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Meditação para a noite de Natal

                                                            Minha meditação para essa noite de Natal 


             “Não tenham medo! Eu lhes anuncio uma grande alegria que é a de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês o Salvador, que é o Cristo, Senhor” (Lucas 2, 10- 11).

            É importante que, nessa noite, recebamos como boa notícia de salvação esse mesmo anúncio que, naquela noite santa, o anjo disse aos pastores de Belém. A cada ano, as Igrejas cristãs repetem esse Hoje que atualiza essa palavra para nós e para o mundo atual. 

O que hoje podemos descobrir nesse texto do evangelho lido e repetido cada ano nessa noite é que o acontecimento divino ocorre apesardas intervenções opressivas e más dos poderosos do mundo, como foi para Maria e José a ordem do imperador sobre o recenseamento. Podemos dizer mesmo que não somente essas intervenções do poder opressor não conseguem destruir o projeto divino, mas acabem até favorecendo-o. O tal recenseamento ordenado por Júlio Cesar fez sofrer a José e Maria porque os obrigou a viajar naquela situação de gravidez avançada, mas foi o que possibilitou que Jesus nascesse em Belém como prometiam as escrituras. É misterioso isso: como um acontecimento opressor acaba favorecendo a realização do projeto divino. 

Esse projeto ocorre no mundo e em meio aos eventos políticos, mas a partir do mais baixo e insignificante. Só quem testemunha o Natal são pobres pastores que eram marginalizados da sociedade e da religião. E aí o evangelho mostra um contraste muito grande. De um lado, os pastores veem uma coisa linda e maravilhosa: contemplam o céu se encher de luzes, ouvem a palavra do Natal dita por um anjo e ouvem o cântico dos anjos dando Glória a Deus e anunciando paz para a terra. No entanto, aquela palavra recebida dos anjos deve ser confirmada com um sinal. A Palavra se concretiza em um sinal, um começo do acontecimento da salvação e aí é que vem o contraste: O anjo diz aos pastores: vocês encontrarão um menino recém-nascido, embrulhado em palhas e deitado em uma manjedoura de animal. 

Como é possível que todo aquele esplendor de luz e uma notícia decisiva e universal – a salvação para o mundo todo – tenha como sinal algo tão corriqueiro e humilde, quase banal, como é um menino pobre, recém-nascido, deitado em uma manjedoura? E como se traduz isso para nós? 

Tenho a impressão de que o evangelho dessa noite nos chama para prestarmos atenção aos anjos que anunciam a boa nova da paz hoje como possibilidade de nova aliança da humanidade em favor da paz e da vida. E também somos chamados a reconhecer as manjedouras de hoje onde estão nascendo os sinais de uma humanidade nova. 

Parece que, hoje, esses anjos do novo Natal não estão vindos da nossa Igreja fechada em si mesma. Essa, hoje, está mais preocupada com os cultos solenes que irá fazer do que com o seu diálogo com os pastores e pastoras pobres que pastoreiam a humanidade nas noites do mundo. Nesses dias, ouvi a voz dos anjos de Belém em um encontro de mais de 200 pessoas vindas de vários países do mundo que, reunidos em Sezano, perto de Verona, organizaram uma Ágora dos/das Habitantes da Terra. E reconheci uma nova manjedoura do Cristo na visita que com o grupo da partilha fiz ontem à Casa Frei Francisco, uma obra fundada por Dom Helder Camara e que acompanha e ajuda mais de 90 adolescentes em situação de risco nas periferias do Recife.

Hoje, os decretos de recenseamento de César Augusto se reproduzem nas arbitrariedades dos Bolsonaros da vida. Mas, pouco importa. Fernanda Chaves, assessora de Marielle Franco que estava com ela no carro na noite do atentado, venceu o medo. Eu a conheci na Itália em junho. E ela não sabia se poderia voltar ao Brasil, nem como fazer para cuidar da filha pequena e continuar a vida com o seu marido. Agora está no Brasil e decidiu aparecer, inclusive na imprensa. Quer continuar a luta de Marielle. Sofrida diante da injustiça institucionalizada que é nosso sistema de justiça, mas disposta a continuar a luta e principalmente revelando alegria e força interior. 

Ao atualizar a imagem da manjedoura, citei dois exemplos de certa forma extraordinários. Não quero concluir sem deixar claro que contemplo essa manjedoura do novo Natal em cada um/uma de vocês, na cotidianidade da vida e na luta de vocês, passo a passo, para viver esse processo de humanização sempre maior e mais profunda e assim ir engravidando o mundo de um novo Natal da humanidade que, apesar de tudo e contra tudo,  vai se tornando divina. Feliz Natal para vocês. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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