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Meditação bíblica, sábado, 26 de março 2016

Sábado santo. Lembro-me de uma meditação do irmão Roger Schutz, prior de Taizé. Ele dizia que o mundo de hoje parece um contínuo sábado santo no qual Jesus está no túmulo. E a fé silencia. Mas, para mim, é principalmente um dia de espera.

Acho que minha vida mudou quando, jovem, descobri o encanto e a terapia da Vigília Pascal. Para mim, celebrar a Vigília vale como uma medicina para o corpo e para o espírito. Eu espero e chego a contar os dias para viver a Vigília Pascal. E em minha dor pela falta do mosteiro (que me tiraram), sem dúvida, a falta dói mais quando chega esse dia e eu não tenho a comunidade que tinha para celebrar a Vigília Pascal. É claro que minha mente me diz que mais importante do que celebrar é viver e que não estou mais no tempo religioso em que os cristãos podiam passar toda uma noite, do pôr do sol ao nascer do sol e era maravilhoso. Quase tentei isso durante alguns anos no mosteiro de Goiás e sentia que os irmãos e as pessoas que vinham celebrar conosco gostavam. Hoje vivo a diáspora (a dispersão) e devo assumir isso. E em uma sociedade onde a Vigília Pascal não diz nada, (a Igreja não formou as pessoas nessa cultura da fé que era a antiga, a dos primeiros cristãos), opto por me inserir e ficar quieto. Desde alguns anos, me tornei capaz de nem celebrar a Vigília. Antes eu não era. Acho que se não celebrasse, cairia doente e deprimido... Agora posso não celebrar. Faço-a no coração e de forma pobre como peregrino em um mundo que não tem mais esses sinais (tem outros que para mim são estrangeiros).

De todo modo, esse ano, tomei duas iniciativas: vim ao México pregar o retiro às beneditinas e fiz coincidir de forma que hoje celebro com elas a Vigília. De modo pobre, mas profundo. E antes de sair do Recife, consegui propor que uma parte do grupo de leigos que acompanho (o grupo da partilha), embora tenha sido só uma parte que aceitou, consegui que aceitassem celebrar eles e elas a Vigília, mesmo sem padre e de forma comunitária. Que bom.

Hoje releio a homilia que no século IV, Santo Agostinho, bispo de Hipona, no norte da África, fez para explicar aos irmãos o sentido de celebrar a noite de hoje e porque fazer a Vigília: 

Sermão de Santo Agostinho para o Sábado Santo

Irmãos e irmãs queridos,

Nós recebemos um convite para vigiar nesta noite. Este convite nos vem do apostolo Paulo que escreveu aos coríntios que fazia vigílias freqüentes e pede que nós o imitemos. Com muito mais fervor, devemos estar acordados nesta noite especial. Esta noite é a noite da vigília que é a mãe de todas as vigílias da Igreja. 

Nesta noite, irmãos e irmãs, temos de fazer vigília, ao menos nós que temos consciência de que, antes, sem Deus, por nossa forma de viver, éramos trevas, éramos noite. Vivíamos como na escuridão e, hoje, nos tornamos luz no Senhor. Por isso, iniciamos esta Noite santa acendendo uma luz nova. Por esta luz do Círio Pascal que ilumina a nossa noite poderemos resistir e impedir que as trevas da noite e a escuridão da vida voltem de novo a nos invadir. Por isso, é importante encher de luzes esta noite e não deixar que a luz do fogo pascal se apague em nós. Que esta luz nova, luz desta noite bendita, ilumine não somente o exterior mas o mais íntimo de cada um. É nesta noite que Deus realiza conosco a profecia do salmo que canta: “Para ti, as trevas não são trevas, a escuridão não é mais escuridão. A noite brilhará como o dia”.

Na madrugada desta noite, antes que o sol brilhasse no horizonte, nosso Senhor Jesus Cristo, vencedor do pecado e da morte, ressuscitou. Nesta noite, nós que cremos devemos vigiar. Nesta noite nasceu nossa alegria, ou melhor, renasceu do túmulo, porque do meio da escuridão brilhou a luz da ressurreição. A única tristeza que permanece é o peso de nossos pecados pessoais e sociais, mas Jesus Cristo ressuscitou para deles nos libertar. Alegremo-nos. Esta noite  já pertence, de fato, ao dia do domingo porque a ressurreição de Jesus tornou esta noite mais luminosa que qualquer dia claro. A ressurreição iluminou nossas escuridões. E nós expressamos esta iluminação pelo sacramento do batismo, sinal e instrumento de nossa ressurreição com Jesus.

Por isso, irmãos, nossa fé fica tão fortificada pela ressurreição do Cristo, que todo sono vai embora e esta noite, cheia das luzes de nossas velas e dos fogos que acendemos nas Igrejas de todo o mundo nos faz esperar, com todas as Igrejas espalhadas pelo mundo, vigiar para não sermos surpreendidos no meio da noite dormindo e sim esperando o Senhor que vem.

É preciso que as chamas da fogueira aqueçam nossos corações e permitam que nossos espíritos vejam além de nossos olhos da carne. Consagremos esta noite que se acaba com o domingo por uma grande festa e proclamemos ao mundo que, mesmo no meio das dores e das trevas de todas as desordens, Deus faz brilhar a luz da ressurreição na qual somos batizados e pela qual somos chamados a viver com o Cristo, agora e sempre. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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