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Nossa aventura em direção à Luz

                  Todo o Brasil, principalmente o Nordeste, festeja São João. Na cordilheira dos Andes, vestida de neve para a festa, nesses dias que vão do 21 a 24 de junho, se celebra o Inti Raymi, a festa do Sol. O centro maior das festividades é na fortaleza de Sacsayahuaman, antigo centro de culto inca a dois quilômetros da cidade de Cuzco no Peru. No entanto, por toda a cordilheira, as comunidades indígenas marcam o solstício do inverno em nosso hemisfério com ritos dedicados ao Sol e a toda luz que clareia a nossa vida.

Assim como na Páscoa judaica, as famílias jogam fora todo fermento que, por acaso, possa ainda se encontrar nas casas, as comunidades andinas ficam um dia ou dois sem acender nenhum fogo. Assim, celebram com maior intensidade o fogo novo que é aceso por aquele que simboliza o Inca. Em 1570, o governo colonial proibiu essa festa sob a justificativa de que ela era idolátrica e contra a Igreja Católica. Na verdade, o fato é que os índios organizados para a festa se sentiam mais fortes para armar resistências à escravidão e ao colonialismo. 

Mesmo proibidas, durante séculos, as celebrações sempre se mantiveram clandestinamente. Nunca os índios pararam de celebrar o Sol. Somente em 1940, a partir de antigos escritos contando em detalhe como eram os festejos, as comunidades retomaram a fazer a festa pública. Hoje, em Cuzco, essa festa reúne mais de cem mil pessoas. Turistas vêm do mundo inteiro para participar. Certamente, para muitos, fazer festa ao sol tem uma dimensão mítica e folclórica. No entanto, para muitos, é um rito que lhes faz retomar a relação com seus antepassados e honrar a natureza inundada de novo com a luz do sol. 

Nos tempos coloniais, os índios festejavam a luz, quando podiam sair da escuridão das minas nas quais, durante o dia, eram escravos. No Brasil colonial, as comunidades negras só podiam festejar seus Orixás durante a noite. E os senhores de engenho que ouviam os atabaques e os cânticos acreditavam que eram puros lamentos de escravos. Ao contrário, aqueles ritos faziam a religação dos filhos com os pais e as mães divinizados, assim como os índios andinos retomavam a sua condição de filhos e filhas do Sol. 

Atualmente, no mundo, enquanto os filhos e filhas do Sol celebram a sua dignidade no carinho à mãe Terra e nas margens do lago sagrado (o Titicaca), nos palácios dos grandes, a cada dia, governos monstruosos se dedicam a novos golpes contra os povos aos quais deviam servir. Na Colômbia, o presidente eleito é contra o processo de paz. Provavelmente tem negócios com os  fabricantes de armas. No Equador, o novo governo abre novos contratos com mineradoras que expulsam comunidades e destroem a natureza. No Peru, se sucedem governos e a política é a mesma. No Brasil, não precisamos comentar que todo brasileiro sabe o que estamos sofrendo. Nos Estados Unidos, o presidente tinha decidido de prender as mães e separá-las de suas crianças. Mesmo governadores do partido de Bush declararam que aquilo era um crime contra a humanidade. E a medida foi abolida. No entanto, o núcleo da desumanidade contra os migrantes continua. 

                Eduardo Galeano contava que no Haiti o povo dizia que só se deve contar histórias à noite. De dia, é perigoso.  Que histórias poderemos contar em nossas noites para que o sol venha iluminar um novo dia da libertação? É urgente nos organizarmos para a festa e, assim, nos sentirmos juntos nas lutas de hoje.  

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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