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Meditação bíblica, domingo, 11 de setembro 2016

Se há um texto no evangelho, com o qual as pessoas se encantam é com essa página do capítulo 15 de Lucas. Ele é até chamado de “evangelho da misericórdia” como se fosse um conjunto completo e autônomo. 

Ao transcrevê-la, a comunidade de Lucas se inspirou no capítulo 31 das profecias de Jeremias. Não chega a ser como um midrash ou um comentário narrativo do texto. Talvez alguém leia todo o capítulo 31 de Jeremias e nem perceba algum laço com esse texto, mas, de fato, estes oráculos de restauração da confiança e de consolação dos sobreviventes do reino do Norte depois da destruição da Samaria (722 a. C) ajudaram a comunidade a reorganizar as parábolas de misericórdia de Jesus. Não se trata de repetição de cenas, nem de reprodução de palavras, mas de um quadro de fundo que ajudou Lucas a compor a linguagem e o conteúdo dessas parábolas que vêm de Jesus mas receberam aqui uma moldura própria desse evangelho.

O contexto é o relacionamento de Jesus com pecadores e gente considerada de má vida. Jesus conta as parábolas como uma espécie de justificação de sua conduta ou explicação do modo de ser do Pai que ele, Jesus, segue.

 Na época de Jesus, a sociedade era muito desigual e os pobres eram muito marginalizados socialmente mas também pelas elites religiosas. A partir de certos textos bíblicos, algumas correntes do Judaísmo consideravam a pobreza como conseqüência do pecado e por isso associavam pobre a pecador. Assim, quando o evangelho fala em “pecadores e publicanos”, inclui os pobres e as pessoas que eram excluídas pela religião.

O capítulo 15 de Lucas inicia-se com uma acusação. A conduta de Jesus para com os marginalizados era inaceitável. Seus inimigos o acusam de ser comilão e beberrão, amigo de pecadores e publicanos. As refeições com os pecadores e publicamos, refeições que no contexto da Palestina significavam comunhão de vida, constituíam verdadeiros escândalos. Jesus justifica este comportamento escandaloso apenas dizendo: é este o amor de Deus! É isso que nos revelam as parábolas da graça de Deus. As três parábolas da graça contadas por Lucas no capítulo 15 são colocadas como resposta a essas críticas.

 Como de outras vezes, Lucas conta uma parábola masculina e outra feminina (como em 13, 19- 21). Isso é bom porque cuida da igualdade entre homem e mulher. Na primeira, o pastor que procura a ovelha perdida vem de uma imagem da Bíblia judaica. Jeremias havia prometido: “Aquele que dispersou Israel, o reunirá, o guardará como o pastor a seu rebanho” (Jr 31, 10). Outras profecias falam do pastor em busca da ovelha desgarrada (Ver, por exemplo, Ezequiel 34, 11- 16). Tem uma conotação política porque a figura do pastor era associada aos governantes. E, ao menos em Ezequiel, Deus diz que substituirá os pastores maus que não cuidam das ovelhas e ele mesmo será pastor (Cf. Ez 34, 10- 11). É preciso ver na figura do pastor a imagem de Deus porque talvez um pastor comum, se tem cem ovelhas, não se desgaste tanto atrás de uma que se perdeu. É preciso ter uma relação pessoal como os pastores têm com seus animais para que isso aconteça.

Nas duas primeiras parábolas, o verbo usado é heurikso, que significa algo que se encontrou depois de uma busca angustiada. Daí vem a expressão atribuída a Arquimedes: Eureka! O pastor da parábola vai ao encontro da ovelha desgarrada não porque ela merece, mas por sua situação de necessidade. É o fato da ovelha estar perdida que leva o pastor a procurá-la. Deus é assim com o pecador. Não podemos aplicar essa parábola à Igreja como se as 99 fossem as pessoas que pertencem à Igreja e a extraviada a que está fora. Se fosse assim, teríamos que dizer que no mundo atual a parábola começa a se inverter e talvez possa chegar o momento em que 99 estarão fora e só uma minoria ficará dentro. Não é este o pensamento da parábola. Aí fora e dentro se refere ao caminho da vida, da justiça onde Deus encontra misteriosamente a cada ser humano. 

 A parábola da mulher é mais concreta e mais revolucionária. Afinal aí, de fato, Deus é comparado com uma mulher pobre, dona de casa que luta para reencontrar a moeda que era o salário de todo um dia de trabalho. Do ponto de vista relacional, não é a mesma coisa uma ovelha que se cria e uma moeda que se tem guardada em casa. Mas, a dracma era o pagamento de um dia inteiro de salário agrícola e, neste sentido, a mulher não é igual ao pastor. Não tem cem dracmas. Tem só dez. Portanto, perdeu um décimo do que tinha e não uma entre cem.

 É bom contemplar a Deus como uma pobre dona de casa. Mora em casa pequena, de porta baixa e sem janelas como eram as casas pobres das aldeias do caminho de Jerusalém. Por isso, ela tem de, mesmo durante o dia, acender uma lâmpada para procurar a moeda. Varre a casa, arruma as coisas para procurar a moeda. Tanto em uma parábola como na outra, a conclusão é a alegria messiânica: “Há muita alegria no céu, isto é, no coração divino, por uma pessoa que se converta”. É uma alegria do amor e da salvação.  

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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