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O evangelho da misericórdia

Muita gente lê as palavras de Jesus de um modo que parece um discurso contra a lei judaica. "Ouvistes o que foi dito na lei. Eu, porém, vos digo": E aí vem a diferença feita por Jesus. De fato, Jesus ataca mais a tradição oral dos fariseus, o modo como eles interpretam a lei do que a própria lei em si. Alia's ele já tinha dito antes: Eu não vim para acabar com a lei e sim para levá-la à sua plenitude. A plenitude da lei é o amor misericordioso. 

Quem estuda as legislações antigas sabe que a lei mosaica representa o que há de mais humano entre todos os códigos antigos de leis. Mesmo a interpretação dos rabinos já pedia amor e misericórdia. “A finalidade da lei do talião (“olho por olho, dente por dente”) era justamente limitar e controlar a possibilidade de vingança”.  A tradição judaica e o dito dos pais contém elementos muito diversificados e ricos, alguns em um sentido mais universal e humano e outros elementos e frases que se podem interpretar em um sentido mais estrito e rigoroso. Jesus entra nessa polêmica e toma posição criticando algumas posições mais vigentes no judaísmo de então. A sua proposta não é para cancelar ou mudar a tradição e sim para aprofundá-la e universalizá-la.

Esse primeiro momento do discurso se encerra por um mandamento: “Sejam perfeitos como o Pai é perfeito” (5, 48). A comunidade de Mateus manteve a palavra original de Jesus que o Evangelho de Lucas traduziu dizendo: “Sejam misericordiosos como o Pai é misericordioso”(Lc 7, 36). Sem dúvida, o conteúdo mais profundo é o mesmo. Mas, Mateus guarda o sentido de “plenitude”. O judeu André Chouraqui traduz por “Sede íntegros, como vosso pai dos céus é íntegro” ( o termo corresponde ao hebraico “tâm” e expressa a idéia de plenitude, de realização e de paz. É diferente do termo “qedousha” que significa “santidade”. A integridade é a virtude messiânica por excelência e evoca a harmonia do universo e a reconciliação do ser humano que, em sua vida harmonizada, pode unificar o tempo e a eternidade.

Hoje, as comunidades podem compreender essa ordem de ser perfeitos no sentido de “Vão ao máximo de sua capacidade de ser”. A perfeição de um animal é ser o mais profundamente possível “perfeito” em sua espécie. A perfeição de um ser humano consiste em ser plenamente humano, atingir a realização de todas as suas potencialidades. Hoje, ser humano significa sentir-se parte integrante do universo, um membro da comunidade da vida que abrange todos os seres vivos.

Para nós, cristãos, o plenamente humano sempre nos lembrará Jesus, o Filho do Homem, ou o Humano, irmão universal de todos os seres vivos. Ele nos chama a, sendo nós mesmos (as), ser o mais possível semelhantes a ele. O que constitui profundamente a pessoa de Jesus é a sua fé e o seu amor ao Pai e ao reino. Jesus herdou isso como filho de Israel e essa herança também nos diz respeito. Não se trata, então, de uma perfeição moral que fosse distante de nós, mas de um assumir o nosso modo real e profundo de ser, a nossa real sensibilidade humana em tudo o que ela tem de educacional, de afetivo e sexual e a partir daí evoluir com esse material, o mais possível no seguimento de Jesus e no ser como Deus, voltado para fora de si mesmo como ato de amor.

(Quem quiser ler esse mesmo comentário, mas mais desenvolvido e em conversa com jovens e com pessoas de base, saiu agora pela Editora Santuário, um novo livro meu: Conversas com o evangelho de Mateus")


Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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