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No céu não há diferença de classes

Na ceia do Amor não há diferença de classes

                    O evangelho lido nesse 22º domingo comum é Lucas 14, 1. 7- 14. Sobre esse texto se podem fazer leituras fundamentalistas que acho perigosas. Como pensar que, no tal banquete do qual Jesus era convidado, ele aconselhou aos outros convidados que tomassem os últimos lugares como estratégia eficiente para o dono do banquete convidá-los para o lugar mais importante? Se Jesus fez isso, ele seria apenas um estrategista do mundo capitalista. A especialidade de Jesus seria ensinar as pessoas a vencerem a competição social. O evangelho seria lição de como se tornar maior do que o outro, como se fingir de humilde para passar os outros para trás. Será que, hoje, não há muitos padres e pastores que pregam nessa perspectiva? Se isso fosse o evangelho do reino de Deus, eu preferia ser ateu e ignorar as palavras de Jesus ou até falar mal delas. 

Então para compreender melhor o evangelho de hoje, a primeira questão é como descontruir esse tipo de exegese legitimadora de discriminação social e como ouvir as palavras de Jesus a partir da ótica que é a dele que nunca quis o primeiro lugar e nos chamou para segui-lo até o último de todos os lugares que alguém poderia ambicionar que é a cruz? 

Por favor, é melhor não lembrar que a Igreja tradicional nos ensinava: aceitou sofrer na sexta para ser elevado no domingo. Como ainda pode-se, hoje, sustentar esse tipo de meritocracia capitalista celeste como se fosse projeto de Deus? Isso só existe na cabeça de gente de Igreja que hoje fala contra o Sínodo da Amazônia, faz oposição ao papa Francisco e forma de grupos de padres para acabar com a Campanha da Fraternidade. 

No mundo antigo, especialmente, na cultura grega, as discussões em torno de uma refeição eram um gênero literário comum. Logo nos lembramos do Banquete de Platão. Inserido nesse contexto cultural e falando a pessoas desse mundo grego, a comunidade de Lucas reuniu vários episódios da vida e da ação de Jesus em torno de uma ceia. Dos quatro evangelhos, só o de Lucas tem essa sessão que é bem escrita e ordenada. Provavelmente, por trás dessa discussão está o fato de que, já nos anos 80, época de Lucas, as comunidades cristãs discutiam sobre quem pode e quem não pode participar da ceia de Jesus. Havia grupos que preferiam reservar a ceia para cristãos mais perfeitos e outros que queriam abrir a mesa a todos. 

Parece que esse é o pano de fundo desse relato do evangelho. Provavelmente, a história começa assim: Era um sábado. Conforme seu costume (Cf. Lc 4, 16), Jesus vai à sinagoga. No final do culto, um dos dirigentes (em grego, o homem é chamado de archom, homem importante) o convida para jantar em sua casa e Jesus aceita. Nos sábados, (ou na sexta feira à noite, quando o Shabbatjá havia começado), os rabinos, fariseus e escribas costumavam se convidar uns aos outros para a refeição do Shabbate cada refeição tinha um caráter coletivo e festivo. Foi neste quadro que se passaram as cenas contadas no capítulo 14 de Lucas. Elas têm uma sequência lógica. A primeira é a do convite e acesso à mesa do fariseu. Jesus percebeu que ali só tinha gente importante e considerada “ pura”, isto é, membros da elite religiosa e social da aldeia. 

Lucas resolve nesse contexto tratar da relação que existe entre refeições, hospitalidade, observância do sábado e cura.E como o mais importante para Jesus é a questão da saúde e da vida, resolveu começar por essa última. O evangelho diz que ali havia uma pessoa doente que por sua doença, a lei judaica considerava impuro. Para poder celebrar o sábado, fariseus e escribas deveriam se manter puros e não ter contato com gente doente. Jesus desrespeita essa norma. Começa a refeição atenção justamente chamando a atenção sobre o excluído da refeição.(Isso está nos primeiros versos do capítulo 14 que o lecionário de hoje pulou: v 2- 6 ). Lucas conta a história da cura, como para responder sobre quem tem acesso e quem não o tem, quem participa e quem não participa da refeição considerada sagrada (Shabbat). De novo, Jesus deixa claro que a preocupação com a pureza não era só religiosa. Tinha por trás uma visão de preconceito e discriminação social. E isso Jesus denuncia e, o quanto pode, destrói.  

Para Jesus, reintegrar a pessoa excluída na sociedade e curar uma pessoa sofredora é a questão primeira. Antes mesmo de se reclinar à mesa, ele cura o homem doente. O texto diz que ele o toma pelas mãos, isto é, se envolve corporalmente com ele, sem se preocupar se aquele contato o tornaria legalmente impuro. E ao ver que eles o observam, provoca-os sobre o sentido do sábado. Essa deveria ser a chave para compreender esse texto do evangelho. A única preocupação de Jesus é a opção de reintegrar as pessoas excluídas e de dizer que elas deveriam ter lugar nas nossas mesas e na nossa vida. Por isso, ele começa dizendo aos convidados: não queiram passar aos outros para trás, não se preocupem em ocupar os primeiros lugares...E depois, fala diretamente ao fariseu que o convidou. Imagine você ser convidado para comer em uma casa de algum amigo importante e ousar dizer a ele quem ele deve convidar e quem não deve e pior ainda propor que ele não convide amigos, parentes e gente importante que poderão retribuir o convite. Ao contrário, deve convidar os pobres e excluídos que nunca poderão retribuir. Aí Jesus proclama mais uma bem-aventurança do evangelho: Feliz você quando acolher e ajudar quem não vai poder lhe retribuir (porque, aí sim, Deus lhe retribuirá). 

Vocês lembram de que quando Jesus diz aos discípulos que o homem não tem direito de mandar embora a mulher quando se cansa dela, os discípulos reagem com o argumento: Por que, então, na lei, Moisés permitiu que o homem mande a mulher embora? Jesus respondeu: isso foi por causa da dureza dos corações de vocês. Minha impressão é que essas comparações de Jesus na ceia é também por causa da dureza do coração da sociedade atual e mesmo da hierarquia, do clero e de muitos grupos de nossas Igrejas que segregam a eucaristia, defendem um apartheid eucarístico e fazem questão de manter o controle autoritário sobre quem comunga e quem não pode comungar (ou quem pode e quem não pode celebrar, como se Jesus tivesse inventado o clero e fosse culpado hoje do clericalismo de padres e bispos fechados e que falam do reino de Deus como se fosse o reino de Bolsonaro).  

Imagino hoje Jesus entrando em uma catedral nossa na hora da missa e perguntando: Cadê os sofredores de rua? Onde estão os preferidos do meu Pai, os excluídos que estão jogados nas calcadas por aí? Eu não quero participar dessa cerimônia hipócrita de vocês. Se quiserem me encontrar e se unir a mim, vão para os encontros de preparação do grito dos excluídos. E quem quiser me encontrar, no dia 07 de setembro, vocês poderão me ver lá. Espero que, ao menos, o pessoal que coordena o grito e diz: A vida em primeiro lugar. Lutamos por direito, justiça e liberdade, ao menos eles não falem e em nome dos excluídos e sim deem mesmo lugar a eles para poderem gritar. E se a elite do atraso não escutar o grito deles o Pai de amor os escutará. E aprendam: na ceia de amor do meu Pai não existe hierarquia, não há primeiro nem último lugar. Na sociedade em que ele viveu e ainda hoje no mundo de nossas paróquias e catedrais, talvez o único modo de dizer isso é reafirmar o que Jesus disse: Muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão os primeiros. 

O problema é que, mesmo se o papa Francisco, a toda hora, critica o Clericalismo, a maioria dos padres, bispos e pastores leem esse evangelho, mas interpretam que essas palavras não foram ditas para eles (claro). Os primeiros que serão os últimos serão outros (quem?). Eles podem continuar sendo primeiros que Jesus já morreu e não virá perturbar ninguém. O arcebispo de Sevilha, grande inquisidor da Lenda dos Irmaos Karamazov de Dostoievski, já afirmou isso: O que você veio fazer aqui para nos incomodar? 

Hoje, muitos padres jovens, muitos pastores e prelados nem precisam dizer isso. Agem como se o evangelho nada tivesse a haver com eles. Quem sabe, compete a nós começarmos por nós a nos colocarmos no último lugar – na inserção – junto aos excluídos para podermos gritar: A vida em primeiro lugar. Lutamos por direitos, justiça e liberdade!

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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