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Jesus: abaixo a meritocracia!

Jesus: abaixo a meritocracia!

    Essa parábola de Jesus que ouvimos no evangelho desse 30º domingo do ano C (Lucas 18, 9 - 14) é surpreendente e incômoda para qualquer religião do mundo. Como no domingo passado, Jesus continua a falar da oração. Antes, ensinou que é preciso orar sem desanimar. A perspectiva era a atitude interior de quem ora. Agora fala de qual tipo de oração que agrada a Deus. Como método para mostrar a atitude correta diante de Deus, o evangelho de Lucas continua fazendo o que fez em outras parábolas: comparar duas atitudes humanas opostas. Já vimos isso na parábola do pai misericordioso e os seus dois filhos (15, 12 ss). Vimos isso na história de um homem rico e do pobre Lázaro (16, 19- 31). E no domingo passado, o contraponto entre um juiz indiferente à justiça e uma viúva pobre e indefesa. Agora, os dois protagonistas são um homem religioso e observante do grupo dos fariseus e, do outro lado, um publicano, cobrador de impostos para o império opressor, colaborador dos romanos e que vivia transgredindo os preceitos da lei, além de ser considerado desonesto. 

Na época das comunidades dos evangelhos, os fariseus eram os chefes das sinagogas e eram considerados o que seu nome indica: separado dos outros e santo. A oração que, conforme a parábola, o fariseu faz está de acordo com a tradição judaica: é a beraká, oração que consiste em bendizer a Deus e agradecer. Esse modelo de oração pode ser encontrada em salmos como o Sl 17, 3- 4; 18, 21- 25 e 26, 3- 12). No tratado das bênçãos do Talmud, encontramos várias orações semelhantes a essa do fariseu. São orações belas e profundas. Muito religiosas. De acordo com a tradição bíblica, a pessoa costuma orar de pé e de cabeça levantada. É o sinal da aliança. Tem com Deus uma intimidade que o faz relacionar-se assim com a divindade. O próprio Jesus, de acordo com os evangelhos, algumas vezes orou desse modo. Por exemplo, depois da volta dos discípulos em missão (Lc 10, 21- 14). De acordo com o evangelho de João, a chamada oração “sacerdotal” de Jesus (Jo 17) também é neste estilo. 

Então, fica claro que Jesus não poderia condenar esse modo de orar que a própria Bíblia nos salmos e na tradição ensina. Portanto, não se trata do estilo ou do conteúdo da oração do fariseu que acarreta problema. O que Jesus critica é o espírito com o qual o homem ora. A atitude interior que está por trás das palavras. O fariseu não está mentindo. Ele é mesmo diferente dos outros homens e tem toda razão de dizer que é fiel e justo. É como o filho mais velho da parábola dos dois filhos em Lc 15. O que Jesus não aceita é a meritocracia na relação com Deus. O estilo de intimidade, de liberdade e dar graças é ótimo. O problema é que esse religioso tem uma relação com Deus baseada em seus méritos. A relação é autocentrada (eu não sou como os outros. Eu faço isso e faço aquilo). É incrível como nos evangelhos, Jesus é um profeta contra a meritocracia, o que na Igreja de hoje se chama clericalismo. E no caso dessa parábola nem é o clericalismo dos padres ou bispos. O fariseu não era sacerdote. Era leigo, mas um leigo cujo próprio nome (fariseu) significava separado (eu não sou como os outros). 

Ao contrário, o publicano é um cobrador de impostos, odiado pelos judeus por sua colaboração com o sistema romano e pecador por se relacionar com pagãos e por extorquir dinheiro dos pobres. Este não ousa entrar no templo. Ora de cabeça baixa, batendo no peito e dizendo somente: “Tem piedade de mim que sou pecador” (invocação que inicia o salmo 51).  Como o reino de Deus vem de graça e de preferência para os que precisam de perdão, o fariseu justificava-se a si mesmo e por isso não foi justificado por Deus (não precisava), enquanto o publicano saiu de sua oração perdoado e justificado. 

É provável que a conclusão da parábola oponha duas formas de viver a fé: o templo. Jesus começa a parábola dizendo: dois homens subiram ao templo para orar. E no final de suas orações, os dois voltam para as suas casas. Só que o publicano volta justificado, perdoado, reconciliado com Deus e o outro não. Será que na comunidade de Lucas havia esses dois tipos de cristãos: o que vão ao templo para orar? (Não se trata do Judaísmo porque nos anos 80, o templo tinha sido destruído). Até hoje, existe um modo de viver a fé que depende do templo e um modo que se dá em casa. A pessoa cuja oração agrada a Deus volta do templo para casa. 

Há quem interprete essa parábola pelo lado psicológico. Como se Deus gostasse de ver a gente cheio de sentimento de culpa. Não é isso e não devemos levar a parábola por esse lado. Nada dessa Igreja que convencia todo mundo que o problema maior era o pecado e a religião era penitência. Não é esse o evangelho de Jesus. A parábola não foi contada para dizer que todo mundo tem de se sentir pecador. Todo mundo tem de se sentir igual aos outros e se relacionar com Deus de graça e pela graça de Deus e não pelos méritos da gente. O objetivo da parábola é realçar a igualdade de todos diante de Deus e salientar a graça em perdoar e querer bem a todos. 

Quando eu era criança, vigorava na piedade católica o costume das nove primeiras sextas-feiras de cada mês. Quem se confessasse e comungasse durante nove primeiras sextas-feiras de cada mês já tinha o céu garantido. Isso teria sido uma promessa de Jesus em uma aparição a uma santa. Não se percebia que esse tipo de compra dos direitos do céu nada tem a ver com o evangelho de Jesus.  

A linguagem que Jesus usa quando fala em justificação é como uma parábola. Quanto à questão da exaltação e da humildade, talvez a religião seja, na história da humanidade a virtude que mais tem gerado uma espécie de consciência de superioridade em relação aos outros. Por isso, a espiritualidade evangélica propõe como caminho a humildade. Não a humilhação. A humildade vem do termo húmus e significa a pessoa ter os pés na terra, assumir sua verdade, não querer ser o que não é. Assumir sua realidade de criatura frágil e carente. Exatamente para crescer e viver a alegria de amar e ser amado. Vejam que, no texto de Lucas, o episódio a seguir fala de crianças e pequeninos. 

Na sociedade atual, a meritocracia é um dos fatores que mais reforça as desigualdades sociais. Na religião ela abole a relação com Deus como Amor. Só o Amor e a misericórdia como princípio de vida nos salvam. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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