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Meditação bíblica, domingo, 09 de outubro 2016

O evangelho lido, nesse domingo, nas comunidades católicas, anglicanas e algumas evangélicas conta a cura das dez pessoas leprosas (Lc 17, 11 – 19). Lucas já tinha contado a parábola de um samaritano solidário que Jesus propõe como modelo de amor ao próximo  (10, 25 ss). Embora  o evangelho tenha dito que algumas aldeias de Samaria não tinham aceitado acolher Jesus em sua viagem para Jerusalém, agora conta que Jesus passa pela fronteira da Samaria e entra em uma aldeia que parece ser de samaritanos.  

Os Atos dos Apóstolos conta que várias aldeias de Samaria foram evangelizadas (At 8, 25). Isso significa uma abertura da comunidade de Lucas aos samaritanos. Talvez esse relato foi incluído para mostrar que essa abertura vem de Jesus. Há uma fonte antiga no Cristianismo de adesão de samaritanos ao evangelho. Basta ler as fontes do quarto evangelho (por exemplo, Jo 4 que conta o encontro de Jesus com uma mulher da Samaria na beira do poço de Sicar). A comunidade do terceiro evangelho releu essas fontes e as retrabalhou mostrando uma missão longa de Jesus com os samaritanos e durante sua peregrinação a Jerusalém. 

No caso dessa história dos dez leprosos há indícios da difícil relação das comunidades cristãs do tempo de Lucas com o sistema judaico dos chefes da sinagoga.

Conforme o relato, Jesus manda as pessoas leprosas se apresentarem aos sacerdotes, como era previsto na lei judaica. Acontece que, no caminho, os dez se sentem curados. Os nove que são judeus continuam a cumprir o combinado e vão ao templo. O samaritano que não pertence àquela religião de Jerusalém (o templo dele era no Monte Garizim) não se sentiu obrigado a ir e voltou para dar glória a Deus. Mas, os outros nove que foram ao templo também não foram para “dar glória a Deus”. Por que opor os que foram ao templo e o único que, por não pertencer ao Judaísmo, voltou do meio do caminho, assim que se sentiu curado?

 De acordo com a tradição, os nove foram ao templo para cumprir uma prescrição legal: ser reconhecidos como curados, poderem se reintegrar na vida normal da sociedade e não em si para dar glória a Deus. Então, de fato, há uma oposição entre um culto formal de qualquer religião que seja, quando é feito para a pessoa se sentir justificado e a atitude gratuita de dar glória a Deus. Nesse caso, o que significa, propriamente, “dar glória a Deus”?    

 O sentido mais comum de dar glória a Deus é agradecer e louvar a Deus, por exemplo, no caso do leproso, pela cura obtida. Entretanto, o termo tem um sentido mais profundo do que isso. Na tradição bíblica, glória (kabod hebraico ou doxa em grego) é o peso visível, a densidade de uma presença divina que as pessoas pressentem ou percebem. Por exemplo, na nuvem que descia sobre a tenda (a Shekiná) no deserto, ou o sinal de que ele escuta as orações no templo em que é invocado o seu nome. Então, dar glória a Deus não é apenas agradecer, mas é testemunhar que Deus esteve presente neste caso. Mostrar que a cura obtida é um sinal da presença visível e salvadora de Deus. Mas, naquele caso, o rapaz voltou para “dar glória a Deus”, através da relação com Jesus. Ele veio, diz o texto para agradecer a Jesus, mas também para, no reencontro com Jesus, dar glória a Deus, o Deus em nome do qual Jesus atua. Então, no sentido mais profundo, dez pessoas foram curadas, mas somente uma colocou essa cura no plano da salvação que é o da relação de quem recebe tudo de Deus.

- Hoje, ainda temos por aí Igrejas e grupos que se situam como “religiões de resultado imediato”. As pessoas querem ser curadas. O evangelho lembra que o mais importante é que essa cura nos conduza à relação de dar glória a Deus e de testemunho da ação de Jesus.

Ao comentar um salmo, Santo Agostinho (século IV) dizia: “Conheço muita gente que pede a Deus curas e favores, dons de todo o tipo, mas conheço poucos que pedem não apenas o dom, mas o próprio doador dos dons. E isso é o mais importante”. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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