Jesus como em uma gaiola na qual nós mesmos (falo nós, padres e nós fieis) estamos presos, prendemos a Deus e não conseguimos ligar mais a profecia da partilha e da entrega eucarística da vida a uma profecia política de uma sociedade na qual a partilha seja a base das relações e a forma de viver em comum? (uma vida eucarística para além do gesto sacramental e religioso para uma proposta social e política que Jesus não inventou. Só revelou que a humanidade é capaz disso e será feliz se fizer).   

Desculpem essa comparação inadequada, mas ela me vem à mente e partilho com vocês. Quem gosta de cinema clássico, provavelmente lembra do "O discreto charme da burguesia", filme de Louis Bunuel (1972). Trata-se de um grupo de pessoas da classe média francesa que, durante todo o filme, tenta se colocar à mesa e jantar e sempre ocorrem problemas de última hora que impedem as pessoas de começarem a ceia. Essa parábola da frustração provocada pela cultura burguesa poderia, ao menos em parte, nos lembrar o que parece ocorrer nas nossas Igrejas com a eucaristia. Nós vamos à eucaristia com fome de Deus e esperamos que a celebração nos alimente. O que vemos é um ritual complicado (mesmo quando belo) que não é focado e centrado na partilha e na profecia de uma comunhão de vida. E saímos como se não tivéssemos sido alimentados. Como explicar que "Pão em todas as mesas" não pode significar apenas "hóstias em todos os altares"?

Na Itália, Paolo Ricca, teólogo e pastor valdense, denuncia o que ele chama de "apatheid eucarístico" nas Igrejas. Assim como o apartheid racista, também as Igrejas criaram um regime de restrição. Determinaram uma lista de pessoas que não podem ter acesso à comunhão, ao contrário de Jesus que foi criticado pelos adversários, justamente porque "comia com pecadores e com gente de má vida".Esse apartheid eucarístico que proíbe divorciados e pessoas consideradas de vida irregular de comungarem, proíbe também evangélicos de comungarem na missa católica, católicos de comungarem na eucaristia ortodoxa e acabam por praticar um ritual que exclui muitos jovens e muitas pessoas da graça de participarem da ceia de Jesus. 

Em 1966, em uma festa como hoje, Dom Helder Camara confessava sua tristeza ao constatar que as mesmas pessoas que adoravam Jesus na hóstia e se ajoelhavam quando a procissão com o Santíssimo passava pelas ruas pareciam indiferentes ao corpo de Cristo jogado nas sarjetas e abandonado nas calçadas de nossas cidades. 

Que, ao menos a nós, a você e a mim, essa celebração da festa de hoje nos dê mais coragem e sensação de urgência em relação a essa tarefa de libertar o sinal eucarístico do amor de Jesus da gaiola na qual está aprisionado.  

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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