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Jesus, o leproso e a religião

-                            No mundo antigo, a figura de uma pessoa com lepra era a imagem de alguém amaldiçoado por Deus e pelos homens. O leproso provocava medo, tanto porque a lepra era considerada muito contagiosa, como porque era considerada impura pela religião. Quem tocasse em uma pessoa leprosa era tido como impuro e em situação de pecado (cf. Lv 13). Por isso, o leproso que se aproxima de Jesus nem fala em ser curado. (a lepra era considerada incurável). Ele diz: “por favor, se quiseres, me purifica”. Isso significa me reconcilia com a lei religiosa, me torna capaz de frequentar o templo.... E Marcos diz que o homem diz a Jesus: se tu queres, podes purificar-me, isso é, podes me tornar puro diante da lei. Na realidade, se o homem disse isso, estava dizendo que Jesus tinha o poder que os sacerdotes do templo tinham, só que de graça, sem precisar de oferecer sacrifícios, nem pagar taxa aos sacerdotes. E Jesus responde ao homem: Quero. E imediatamente a lepra, a doença contagiosa e incurável o deixou. O homem fica encantado com a cura, é claro, e quer divulgá-la. A Jesus, isso não interessa. Ao contrário, era perigoso. Ia colocá-lo em risco de vida. Ele fez de graça uma coisa que os sacerdotes se reservavam a si e ainda para provocá-los, mandou o homem ao tempo e pagar a taxa mas já curado e para mostrar que não precisava mais deles religiosos que mantinham esse sistema de dividir as pessoas em puras e impuras. 

                  Marcos conta esse episódio se  inspirando nos relatos bíblicos das curas de leprosos feitas por profetas como Eliseu que curou o sírio  Naaman (Cf. 2 Re 5). Ali também, o profeta cura um estrangeiro que adorava outro Deus e de graça. Mas, no caso de Jesus, a história é diferente. Enquanto na história de Eliseu, o profeta manda o homem se banhar sete vezes no rio Jordão, no Evangelho, o diálogo é simples. O homem pede: “se queres, podes me purificar”. Jesus responde: “Sim, eu quero”. O evangelho diz que Jesus ficou comovido – o texto original grego diz: “comovido até as suas vísceras”, como Deus que tem um amor uterino que se toca e se comove diante do sofrimento do pobre e do doente. O texto diz que Jesus não somente falou com o leproso, (isso em si já era perigoso e proibido pela lei judaica) mas foi além disso: o tocou com a mão. Ao tocar no leproso, conforme a lei, Jesus fica impuro. (A lei ensina: “Quem toca em uma pessoa impura, fica impuro até a tarde” – Nm 19, 22 e Lv 22, 6).  Jesus age como se trocasse de lugar com  o leproso e assumisse a impureza legal e religiosa daquele homem que agora está purificado.

                 Ao tocar no leproso, Jesus realiza uma ação simbólica. Não no sentido de algo não real ou não histórico e sim de que o seu significado vai além da sua materialidade. É como quando, nos anos 60, nos Estados Unidos, o pastor Martin-Luther King se colocou de joelhos diante dos cachorros e canhões de água da polícia norte-americana, ou quando, em abril de 2000, na Bahia, um rapaz índio de 18 anos se colocou de joelhos diante dos militares que vinham dispersar uma marcha indígena na entrada da cidade de Porto Seguro onde iria ocorrer a celebração dos bispos pelos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil. São ações significativas que vão além do seu conteúdo  material.

                 Alguns manuscritos chegam a dizer que Jesus se sentiu cheio de raiva (o verbo usado é encolerizar-se). Cheio de raiva contra a religião que discrimina pessoas e separa puros e impuros. Ele enfrenta diretamente o sistema opressor que mantém essa cultura de marginalização e discriminação das pessoas em nome de Deus. Jesus enfrenta o sistema religioso baseado na lei de pureza cultual e legal. Os sacerdotes não queriam que o povo pudesse ser curado de graça e ainda mais, por um “cara” (Jesus) que não era sacerdote nem chefe da religião. Era um leigo. A forma como Jesus agia tornava inúteis os sacrifícios que o povo fazia no templo pagando para pedir a Deus a cura para suas doenças. Como os sacerdotes iriam sobreviver economicamente se uma pessoa qualquer como Jesus curasse sem passar pelo templo e sem fazer sacrifícios? Como ficaria a religião que é feita para isso?

                  É verdade que Jesus envia o homem ao templo para pagar a taxa pedida pela cura e para a sua inclusão na comunidade. Mas, manda o homem jã curado. Não precisa mais do sacrifício de purificação. Ao mandar o homem aos sacerdotes, Jesus está enfrentando diretamente o sistema sacerdotal. Por isso, diz ao homem: “Vai e paga a oferta prescrita, como testemunho contra eles”(1, 44). Isso quer dizer: “para mostrar a eles que a gente não precisa deles”. A missão do homem curado não era divulgar a notícia da cura e sim ajudar Jesus no seu confronto com o sistema sacerdotal. E a narrativa acaba dizendo que aquilo que a lei prescreve ao leproso, agora cai sobre Jesus que o tocou. É ele vai morar fora da comunidade. É uma alusão a Isaías: “Ele carregou sobre si os nossos males e assumiu para ele a nossa lepra (Cf. Is 53, 3- 5).

                   Infelizmente, as religiões continuam a se colocarem insensíveis à dor dos marginalizados e excluídos. Ao contrário, ainda pregam que Deus quer sacrifícios. Nesses dias, participei de uma missa na qual o celebrante depois de lembrar as palavras de Jesus na ceia, afirmou em voz alta: Agora concluímos o sacrifício. E ressaltou ainda: O sacrifício foi oferecido. E eu tive vontade de ir embora da Igreja. Não queria me ver como oferecendo sacrifício. O Deus no qual creio quer misericórdia e não sacrifício. Claro que aquilo não era culpa daquele padre e sim da teologia ainda vigente nas Igrejas que falam em sacrifício da missa. Mas, é essa visão que faz com que bispos católicos norte-americanos se posicionassem pelo candidato Trump e não pelos democratas porque Trump é contra o aborto e a união gay. No Brasil, também homens como Dória e Marcelo Crivella contaram com apoio de bispos católicos porque são a favor da moral tradicional católica. Quem sabe, em nome de Deus, votarão em Bolsonaro nas próximas eleições. O pobre Jesus deve estar gritando: Por favor, me arranjem inimigos que esses amigos eu já não suporto mais. 

                      Atualmente, o papa Francisco não consegue que as Igrejas cristãs todas se coloquem a favor dos migrantes e refugiados do mundo, tratados como se fossem lixo. Imaginem se todas as religiões se posicionassem juntas e contrarias a essa iniquidade que o mundo assiste. 

                   Nesse evangelho, é estranho que Jesus advirta severamente o homem curado e o mande embora. Jesus manda o homem curado ir aos sacerdotes para mostrar a cura e assim poder ser de novo admitido na comunidade da sinagoga. No evangelho de Marcos, ali é a primeira vez que Jesus pede a uma pessoa curada para guardar segredo. “Não conte a ninguém”. O homem não obedece.  O fato daquele homem sair dali espalhando o que Jesus fez por ele criou muitas dificuldades para Jesus. Não ajudou na sua missão. Ao contrário, dificultou. Jesus tinha motivos para pedir segredo. Seria bom que esses cristãos que colocam uma Bíblia na mão e saem de casa, seja como for, para pregar nas praças públicas, deveriam pensar - a missão é uma coisa mais profunda do que fazer propaganda de uma doutrina.

                     Penso que no Brasil de hoje, os partidos de esquerda e os movimentos sociais estão sendo vistos como esses impuros e pecadores perante a lei ilegal e injusta que tomou conta do Brasil. Hoje ainda, Jesus não consegue que muitos religiosos percebam que o sagrado é o ser humano e não o templo ou as leis religiosas. E hoje ainda Jesus cura os leprosos - os contaminados por essa impureza legal que é querer transformar o mundo e subverter esse mundo. Vamos hoje receber essa cura e vamos não nos mostrar aos sacerdotes, mas vamos em frente confirmados pela missao de mudar a vida, a política e o modo de viver a fé. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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