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O cego de nascença somos nós

                Nesse quarto domingo da Quaresma, as Igrejas antigas leem e meditam no relato simbólico da cura do cego de nascença (João 9). Uma das páginas mais belas, mais bem escritas e de forma viva de todos os evangelhos. Mais do que a reportagem de uma cura efetuada por Jesus, essa história simboliza nosso processo da escuridão de uma vida sem perspectivas para a iluminação que Jesus abre pelo batismo para a nossa missão no mundo (como cristãos ou não). 

               Não podemos esquecer que a comunidade que conta essa história (a comunidade que costumamos chamar de João ou nos últimos tempos, do Discípulo Amado) havia sido expulsa ou de alguma forma rompido com a sinagoga (anos 80). E nessa parábola do cego de nascença, transparece a história do pobre incapaz de entrar na sinagoga (só podiam entrar as pessoas sadias) e que ficava na porta pedindo esmola, (dependia dos outros). O encontro com Jesus muda a sua vida. Diferente de outros evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) nos quais o doente pede a cura, nesse caso, Jesus toma a iniciativa. Faz lodo com a saliva, passa nos olhos do cego como em uma unção e diz: Vai e lava-te na piscina de Siloé (o enviado). O homem foi, lavou-se e ficou vendo... A Igreja lia esse evangelho nesse domingo ao dar aos catecúmenos a unção pre-batismal (ele me ungiu) e dirigi-los assim para a piscina do batismo. 

            A cura do cego de nascença provoca um conflito. Os rabinos da sinagoga querem saber como ele ficou curado. Interrogam os pais do homem que fora cego e esses escapam prudentemente do problema (Já tem idade. Perguntem a ele). Interrogam-no e ali o homem vai de confissão em confissão de reconhecimento em reconhecimento. Primeiramente, disse: Um homem chamado Jesus. Depois em meio aos conflitos, reconhece: Penso que ele é um homem de Deus. Depois diz mais: é um profeta. E finalmente adere à fé nele. Chama-o Senhor. E Jesus lhe pergunta: Crês no Filho do Homem? O cego lhe pergunta inocentemente: Quem é esse, Senhor, para eu crer nele? - Sou eu que estou falando com você, agora. E o cego se prostra: - Então eu creio, Senhor. E o adora.... 

            Infelizmente, esse conflito entre o homem que fora cego e a instituição eclesiástica continua. Na história aqui contada o conflito é com a sinagoga. E o motivo é que essa quer ter o monopólio da graça divina. Qualquer cura e qualquer salvação não poderia passar fora da sinagoga. (Tu nasceste cheio de pecado e queres ensinar a nós que somos puros, isso é, fariseus?). Esse conflito pode se dar com qualquer Igreja ou padre que se sente dono/proprietário exclusivo das coisas de Deus. Pensa ter o monopólio da graça. Como a graça da iluminação pode acontecer fora do nosso domínio? E o texto sublinha alto que "Jesus, ao saber que o cego fora expulso da sinagoga, (mas de fato como cego, ele nunca tinha podido entrar), vai ao seu encontro e é ali que se dá o encontro de fé pleno: Creio, Senhor.... 

             Gosto muito desse texto e acho que a Igreja deveria lê-lo não apenas de três em três anos na Quaresma (ano A), mas todos os anos. Só lamento que muitos padres e pastores continuem farisaicamente falando mal da sinagoga que excluiu o cego e continuem hoje fazendo a mesma coisa - excluindo pessoas diferentes e consideradas pecadoras - como se eles fossem donos exclusivos da graça de Deus. Mesmo se é bom olhar o cego de nascença como figura dos catecúmenos que se aproximam da luz da Páscoa e da iluminação do batismo, a última advertência de Jesus é séria também para nós: - "Cuidado para não te acontecer alguma coisa pior ainda"

               O que poderia ser pior ainda do que a escuridão, a cegueira anterior? Substituir uma instituição fechada por outra igual, só que com outro nome e a pretensão igualmente pretensiosa de deter direitos exclusivos sobre o uso do nome de Deus? Esse evangelho nos chama a caminharmos para o batismo (mergulho) na vida amorosa de Deus, onde ela se manifeste, dentro ou fora de qualquer Igreja ou religião, um mergulho na comunhão universal na qual o ser humano possa ser reconhecido como divino e todos nós possamos escutar de Jesus a mesma pergunta que ele fez ao cego: - Você crê no Humano (Filho do Homem)? E nós respondemos: - Quem é, como é esse ser humano, essa humanidade, para que possamos crer nele? E Jesus responde: - Sou eu. 

               Isso quer dizer, em mim, você pode reconhecer e adorar todo ser humano como lugar em que Deus está como está no universo e aí sim você recebe de mim (Jesus) a iluminação de uma vida nova, um batismo que é sacramento de humanidade nova e universal. 

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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