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Meditação bíblica para o domingo 06 de setembro 2015

Nesse 23° domingo comum do ano, o evangelho (Marcos 7, 31 - 36) nos mostra Jesus curando um surdo-mudo. Segundo o evangelho, Jesus está na região da Decápole, portanto no estrangeiro e passava em Tiro (hoje Líbano). E a cura é contada em um contexto da relação de Jesus com o pessoal de outra cultura e outra religião. Para os judeus, todos eles eram pagãos e impuros. Jesus toca no homem e não só isso, o unge com saliva (conforme a lei líquido que tornava impuro quem a tocava). Mas, no caso de Jesus, é o contrário, a saliva de Jesus cura, abre os ouvidos e lhe dá condições de falar.

Muitas vezes na Bíblia, a surdez é tratada como uma espécie de parábola do fechamento do povo à escuta da Palavra de Deus. É frequente os profetas dizerem: Tem ouvidos, mas não ouvem. O próprio Jesus retoma essa queixa. A surdez é símbolo do fechamento e resistência para escutar.

A cura se dá em um processo. Primeiramente, trazem o homem até Jesus e lhe pedem que imponha as mãos sobre ele. Quem traz? O evangelho deixa no indeterminado: trazem e pedem...  Jesus está no estrangeiro. Será que é um modo do evangelho dizer à comunidade de Marcos que essa deve ser mais aberta aos de outras culturas e religiões? Jesus toma o homem, o leva para fora da multidão e entra em uma relação pessoal e de envolvimento com ele. Toca na língua, põe saliva em seus olhos...

O evangelho diz que suspira... Como se fosse uma coisa que o faz sofrer. E ordena: Abre-te. (Em aramaico, sua língua materna que o homem não deveria compreender. Ou sim?). E o homem passa a ouvir e a falar. O povo reage e proclama; Quem é esse que faz os mudos falarem e os surdos ouvirem... Mas, será que Jesus consegue abrir a comunidade dos seus discípulos aos outros? Será que consegue abrir nosso ouvido à escuta da sua palavra que transpõe os limites da religião e toca no que é humano? apenas humano?

Até há pouco, no ritual do batismo, o celebrante tocava na língua do neófito e dizia: Efeta!, abre-te. Era para dar à pessoa batizada o direito de ouvir e falar a palavra de Deus. Que ele proclame essa palavra sobre nós e consiga abrir nossos ouvidos e nos fazer sair de nossas resistências culturais e sociais à sua palavra e ao seu projeto de amor. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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