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Levante do povo e a ascensão de Jesus.

                  No Brasil, as Igrejas históricas celebram hoje a festa da ascensão de Jesus. Hoje, eu preferiria mais que a linguagem usada fosse "a descida de Deus na cruz de Jesus para a assumir e divinizar". A meditação dos textos bíblicos deve nos ajudar a ver a presença do Espírito em meio a nossos conflitos e lutas pessoais e sociais. 

Atualmente, um dos movimentos sociais e políticos mais significativos do Brasil é o "Levante Popular da Juventude" que organiza setores da juventude do campo e das periferias urbanas para que tenham um maior protagonismo nas lutas populares pela transformação do Brasil e do mundo. Nesse momento, no qual, em quase toda a América Latina, o Império norte-americano conseguiu derrubar governos mais progressistas e instalar no poder funcionários leais ao Imperialismo e contra o povo, aqui e ali se fala em levante. É uma reação justa do povo organizado a tantos desmandos dos que, ilegitimamente, ocupam o poder. 

Na Bíblia grega, o verbo egheiren   sempre foi traduzido por "levantar" e também por "ressuscitar". Assim, é o termo usado quando Jesus diz a um paralítico: "Levanta-te e anda"  e é o mesmo termo para afirmar: "Deus levantou Jesus do túmulo", ou "Jesus foi elevado ao céu". 

É claro que na vida comum, não nos espantamos quando escutamos alguém dizer: "Fulano subiu na vida",  ou mesmo: "ele se saiu por cima". Ninguém entende essas expressões como se se referisse a deslocamento espacial. Nesse caso,  subirsignifica uma ascensão social. 

Assim quando os evangelhos falam que Jesus subiu ao céu estão dizendo que Deus assumiu sua causa e divinizou sua missão como estabelecimento do projeto divino no mundo. Em um mundo no qual todo mundo quer subir, por solidariedade aos que estão por baixo, Jesus decidiu se colocar no último lugar. No lugar de subir, desceu. Aceitou ser marginal e assumiu as cruzes vergonhosas da crueldade humana. Por isso, Deus se manifestou nele e o divinizou para revelar o Amor e a energia divina do Espírito presente em todas as situações de cruz e de martírio das pessoas e dos povos. No texto do evangelho lido nesse domingo, relato escrito na primeira parte do século II e acrescentado ao evangelho de Marcos, Jesus ressuscitado se deixa ver pelos discípulos e discípulas reunidos. Censura-os severamente por não terem acreditado nas pessoas que o tinham visto vivo e os envia a testemunhar essa vida nova divina em nós e em toda a humanidade. Os discípulos que não haviam acreditado em que Deus tornou a cruz de Jesus uma vitória, agora devem anunciar pela sua vida que essa ação divina de dar futuro às lutas dos pobres e dos que o mundo condena continua em nós e conosco. Os sinais que acompanham o anúncio da ressurreição mudam em cada realidade. Hoje, não se trata mais de tomar veneno, ou pegar em serpentes venenosas e não sofrer mal, mas pode ser situações políticas que antes nos derrotavam e agora nos fazem lutar mais e melhor. Igrejas cristãs divididas aceitam testemunhar a sua unidade a serviço da humanidade. Os povos indígenas, crucificados pelo latifúndio e pelo agronegócio, resistem e ressuscitam. Mulheres se organizam e assumem o protagonismo justo na sua luta. Lula, prisioneiro político, mesmo protestando contra sua prisão injusta e sua condenação sem provas, resiste e se fortalece. E esses sinais sociais e políticos se completam com a confiança interior, depositada em cada crente: Deus assume nossas dores e nossas lutas. Mesmo se nos sentimos frágeis, o Espírito presente em nós nos conduz no caminho da conversão pessoal e do amor divino que somos chamados a viver e a testemunhar aos outros. 

Nesses dias, até o próximo domingo, somos convidados a orar pela unidade das Igrejas cristãs e a acolher em nós a presença do Espírito Divino que vem nos animar e nos renovar. É ele que nos faz poder dizer: o levante dos jovens é hoje sinal da ascensão de Jesus, o levante do povo é sinal de sua presença ressuscitada em nós e entre nós. Mesmo sem nenhuma conotação religiosa ou cristã, onde houver resistência e força de luta e para a libertação, o Espírito nos enlaça em seu amor e nos leva nessa ascensão divina do amor. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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