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Meditação bíblica, domingo, 10 de abril 2016

Nesse 3° domingo da Páscoa  (do ano C), lemos nas Igrejas o evangelho que é a conclusão do evangelho de João (21, 1 - 19). 

A maioria dos exegetas concorda que o capítulo 21 desse evangelho foi acrescentado algum tempo depois que o evangelho já tinha sido concluído. Fechava no capítulo 20 com a aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos reunidos "oito dias depois" e a conversa com Tomé sobre a bem-aventurança de crer sem ver...

Ao se ler esse evangelho (chamado de João) se percebe que a estrutura da Igreja que o escreveu ou para a qual ele foi escrito não tinha uma organização de ministérios como as Igrejas dos evangelhos sinóticos. Em nenhum lugar aparece qualquer alusão a cargos na comunidade e nem serviços especiais. Nem existe nesse evangelho a palavra "apóstolo" (enviado). Todos são discípulos e discípulas. Provavelmente, o capítulo 21 foi acrescentado em uma época na qual a comunidade sentiu a necessidade de definir alguns serviços na comunidade. Nesse capítulo parece que há certa tensão entre Pedro e o discípulo amado. O episódio da pesca milagrosa que Lucas tinha colocado no começo da missão de Jesus (ele chama os discípulos - Lucas 5), esse evangelho agora coloca só depois da ressurreição como uma experiência dos discípulos com Jesus ressuscitado. Na Bíblia, a pesca é sempre usada como símbolo da missão. Um símbolo que hoje não seria bom. Por várias razões. A mais grave é que os pescadores tiram os peixes do mar e para comê-los. Como comparar isso com a missão de ajudar as pessoas a viver? De todo modo, é muito mais o simbolismo de juntar os peixes na rede... E aí sim a Igreja pode ser vista como uma rede que junta peixes diversos e que convivem na mesma rede.

Na pesca contada nesse evangelho, os discípulos que eram profissionais não pescam nada durante a noite. O rapaz desconhecido que aparece na margem do lado manda que eles joguem a rede à direita da barca. Mas, é pela manhã. É a pior hora para pescar. Se não pescaram nada à noite, não seria pela manhã que conseguiriam. Mas, eles conseguem e o evangelho detalha a quantidade de 153 grandes peixes e que a rede, apesar de tanto peixe, não se rompeu. É tudo simbólico.

Esse evangelho me faz refletir sobre a experiência de nossos fracassos - em todos os planos da vida - fracasso na missão, fracassos profissionais, fracassos no plano das relações, fracassos no projeto interior de vida.... E como preciso sempre de novo escutar a palavra de Jesus ressuscitado que me vem através do outro (da outra) para ter coragem de tentar de novo, lançar as redes à direita do barco e experienciar a novidade de um êxito que não vem de mim. Tenho de aprender a lidar com as noites escuras e infrutíferas de minha vida e aprender a reconhecer quando a madrugada já vem e é possível encontrar o Senhor (sempre através dos irmãos e irmãs mesmo desconhecidos) na margem do lago. 

Então, as redes se enchem. O verbo grego que usam para dizer que a rede não se rompeu (rasgou - dividiu) é o mesmo usado para dizer que no Calvário, os soldados não dividiram a túnica de Jesus. Desde a antiguidade, tanto a túnica, como a rede foram vistas como símbolo da Igreja e para dizer que a Igreja lida com a diversidade sem se dividir.

Na manhã, quando voltam da pesca veem peixe assado na brasa e o rapaz desconhecido que os convida para comer. E para eles esse rapaz desconhecido é a presença de Jesus ressuscitado que os reúne em torno da comida e do convívio... 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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