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Nós e os outros

O evangelho lido pelas comunidades nesse domingo (Marcos 9, 38- 48) nos mostra Jesus no seu caminho para Jerusalém, em um momento íntimo com o grupo dos doze, respondendo a questões que eles colocam e provocando outras que eles não puseram. 

Aprendi e gosto de sempre ler o evangelho vendo por trás das palavras as questões da comunidade que escreveu o texto no final do século I e não somente uma conversa entre o Jesus histórico e seus discípulos. Assim, a primeira questão colocada por João (é a única vez no evangelho de Marcos em que ele aparece tomando uma iniciativa) é sobre o fato de que alguém que não era do grupo deles curava as pessoas das energias impuras (das depressões da vida), ou seja, como se dizia naquele tempo: expulsava os demônios. E João queria que Jesus proibisse. “A tal pessoa não é um dos nossos”.  Ele não diz “aquela pessoa não segue você, Jesus”. Ele diz “não é dos nossos”. Queria que Jesus proibisse. Pouco importava a João quantas pessoas foram curadas ou como iria ficar as que seriam privadas da cura por causa daquela proibição. E é estranho ou mesmo irônico João exigir o monopólio dos exorcismos, quando pouco antes o evangelho tinha contado que eles (os discípulos) não tinham conseguido libertar um homem (Mc 9, 18. 28- 29). É, então, vergonhoso saber que aquilo que eles não estavam conseguindo fazer, queriam que Jesus proibisse a uma pessoa que conseguia, mas não era um do grupo deles. Quantas vezes, esse tipo d problema de competição, de inveja e de controle “espiritual” ocorre até os nossos dias. Jesus dá duas respostas. Na primeira, diz claramente: “Não é para proibir”. E conclui: “Quem não é contra nós, está do nosso lado”. Parece uma versão nova de um incidente do tempo antigo do deserto quando os auxiliares de Moisés lhe pedem que proíbam algumas pessoas de profetizarem “porque não são do nosso grupo”. Moisés também respondeu: “Queria eu que todo mundo profetizasse”... (Livro dos Números 11, 29). Jesus retomou a reação de Moisés, mas foi mais radical. Falou dos “pequenos que creem em mim”. João estava preocupado em manter o monopólio do poder do grupo sobre as pessoas. Jesus diz que até um copo d’água dado a um pequenino que crê nele é recompensado. Não deixa de ser irônico que aí o problema pior não ocorre com alguém que é de fora e sim com alguém que é de dentro e entretanto serve de tropeço para os outros e impede as pessoas de caminharem. Jesus  completa o pensamento com uma proposta radical: Se um membro do teu corpo te serve de tropeço, arranca-o e joga-o fora”... As pessoas leem isso e ficam apavoradas com a interpretação literal. 

Na época do evangelho de Marcos, todo mundo conhecia a palavra de Paulo sobre a comunidade como um corpo, no qual uns fazem papel de cabeça, outros de braços e outros de perna. Na carta aos coríntios (cap 5), Paulo tinha dito que era melhor amputar um membro doente do que deixar o corpo todo se contaminar. Desde o tempo de Jesus e até a época de Marcos, como até nossos dias em certos grupos extremistas, quem trai o grupo ou comete um erro grave é eliminado (pena de morte mesmo). A comparação da mó de moinho amarrada na pessoa que é jogada no mar alude a esse tipo de eliminação da pessoa em falta. O evangelho alude a isso mas propõe outra coisa e bem mais humana: simplesmente tire a pessoa da comunidade. (Corte o membro do corpo que prejudica o corpo todo). Mas, não mate a pessoa. 

Hoje vivemos em uma realidade na qual muitos lerão esse pedaço do evangelho à luz dos escândalos atuais provocados pelo problema da pedofilia de tantos clérigos aqui e ali. No entanto, o contexto do evangelho aponta para outro tipo de escândalo: os ministros de Deus que agem como João querendo só para eles o dom que é de todos. E outros ministros que querem fazer curas e falar em nome de Jesus mas se descuidam dos pequenos e dos pobres. É o escândalo de padres e pastores que atualmente apoiam a direita e não tem nenhum discernimento de sabedoria política. Alguns simplesmente têm no seu DNA uma inclinação por candidatos fascistas e autoritários. (Na História recente, inclusive aqui na América Latina, muitas vezes, a hierarquia pendeu para esse lado). Outros ministros votam em quem faz guerra e em quem é contra os pobres, desde que garanta a manutenção dos costumes e normas da Moral Sexual que a Igreja considera cristã. Assim, na eleição mais recente nos EUA, pastores e bispos norte-americanos optaram por Trump, no Rio de Janeiro, autoridades religiosas, mesmo católicas manifestaram clara preferência por Crivella como prefeito e assim por diante). 

Podemos nos perguntar se em um futuro próximo, esse escândalo de pastores e fieis tão contrários ao espírito do evangelho não será visto como algo pior ainda e mais trágico até do que a pedofilia de tantos clérigos, por mais grave e negativa que esse crime seja. Um parece ser provocado por desequilíbrio e doença mental. O outro por pura crueldade e arrogância dogmática, alimentadas pelo fundamentalismo que se condena em outros grupos cristãos. 

Para nós, é uma boa notícia (um evangelho) saber que, para Jesus, pouco importa se alguém que serve ao povo, seja na Política, seja em outra área social é do nosso grupo (da Igreja) ou não. O importante é que sirva à causa dos pequenos (alguém que dê ao menos um copo d’água a um desses pequeninos...”). É também uma alegria saber que uma forma de participar com Jesus desse seu caminho a Jerusalém é o nosso serviço aos pequeninos de Deus. Que ele nos confirme nesse caminho.  

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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