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Encontrar o Ressuscitado para além dos nossos medos

   Este segundo domingo da Páscoa tinha antigamente o nome de "Domingo in albis", por causa de um costume do tempo em que a Igreja batizava mais adultos do que crianças. Durante a semana pascal, em todos os atos da comunidade, as pessoas adultas que eram batizadas na noite da Páscoa vestiam as roupas brancas com que tinham se batizado. Nesse domingo depunham as vestes brancas. E assumiam a condição de cristãos já plenamente inseridos na comunidade. 

Lembro esse costume antigo porque essa norma litúrgica antiga que, à primeira vista, parece tão sem sentido atualmente, me parece ligada ao que o evangelho conta com Tomé. Ele também vivia como "vestido de branco". Vivia uma fé meio de neófito, uma fé somente de Aleluia. Acreditava no Jesus glorificado, mas não aquele pregado na cruz.... Os outros estavam presos ao que tinha ocorrido. Tinham medo, por isso ficavam em uma sala com portas fechadas.... Mas, ficavam juntos. Ele, não. A fé dele era individualista, era eu e Deus... E não previa cruz, chagas. (Só se eu tocar nas chagas dele, vou crer que isso é assim, é real). 

Alguns acham que o apelido de Tomé (Dídimo, ou seja Gêmeo) é para dizer que ele é Gêmeo - de todos nós. Dos cristãos que não viram o Cristo ressuscitado e têm dificuldade de ver o Ressuscitado para além dos nossos medos. O evangelho conta que Jesus veio oito dias depois. Esse oitavo dia é como o dia que completa os sete da criação. É a plenitude. É o dia da nossa ressurreição com Jesus. 

Jesus se deixa ver e se deixa tocar... Ao se mostrar aos discípulos, mesmo com portas fechadas, não mostra nenhuma luz especial, não fala de vitória nenhuma, não voa, nem parece ter nada de especial... Mostra as chagas e quando a gente tem coragem de mostrar as feridas (interiores e sociais) que temos, parece que a vida pode se recompor ou melhor ressuscitar - se torna nova...

     Jesus ressuscitado ressuscita os discípulos fazendo-lhes passar do medo à liberdade, à paz e à alegria... ao perdão. Ele nos convida, hoje, para essa ação de misericórdia: reconstruir as nossas vidas através do perdão a nós mesmos e do perdão aos outros. Às vezes, sofremos porque temos dificuldade de perdoar a nós mesmos/as. Não conseguimos deixar o que passou para trás e olhar para frente com amor e alegria interior. Só Jesus ressuscitado pode realizar essa reconstrução de nossa vida... É verdade que, pela nossa ação de misericórdia (solidariedade afetuosa ou seja vivida com o coração - como dizia Santo Agostinho: misericórdia vem do latim: miser cor dare: dar o coração a quem precisa). Não se trata de uma atitude de comiseração ou de pena. É de comunhão que nos impulsiona para frente e é vivida a partir de uma visão de vida nova e inserida. Assumir as feridas uns dos outros e caminhar juntos. Aí vamos ressuscitando.... no dia a dia.... 

Que Deus nos ajude a passarmos de um Cristianismo meio espiritualista e desligado das dores do cotidiano para uma espiritualidade pascal. Muitas vezes, na Igreja,  as pessoas ainda parecem sem corpo ou com o corpo só da cintura para cima - É preciso passarmos para uma fé de corpo inteiro, uma fé que assume todas as feridas interiores e humanas e assim ressuscita com Jesus. Invoquemos o Espírito Santo - sopremos uns sobre os outros e outras, como Jesus fez sobre os discípulos - ao soprar, refez o gesto que Deus fez com a primeira humanidade terrena ou terráquea (Adão) e assim nos dá não mais apenas essa vida orgânica que integra a dimensão vegetal e animal (e precisa integrar), mas também a vida nova do Espírito dele ressuscitado que recebemos para viver...

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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