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O Corpo de Cristo somos nós

Meditação para a Festa do Corpo e Sangue de Cristo –

 Nesta quinta-feira, a Igreja Católica celebra a festa do Corpo e Sangue de Cristo. Esta festa foi criada em 1264, a partir de uma devoção iniciada na Bélgica. Tinha como principal objetivo responder a hereges que contestavam a presença real. A benção do Santíssimo e procissão com o ostensório tinham como objetivo substituir a comunhão dos fieis na missa que, praticamente, se tornava rara. 

O Concílio Vaticano II insistiu que a presença do Cristo na eucaristia é principalmente para ser comida. Deve ser sinal profético de partilha. A comunhão da missa deve ser para suscitar "pão em todas as mesas". Então precisamos rever esses gestos litúrgicos ligados à adoração do Santíssimo e procissão. O evangelho que lemos neste ano (A) nessa festa é João 6, 51- 58. É uma palavra que Jesus teria dito na discussão que teve com discípulos vindos do Judaísmo, portanto ainda muito ligados à leis e rubricas. Jesus disse a eles: “O pão da vida descido do céu sou eu”.  

É possível que no final do século I, as comunidades cristãs já tivessem caído em certo sacramentalismo litúrgico. Por isso, a comunidade do quarto evangelho preferiu não repetir mais a narração da instituição da eucaristia, contada na carta aos coríntios (1 Cor 11) e em Marcos, Mateus e Lucas. No capítulo 6, o quarto evangelho mostra Jesus discutindo com os crentes mais presos ao legalismo que só Ele como pessoa e como projeto de vida é que pode servir como alimento e não qualquer rito. E no capítulo 13, no lugar da instituição da eucaristia, mostra Jesus lavando os pés dos discípulos e discípulas presentes no cenáculo.

Para acolher esse evangelho como Boa Notícia, é preciso descobrir essas palavras de Jesus em um sentido que vai além do que os contemporâneos de Jesus ou os interlocutores da comunidade joanina entenderam. Também vai além daquilo que muitas vezes, é pregado nos templos católicos do mundo todo, na festa de hoje . Conforme o evangelho, os adversários de Jesus que o ouviam se perguntavam o que significava concretamente ele dar-se a si mesmo como alimento e insistir que quem não comesse a sua carne e não bebesse o seu sangue não teria participação na vida dele. A tradição da Igreja interpretou essas palavras afirmando que Jesus se faz presente no pão e no vinho da eucaristia. Ensinou que a eucaristia rememora a cruz de Jesus como sacrifício oferecido ao Pai para a salvação do mundo e que, ao nos alimentarmos do pão consagrado, nos unimos a Jesus. Atualmente, interpretamos a paixão de Jesus não como sacrifício ao Pai e sim como testemunho (martírio) do projeto divino ao mundo. E a partir desta visão diferente, a eucaristia também retoma o seu caráter de sinal ou sacramento. A eucaristia só tem seu sentido completo se se concretiza na partilha e na comunhão efetiva com as pessoas. O sacramento da eucaristia não é mecanicamente o pão e o vinho e sim a comunidade reunida, a unidade dos irmãos e sua disposição de partilhar com os outros, especialmente, os mais carentes tudo o que somos e o que temos. 

No século IV, Santo Agostinho ensinava aos novos batizados na noite de Páscoa: “O que vocês veem no altar, o pão e o vinho são sinais (sacramentos) do que nós somos. Nós é que somos o Corpo de Cristo. E o pão e o vinho consagrados representam o que nós somos. Quando vocês vierem comungar e o celebrante disser a cada um: Corpo de Cristo. Vocês respondem Amém ao que vocês são. Vocês são o Corpo de Cristo e o pão é corpo de Cristo para que vocês se comportem como corpo de Cristo. Respondam Amém ao que vocês são: Corpo de Cristo” (Sermão 207). 

Diante disso, peço a Deus  que a nossa eucaristia possa voltar a ser celebrada como Ceia do Senhor, como momento de partilha e de festa na comunidade – como ceia  de amor, carinho, relação de solidariedade e não como um culto por demais hierárquico, celebrado em uma forma ainda muito clerical e pouco comunitária e ainda insistindo na visão sacrificial. 

Em cada missa, depois de lembrar as palavras de Jesus na ceia, o celebrante diz: Eis o mistério da fé! Esse mistério da fé é visto como sendo o pão e o vinho. No entanto, o mistério da fé no qual devemos crer é principalmente a comunidade ali reunida para celebrar. É a comunidade que, em cada eucaristia, se torna verdadeiramente Corpo de Cristo...

É bom lembrarmos que, conforme os evangelhos, Jesus rompeu com a cultura dominante em sua época e fez de todas a refeições das quais participou uma ceia aberta a todos, seja do seu grupo, seja de outros grupos. E foi sempre acusado de comer com pecadores e gente de vida errada.  A sua última ceia foi tão inclusiva que até o traidor Judas antes de sair no meio da ceia recebeu de Jesus o pão molhado que era dado (na ceia judaica) como sinal de carinho privilegiado. Ao contrário disso, apesar de todos os esforços do papa Francisco, ainda predomina em nossa Igreja uma espécie de apartheid eucarístico – protestante não pode comungar – gente divorciada ou que vive uma vida moral considerada pela Igreja como irregular não pode comungar e assim por diante... E Jesus disse claramente: Eu vim não para os justos e sim para os pecadores. 

Então, nessa festa de Corpus Christi, me lembro de Dom Helder Camara que, retomava uma palavra de São João Crisóstomo no século IV e  dizia: Nós não temos direito de honrar o corpo de Cristo na eucaristia, se não o honramos e cuidamos dele na pessoa dos pobres e dos necessitados que estão em nossas ruas e nas calçadas em frente às nossas casas... A eucaristia existe para que lutemos por “Pão em todas as mesas, da Páscoa nova a certeza: A festa haverá e o povo a cantar: Aleluia”.

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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