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Entrevista à revista "Cidade Nova" do movimento Folcolarino

Entrevista para a revista "Cidade Nova"

(Entrevista dada ao jornalista Daniel Fassa Evangelista)

1- Você trabalha há anos com o diálogo inter-religioso. Poderia contar algumas experiências que vivenciou ou pode conhecer no Brasil ao longo desse tempo, especialmente com judeus e muçulmanos?

Desde jovem, me sinto chamado por Deus para orar e trabalhar pela unidade das Igrejas cristãs e também pelo diálogo e maior comunhão entre as religiões a serviço da paz, justiça e ecologia. Como sou nordestino e aqui no Nordeste, as outras religiões são mais afro-descendentes (Candomblé e Umbanda) e nos últimos tempos, religiões de matriz oriental, é com estas que tenho me comunicado mais. Entretanto, várias vezes, participei de encontro judaico-cristão em São Paulo e tenho até um livro sobre o evangelho de Mateus, comentado a partir do macro-ecumenismo, livro que dediquei a dois rabinos. (Ver "Conversando com Mateus", Ed. Paulus, 1996). Também tenho boa amizade com alguns cheiks sufis e os encontro sempre cada ano na época de Carnaval, quando participo do "Encontro da Nova Consciência" que se faz sempre em Campina Grande, PB, e reúne crentes das mais diversas tradições espirituais. 

2- No último artigo publicado em seu blog, você faz uma ponte entre as visitas de JP II e Bento XVI a Assisi e sua importância para o diálogo inter-religioso. Poderia comentar um pouco mais sobre o nível de evolução em que estamos atualmente na construção desse diálogo inter-religioso, seja em nível nacional como no nível internacional?

Sem dúvida, nas últimas décadas, cresceu no mundo a consciência de que o diálogo e a colaboração entre as religiões é fundamental para a paz do mundo e para que todos juntos possamos trabalhar pela justiça eco-social e pela defesa da natureza ameaçada. O teólogo Hans Kung tem razão ao escrever: "O mundo não terá paz, se as religiões não dialogarem e estas não dialogarão se as Igrejas não se colocarem nesse caminho da unidade!" Nos últimos anos, têm surgido muitas organizações mundiais que promovem o diálogo inter-religioso: Parlamento das Religiões para a Paz, Conferência Mundial das Religiões para a Paz, Iniciativa das Religiões Unidas (URI) e assim por diante. Essa consciência é de certo modo nova e é um grande passo na construção de uma sociedade mais unida. Por outro lado, as religiões sentem certo clima de crise estrutural (o mundo hoje é menos religioso e as pessoas não dependem mais das religiões) e tendem a se defender desenvolvendo seu lado mais tradicionalista, fundamentalista e fechado. Isso dificulta o ecumenismo e o diálogo entre as religioes, além de ser um testemunho anti-espiritual. Esses grupos estão defendendo os seus interesses corporativistas e não o projeto divino no mundo. Quanto ao Brasil, as duas coisas são verdadeiras. Tem crescido uma consciência social de que o diálogo e a colaboração entre as religiões é fundamental. Ao mesmo tempo, tanto nas Igrejas, como em outras religiões, tem crescido movimentos fundamentalistas e um tipo de espiritualidade voltada para a própria Igreja e não para o mundo e a vida. Nos últimos anos no Brasil, uma das iniciativas ecumênicas mais importantes tem sido de cinco em cinco anos, desde o ano 2000, a CNBB (conferência dos bispos católicos) se integra com o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas) para promoverem e coordenarem a Campanha da Fraternidade Ecumênica. Já houve três (em 2000, 2005 e 2010) e foi uma maravilha. Ainda não é uma iniciativa inter-religiosa, mas, pelo próprio espírito que desenvolve, já ajuda muito essa abertura ecumênica e inter-religiosa. 

3- Quais os elementos-chave do cristianismo para a promoção de uma cultura de paz? De que modo você acha que eles dialogam com as culturas muçulmana e judaica, entre outras?

Jesus Cristo anunciou e trouxe para nós o reinado divino, o projeto de Deus para o mundo, a proposta de uma sociedade de paz e justiça. Não fundou em si uma religião. Começou um movimento profético que se organizou como Igrejas, desde o começo, diversas e unidas na fé, mas com algumas tensões e diferenças, já desde o tempo do Novo Testamento. Essa abertura inicial faz com que as Igrejas cristãs possam se ver como instrumentos e sinais do reino de Deus e não como metas em si mesmas. Quando as religiões se vêem a si mesmas como objetivo último e metas, aí elas se absolutizam e impedem o diálogo e a comunhão com as outras. Nos evangelhos, Jesus sempre ressalta e com muito respeito a fé do outro, seja a fé do centurião romano, seja a da mulher cananéia, seja a dos samaritanos. Essa espiritualidade que busca ver a presença de Deus no outro é fundamental no diálogo. Com o Judaísmo, os cristãos têm redescoberto as raízes judaicas da fé cristã, têm contemplado a Jesus como verdadeiro judeu e Paulo como alguém que viveu sempre até morrer sua fé judaica e em relação com o Judaísmo, mesmo com muitas críticas. A Bíblia é o único livro sagrado que é comum a duas religiões. Isso nos une muito. Quanto ao Islã, a fé no Deus único e que é misericórdia nos une, assim como o fato dos islamitas reverenciarem a Jesus como profeta de Deus. Hoje, os novos estudos e pesquisas sobre a Cristologia nos fazem perceber que a doutrina cristológica tradicional da Igreja veio mais dos primeiros concílios do que do Novo Testamento e estes foram dominados pelo Império Romano e expressos em linguagem cultural do império. É urgente principalmente para nossas igrejas latino-americanas, africanas e asiáticas, o direito de desocidentalizar a linguagem da nossa fé e isso nos ajudará muito na relação com as outras religiões. 

4- Você acredita que as experiências de diálogo inter-religioso feitas em países com uma vocação mais cosmopolita como o Brasil podem servir de exemplo e inspiração ao diálogo em realidades complexas como o conflito árabe-israelense? 

Penso que isso não deve ser dito por um brasileiro como eu e sim por alguém envolvido naquele mundo. Se eu digo isso estou me colocando como exemplo. Penso sim que, no Brasil, temos a vocação de nos abrir muito mais, de superar a cultura de cristandade, na qual as religiões podiam existir, mas o Brasil era católico e os católicos é que dominavam. Ainda hoje, vários feriados nacionais são católicos. A forma como, em alguns lugares, documentos civis e oficiais são expressos ainda se referem à linguagem católica. Mas, temos de caminhar. Nas escolas, o ensino religioso ecumênico continua um desafio, principalmente para os adeptos de outras religiões. Mas, nas universidades, cada vez mais cresce o número de cursos de pós-graduação em Ciências da Religião, estudo leigo e não denominacional. Isso ajuda. 

5- Qual o peso das religiões no contexto da chamada "Primavera Árabe", que parece ter raízes predominantemente socio-econômicas e políticas e ser fortemente impulsionado pela mobilização popular? De que modo as grandes religiões, que têm grande influência na formação dessas pessoas, podem contribuir para a construção da paz, da fraternidade e da democracia naquela realidade?

 De um lado, as grandes religiões monoteístas todas dão um lugar central à justiça e a paz baseada nos direitos humanos. Isso certamente cria uma cultura que está presente no sub-consciente da juventude que começou a chamada primavera árabe, assim como as manifestações de "indignados" na Espanha e outros lugares do mundo. Por outro lado, as religiões estiveram ausentes das manifestações. Isso é bom para que o movimento seja laical e autônomo e por outro lado, é lamentável porque revela uma omissão dos ministros e servidores religiosos. Neste começo de ano, Deus esteve mais nas praças e caminhadas de rua da juventude sem religião do que com os fiéis nos cultos de domingo, sábado ou sexta-feira. Quanto ao que ocorreu na Líbia, nada tem a ver com primavera árabe. Foi uma invasão das potências ocidentais da OTAM. Como não podiam amaciar Kadafi que tinha nacionalizado minas de petróleo e expulsado do país muitas empresas internacionais, a FRança, Inglaterra e EUA criaram o mito do ditador, invadiram o país, destruíram sua estrutura interna, colocaram o povo contra seus governantes e agora terão mais um terreiro para explorar, como fizeram antes com o Iraque e o Afeganistão. Também aí as Igrejas e religiões se omitiram em não denunciar essa mentira dos meios de comunicação e permitir o massacre que está ocorrendo lá. 

6- É possível estabelecer na região sistemas políticos capazes de garantir não somente a liberdade religiosa, mas também o exercício da cidadania por parte de toda a população, independentemente da confissão religiosa?

Deve ser. No Brasil, ainda se discute um documento de acordo entre o Vaticano e o governo brasileiro que levanta protestos de outras Igrejas e religiões contra o favoritismo que o documento garante para a Igreja Católica. Em países como a Bolívia, o Equador e a Venezuela, as Constituições nacionais dizem que esses países são pluri-étnicos e leigos. No Brasil, temos de caminhar para esse reconhecimento da pluralidade e da laicidade do Estado. Isso favorece a própria liberdade da fé e favorece o diálogo com crentes de outras tradições e com o sempre maior número de pessoas que não têm religião, mas estão conosco na mesma busca da paz, justiça e defesa da natureza.

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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